Pequenos prazeres: a revolução do cotidiano

Os pequenos prazeres pertencem a outra ordem de experiência. Não constituem um estilo de vida; constituem um modo de habitar o mundo. Mais que uma teoria. É uma decisão. Foto: Pixabay

A vida é, no fim das contas, a soma de pequenos prazeres. Sei que alguns identificarão nessa afirmação um gesto de alienação, um sintoma de individualismo ou, na melhor das hipóteses, uma expressão do velho pensamento pequeno-burguês. Não me importo.

Recuso-me a entregar a brevidade da minha existência a entidades abstratas como “Estado”, “Revolução”, “Conscientização” ou “Transformação Social”. A abstração é um vício de quem não suporta viver.

Quando falo em pequenos prazeres, não me refiro ao minimalismo, à simplicidade voluntária ou a qualquer uma dessas fórmulas que o mercado periodicamente transforma em mercadoria. São velhas intuições acondicionadas em embalagens novas. Mudam os nomes, permanecem os mecanismos: vende-se, agora, um marketing existencial mais sofisticado, mais discreto, mais cool.

Os pequenos prazeres pertencem a outra ordem de experiência. Não constituem um estilo de vida; constituem um modo de habitar o mundo. Mais que uma teoria. É uma decisão.

Epicuro compreendeu isso com rara clareza. A felicidade não nasce da multiplicação dos objetos desejados, mas da redução da distância entre nós e aquilo que já está ao alcance da mão.

A verdadeira riqueza não consiste em ter grandes posses, mas em ter poucas necessidades. Nessa sentença de Epicuro, há uma antropologia inteira.

Não se trata de exaltar a pobreza, nem de fazer da simplicidade uma virtude moral. Trata-se de reconhecer que o desejo ilimitado rompe precisamente a intimidade que torna possível o prazer.

Precisar de mais, de sempre mais, não aproxima ninguém da felicidade. Produz apenas um deslocamento contínuo do horizonte. O suficiente nos abandona porque a imaginação aprende a desejar antes mesmo de experimentar. Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco.

É nesse ponto que toda sofisticação se torna suspeita. Não porque seja condenável, mas porque facilmente converte o prazer em objeto de mediação. Já não basta viver; é preciso consumir a experiência de viver.

A vida cotidiana, empírica, concreta e ordinária permanece sendo a maior reserva de felicidade disponível para aqueles que ainda não entregaram o coração ao vazio de uma vida ocupada demais.  

Talvez seja essa a lição mais difícil de aprender: a vida não se desenrola nas grandes causas, mas na sucessão irrepetível dos instantes.

Aproximar-se da vida cotidiana talvez seja a única forma autêntica de liberdade e singularidade. E é justamente aí, nesse instante carregado de realidade, que ressoa a advertência de Jorge Luis Borges: cada momento é uma arma carregada, apontada e pronta. Para nos matar ou para nos salvar dos assaltos do destino.

Doutor em Educação. Colunista do Estado de Minas. Filósofo (de boteco) e atleticano.

Leia também:

Entre a rua e o algoritmo: memória, alteridade e inteligência artificial

Deputado do PL sobre eventual aliança com Aro: ‘não sei se teria condições de engolir’

A mesa, o chão e a campainha — ou: o que a gente faz enquanto a água ferve

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse