Quando o governador eleito Cleitinho Azevedo convidou a Associação Mineira de Municípios para integrar sua equipe de transição, logo após o primeiro turno, o convite não foi dirigido a um correligionário. Foi dirigido ao presidente de uma entidade apartidária, que representa 853 prefeituras administradas por partidos dos mais diferentes campos. Aceitei em nome do municipalismo.
Semanas depois, já dentro desse processo, anunciei meu voto em Lula no segundo turno. Não falei como presidente da AMM: falei como cidadão, eleitor e prefeito de Iguatama. As duas decisões são independentes entre si e legítimas em suas próprias esferas. Mas a convivência entre elas é exatamente o que me move a escrever.
Não escrevo de uma tribuna confortável. Em Iguatama, dois grupos tradicionais, Cascavel e Urutu, dividiram a política por décadas sob a mesma lógica que hoje envenena o debate nacional: quem não está comigo está contra mim. A cidade adoeceu. Encerrar essa disputa custou, mas significou sentar com adversários históricos e governar com quem não votou em mim. Hoje Iguatama não é uma cidade sem divergências; é uma cidade onde a divergência não impede o trabalho.
Cleitinho tem demonstrado o mesmo princípio. Um governo que abre espaço para uma entidade apartidária no coração da transição, e que tem como vice Luís Eduardo Falcão — ex-prefeito de Patos de Minas e ex-presidente da AMM, municipalista de convicção —, começa sinalizando algo raro: que o interesse dos municípios está acima de siglas e de diferenças ideológicas. É esse método que nos aproxima: respeito por quem discute ideias, por quem diverge com convicção, sem ódio ou menosprezo por quem pensa diferente.
Há entre Lula e Cleitinho uma distância ideológica real, mas também trajetórias de vida os aproximam. Ambos vieram de baixo: um deixou o Nordeste ainda criança, foi torneiro mecânico e sindicalista; o outro trabalhou como verdureiro antes de entrar na política. Quem já contou moeda no fim do mês entende por que uma família depende de política pública e por que o atraso de um repasse significa sofrimento imediato para quem mais precisa dele.
Em nossas cidades, prefeito de diferentes ideologias precisam de repasse e convênio para administrar problemas parecidos, como obra parada e fila de hospital. Um estado desse tamanho não pode ter interlocução intermitente com a União. Cada silêncio institucional custa leito, asfalto e merenda. Onde houver convergência em favor dos mineiros, que se construa a ponte; onde houver divergência, que se faça o contraditório com respeito e dados na mão.
Estamos diante de uma janela rara. Se ela se fechar por cálculo eleitoral, será uma perda para Minas. O cidadão não espera que seus representantes concordem em tudo. Espera que trabalhem por ele. Aprendi em Iguatama que a paz política não é a vitória de um lado sobre o outro, mas a decisão, sempre corajosa e custosa, de colocar a cidade acima da rixa política. É isso que defendo para Minas Gerais e para o Brasil.