Política é estratégia; não romance

Sejamos realistas. Nem todo governante precisa ser um príncipe encantado, basta que ele seja um bom jogador
Maquiavel e política
Reprodução / Google Images

Quando se fala em política, muita gente ainda tem uma visão romântica: aquela ideia de que o bom governante é alguém movido apenas pelos mais nobres ideais, guiado por um senso inabalável de justiça e virtude. É muito fofo pensar assim. Porém, política não é romance, é estratégia.

Para Maquiavel, um governante não pode ser avaliado apenas pela pureza de suas intenções, mas pela eficiência com que mantém o poder e cuida de seus interesses. E antes que alguém corra para chamar Maquiavel de cínico ou oportunista, é bom entender uma coisa: ele não estava defendendo a maldade por esporte, nem sugerindo que todo político deva ser um vilão maquiavélico de novela. Ele estava apenas observando a realidade como ela é. No mundo político, o que importa é saber jogar.

Imagine o seguinte: um líder que só toma decisões baseadas em princípios morais elevados, sem se preocupar com as consequências estratégicas, vai acabar como? Perde o apoio de aliados, se desgasta com inimigos, toma decisões impopulares que podem ser vistas como virtuosas, mas minam sua capacidade de governar. Na visão de Maquiavel, o líder ideal não é aquele que tenta ser um santo, mas aquele que consegue equilibrar virtude e astúcia.

Ame-o ou odeie-o

A política, dizia ele, é um campo de batalhas onde as boas intenções muitas vezes são derrotadas pela esperteza. E é aqui que entra o choque com nossa visão romântica. A gente gosta de acreditar que basta ter bons princípios para ser um bom líder, mas Maquiavel sabia que governar é um jogo cheio de nuances. Às vezes, o mais justo não é o mais eficiente, e o mais honesto não é o mais estratégico. Não é à toa que ele escreveu: “Os homens são ingratos, volúveis, dissimulados, covardes diante do perigo e ávidos de lucro.” Em outras palavras, para governar seres humanos imperfeitos, o líder também precisa entender e, quando necessário, jogar com essas imperfeições.

Por isso, as ideologias puras – que parecem tão lindas nos discursos – tendem a falhar na prática. Elas são como romances idealizados, cheios de promessas de um final feliz. Mas no tabuleiro da política, o que conta não é o final perfeito, mas a capacidade de sobreviver à próxima jogada. O governante que segue rigidamente uma ideologia, sem flexibilidade para manobrar de acordo com as circunstâncias, está fadado a se perder. O que o que importa não é ser amado ou odiado, mas eficaz.

E, olha, isso não significa que a política tem que ser sempre suja ou sem ética. Pelo contrário, a virtude tem seu valor – mas apenas se acompanhada de pragmatismo. Um líder virtuoso que perde o controle do poder não ajuda ninguém. Por isso, o bom político deve, antes de tudo, entender as regras do jogo, usar a moralidade quando ela lhe é útil, e a astúcia quando necessário.

Choque de realidade

Discursos grandiosos sobre “mudança”, “justiça” e “moralidade” podem nos emocionar, mas a política real não é feita de emoção. Ela é feita de estratégia, de concessões, de alianças esquisitas e de decisões impopulares que, às vezes, são as únicas opções viáveis.

Sejamos realistas. Nem todo governante precisa ser um príncipe encantado, basta que ele seja um bom jogador.

Doutor em Educação. Colunista do Estado de Minas. Filósofo (de boteco) e atleticano.

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