Na ressaca da eliminação para a Noruega, entre as inúmeras análises de especialistas e torcedores decepcionados com a derrota do Brasil, uma constatação pode ser feita de maneira simples: o país segue dividido. Se para parte da torcida há algo para comemorar, “o fim da era Neymar”, outros torcedores lamentam que o jogador tenha tido “pouco tempo em campo”. Enquanto comentaristas do UOL dizem que a atitude do “menino Ney” ao zombar do goleiro da seleção norueguesa é digna de vergonha, publicações no Instagram têm avaliação oposta e celebram o momento exato em que o “lendário” Neymar encara Nyland. A legenda diz: “o único que defendeu a camisa brasileira com raça”.
Divididos seguimos, não só sobre política, mas também sobre a atuação de Neymar em sua possível última dança em Copas. E nesse cenário, em que muita gente tem olhado para as nossas diferenças, me chama a atenção a comoção que uma seleção da África Ocidental causou em milhões de brasileiros. “Sofri mais com a eliminação de Cabo Verde do que com a derrota do Brasil” é o que diz o comentário de uma torcedora em um post que informava que a campanha de 2026 foi a pior da seleção brasileira desde 1990.
Seriam os cabo-verdianos os responsáveis pelo feito que tantos perseguem: unir o Brasil?
As credenciais que me gabaritam para escrever este texto e pensar essa questão são as de uma historiadora e torcedora apaixonada por futebol e filha de um pai que tem obsessão por Copas do Mundo. Falo do lugar de alguém que se acostumou a torcer pelos times menores; vibro com a zebra. Na minha memória de outras Copas, vivem as seleções de Camarões e Nigéria. E enquanto muita gente, gabaritada para isso, aliás, busca entender o porquê do longo jejum de títulos mundiais do Brasil, eu me pergunto: os jogadores de Cabo Verde têm algo que sentimos que falta nos representantes do Brasil? (E aqui falo dos que estão em campo e dos que aparecem nas urnas.)
O roteiro encanta. Em sua primeira participação em Copas do Mundo, a seleção de Cabo Verde, em 4 jogos, enfrentou 3 campeãs mundiais: Espanha, Uruguai e Argentina. E aqui cabe a escolha do verbo enfrentar, que em sua etimologia indica a ação de colocar-se “cara a cara”. A impressão que eu e outros milhões de brasileiros tivemos é mesmo essa: a de que os jogadores cabo-verdianos olharam nos olhos dos seus adversários. As boas atuações, mesmo no jogo de eliminação, foram acompanhadas de um brio que gerou admiração.
Aqui chego ao ponto que me levou a escrever este texto. Há diversos elementos que devem ser considerados na grande comoção que Vozinha e seus companheiros nos causaram. É impossível dizer o quanto desse sentimento é natural ou, na linguagem das redes, “orgânico”. Afinal, um canal do YouTube com 38 milhões de inscritos não pode ser deixado de fora da equação. Mas desconfio que o algoritmo apenas amplificou o que já estava lá. A história do pequeno que encara o grande é uma das mais antigas que os homens contam. Davi diante de Golias, Leônidas nas Termópilas, Heitor saindo para enfrentar Aquiles sabendo que ia morrer. Nessas narrativas, o resultado da guerra importa menos do que a vontade da batalha. Ainda que a gente goste muito de vencer, também cobramos dos heróis que eles apareçam para o combate. Cabo Verde, um país de meio milhão de habitantes, apareceu. E nós, que estávamos assistindo de casa, reconhecemos o que estávamos vendo, porque milênios de epopeias nos treinaram para reconhecer: aquilo era coragem.
O incômodo vem depois, na comparação inevitável. Em algum momento dos últimos anos, a seleção brasileira deixou de ser para nós um símbolo de coragem. Não falo de derrotas. O time de 82 perdeu e fez história. Falo da sensação de que faltou vontade de vencer. Uma seleção que não olha nos olhos do adversário pode até ganhar jogos, mas não gera epopeia.
Na política, isso também acontece. O eleitor, como o torcedor, muitas vezes perdoa a derrota de quem lutou. Os líderes que atravessam gerações, à esquerda e à direita, são muitas vezes lembrados menos pelos resultados que obtiveram e mais pelas batalhas que aceitaram comprar. Coragem é um atributo capaz de arrancar admiração até do adversário.
Cabo Verde não uniu o Brasil por acaso. Uniu porque nos mostrou, em quatro jogos, algo que vem antes das nossas diferenças. Diante da coragem, é mais difícil existir torcida dividida. Que essa seleção nos sirva de espelho, no futebol e fora dele.