Entre os cargos eletivos brasileiros, nenhum combina tanto poder com tão pouca exigência de legitimidade majoritária quanto o de senador. O mandato é de oito anos; o dobro do presidencial. A Casa aprova indicações para os tribunais superiores, julga autoridades e dá a palavra final sobre boa parte da legislação. E, ainda assim, é o único cargo majoritário do país decidido em turno único, por maioria simples.
O constituinte de 1988 exigiu maioria absoluta para eleger o prefeito de uma cidade média, um governador, um presidente. Para o senador, que representará um estado inteiro por oito anos, bastou ser o mais votado, ou o segundo mais votado, nos anos em que se renovam dois terços da Casa e cada estado elege duas vagas.
O resultado prático dessa escolha aparece nos números. Em 2018, houve senadores eleitos, na segunda vaga de seus estados, com percentuais que fariam corar qualquer teoria da representação: 15,33% dos votos válidos no Distrito Federal, 16,19% no Mato Grosso do Sul, 16,42% em Sergipe. Em mais da metade das unidades da federação, a segunda vaga foi conquistada com menos de 20% dos votos válidos. Um em cada cinco eleitores (por vezes menos) foi suficiente para garantir oito anos de mandato na Casa que serve de contrapeso aos demais Poderes.
Não se trata de questionar a legitimidade formal desses mandatos: a regra foi cumprida. Trata-se de questionar a regra. Um desenho que admite tamanha distância entre o peso do cargo e o tamanho do consentimento que o sustenta é, a meu ver, um erro do constituinte: e um erro com consequências estratégicas que só agora começam a ficar visíveis.
Dessa arquitetura decorre algo que poucos analistas explicitam: há dois caminhos para se chegar ao Senado, e eles apontam em direções opostas.
O primeiro é o caminho da minoria coesa. Pesquisas qualitativas revelam, há anos, que o eleitor médio desconhece a função do senador e do próprio Senado, e, em cenários fragmentados, com muitos candidatos dividindo esse eleitorado desinformado, um bloco radicalizado e disciplinado torna-se quase imbatível. Hoje, esse bloco tem nome e número: é o eleitorado bolsonarista, e o número é 222. Trata-se de um grupo minoritário, que tem tudo para perder as eleições majoritárias de dois turnos, mas que, somados o núcleo duro e as camadas de simpatia, pode alcançar um terço do eleitorado. E esse grupo votará 222 sem saber sequer o nome do candidato que está sufragando. Num sistema de turno único, coesão vale mais do que amplitude: 20% organizados derrotam 60% dispersos, e um terço coeso é mais do que suficiente para levar as duas vagas em disputa.
Há um detalhe que torna esse fenômeno ainda mais perigoso para quem desenha estratégias: ele é praticamente indetectável por pesquisa. Levantamentos estimulados medem a força de nomes. Um eleitor que já decidiu votar no número do partido, seja quem for o candidato, não aparece vinculado a nome algum: nos cruzamentos, figura como indeciso ou se dispersa entre opções, até o dia da eleição, quando se materializa em bloco nas urnas. O fenômeno não é exclusividade de um campo, e minorias intensas de outros espectros já se comportaram de modo semelhante; mas é nesse eleitorado que ele hoje opera em escala.
O segundo é o caminho da maioria construída. Ele exige o oposto: campanhas afirmativas, centradas em entregas e propostas, capazes de agregar coalizões amplas e de dialogar com eleitores de campos distintos. Os exemplos mais eloquentes vem de quem consegue formar consensos em plena era do ódio e do ressentimento, mesmo com a onda antipolítica varrendo dezenas de lideranças bem avaliadas.
O método desse perfil de liderança é o exato avesso do primeiro caminho. Campanha cem por cento afirmativa: não desconstrói os adversários, mas os ignora, porque falar do adversário é concentrar a disputa na agenda dele, e não na própria. E parte de uma premissa poderosa: a maioria das pessoas não é extremista: está extremista. É um estado, não uma essência; e estados são reversíveis pelo diálogo, pela entrega e por aquilo que os formuladores desse modelo chamam de esperança de futuro. Rejeitar a polarização, nessa visão, não é neutralidade nem tibieza: é recusar a isca do confronto identitário e travar a disputa no terreno programático, onde quem governa bem tem vantagem. A prova de que o método funciona está nas urnas: há casos concretos de lideranças com esse perfil conquistando de votos de eleitores do campo oposto, algo que nenhuma estratégia de polarização jamais conseguiu.
A polarização, aliás, interessa sobretudo a quem não tem gestão a mostrar: quem governa é avaliado pela entrega; quem se dedica apenas ao embate vive da marcação de posição. Quem polariza não pretende convencer o eleitor do outro lado, pretende crescer dentro da própria bolha. Isso basta numa eleição proporcional; numa disputa majoritária, é estratégia de teto baixo. Exceto, e aqui está o paradoxo, no Senado em anos de duas vagas, quando o teto baixo é suficiente para vencer.
Há ainda um agravante aritmético. Nos anos de renovação de dois terços, a disputa em dupla impõe um dilema de coordenação: o campo que lança candidatos demais divide os próprios votos e pode ser derrotado pelo seu próprio eleitorado: a história recente oferece exemplos de candidatos que perderam com a ajuda involuntária de seus eleitores, que distribuíram o segundo voto entre adversários. O bloco coeso não enfrenta esse dilema: vota fechado, nas duas vagas, sem dispersão.
A combinação é explosiva: um cargo poderosíssimo, um eleitorado que desconhece sua função e uma regra que premia minorias organizadas e pune maiorias desorganizadas. Enquanto o desenho constitucional não for revisto, seja pela adoção de dois turnos, seja por outro modelo que aproxime o Senado da lógica majoritária dos demais cargos, a ocupação da Casa Alta dependerá menos da vontade da maioria e mais da capacidade de coordenação de cada campo político.
Entre os dois caminhos, defendo, sem hesitação, o segundo, e não apenas por representatividade. A minoria coesa pode servir hoje a um campo e amanhã ao seu oposto; a maioria construída é o único caminho que devolve o Senado à sua vocação de espelho do estado que representa. E há uma lição estratégica embutida: enquanto a regra do turno único premiar a coesão dos poucos, a resposta da maioria não pode ser imitar o método: radicalizar para disputar bolha contra bolha, mas superá-lo: coordenar candidaturas, fazer campanhas afirmativas e reconquistar, um a um, os eleitores que não são extremistas, apenas estão. Não será a polarização que derrotará o voto em bloco; será a esperança de futuro. Uma Casa desenhada para ser o contrapeso da República não deveria caber em 15% dos votos. Ela merece caber na maioria.