É comum que, em tempos áridos, desenvolvamos uma sensibilidade particular para certas questões existenciais. Por isso, creio, de forma convicta e fundamentada, que toda virtude floresce apenas em terreno adverso. A excelência é inimiga da facilidade.
Por isso, apesar dos momentos difíceis, quero falar de uma virtude que pode ser entendida como uma forma de amor: a amizade. Segundo Aristóteles, trata-se de algo capaz de conduzir à perfeição da alma, pois, em sua expressão mais elevada, consiste em querer o bem do outro por ele mesmo, e não em função de qualquer interesse. Em outras palavras, a amizade, quando não se apoia na utilidade ou na conveniência, nos eleva a outro patamar de humanidade.
Mas cuidado. O próprio Aristóteles adverte que essa é uma virtude rara. Não pode ser compartilhada com muitos. Sei que isso soa elitista. Paciência… Os gregos eram assim.
Mais do que isso, ela é uma virtude que se fortalece justamente nos momentos difíceis. Quem vai sozinho ao estádio já entra em campo perdendo. Sei que ali encontramos inúmeras pessoas reunidas pelo mesmo ideal, mas dividir a experiência de uma partida com um amigo é algo de outra ordem. Por isso, em tempos de rudeza, farei uma ode ao prazer da companhia.
Mas calma… Alto lá. Essa amizade é um pouco diferente, pois não se trata de uma relação entre dois seres humanos. Afinal, não precisamos ser encarcerados pelas convenções antropocêntricas.
Minha história de amizade começou pouco antes de um jogo de futebol. Ao chegar ao estádio, vi aquele que — sem que eu soubesse — me acompanharia pelos caminhos tortuosos da vida. Estava ali, na calçada. Quando levei a mão ao seu pequeno corpo, senti que uma bela história acabava de começar.
Hoje, percebo que esse tipo de amizade sempre esteve presente em minha família. Acho que há algo de ancestral nessa relação. Lembro-me de meu avô, típico homem do interior, caminhando pelo quintal acompanhado por aquele que é, sem dúvida, o melhor amigo do homem. Também guardo a imagem de meu pai que, ao se deitar, faz questão de mantê-lo ao lado da cama, como se ele vigiasse seu sono. E ele permanece ali, noite adentro, como quem também repousa junto ao companheiro.
Acho que somos assim. No silêncio dos afetos, aprendemos a ouvir sua linguagem, sempre nova, autêntica, límpida, cristalina. Em meio a um dia conturbado, basta aproximar-se dele para que tudo se transforme numa tranquila manhã de domingo. Chego a pensar que é quase uma injustiça sua ausência no relato bíblico, ao lado de Adão, quando este passeava nu pelo Jardim do Éden, certamente na companhia desse inseparável amigo.
Muitas vezes, ao atravessar a cozinha durante a madrugada, vejo-o ali, imóvel, como se dependesse apenas de mim para despertar para a vida. Este, sim, é companheiro das auroras. Não preciso dizer nada; basta tocá-lo. Nossa comunicação é instantânea. Sua companhia se mistura ao aroma do café e, naquele instante, não existe isolamento, distância ou solidão.
Mesmo sem internet, perdido nos rincões do mundo, afastado de tudo e de todos, tenho a certeza de estar na companhia de um grande e velho amigo.
Por isso, não poderia deixar de homenagear aquele que está presente em todos os jogos, parceiro inseparável na luta diária, companheiro que me ajuda a sobreviver à frieza dos tempos de Hangouts, Google Meet, Teams, Zoom, Loom, podcasts, computação em nuvem e cookies.
Sei que você não pode ler este texto. Ainda assim, saiba que ele foi escrito para você, amigo inseparável: meu radinho de pilha.