Quando grita o coração — ou sobre o que se esconde na curva de uma crônica

Máquina de datilografia
Cada crônica foi um grito. Mas não desses gritos de briga, de trânsito, de exasperação. Foi um grito baixo. Quase um sussurro. Foto: Portfólio de Tama 66/Pixabay

No sábado passado, dia 04 de julho, fez um ano. Um ano desde que publiquei minha primeira crônica em O Fator. A data passou como passam as coisas que a gente não celebra com estardalhaço — sem bolo, sem fogos, sem a família reunida. Mas ficou reverberando. Tem coisas que a gente só entende depois que o dia já virou ontem. E hoje, sexta-feira, 10 de julho, resolvi sentar para escrever sobre isso. Sobre esse primeiro ano. Sobre o que muda — se é que muda — quando a gente se habitua a existir em forma de texto.

O 04 de julho sempre me pareceu uma data cheia de camadas. O mundo lembra que foi ali, em 1776, que os americanos declararam independência. Democracia, liberdade, essas palavras que a gente repete sem pensar muito. Confesso que nunca dei grande importância a efemérides estrangeiras — acho que a maioria das pessoas também não, mas finge que sim para parecer culta. Eu não. Sempre achei que independência de verdade é outra coisa.

E foi justamente num 04 de julho que entendi isso. Nasceu minha filha Ana Luísa. A única menina entre quatro filhos. E dizer “única menina” soa quase como se eu estivesse estabelecendo uma preferência, o que não é verdade. Lucas, Luís Arthur e Gabriel chegaram antes ou depois, não importa, e cada um veio com o mesmo impacto — aquele instante em que você segura o filho e o mundo dá uma pausa. Um silêncio esquisito. Alguém devia estudar esse silêncio. Ele dura uns três segundos e contém tudo. Mas a Ana Luísa, sendo a única filha mulher, trouxe uma cor diferente para a casa. Não melhor nem pior. Diferente. Uma delicadeza que eu nem sabia que tinha — ou que poderia ter. E a tal independência que os livros ensinam, com Thomas Jefferson e carruagens e documentos em pergaminho, para mim sempre teve rosto de menina. Cheiro de talco. Choro de madrugada. Engraçado como a gente redefine as palavras ao longo da vida.

Foi também num 04 de julho, mas do ano passado, que esta coluna começou. Um amigo — Marcus Vinicius, desses que aparecem para mudar o rumo das coisas sem que a gente perceba — sugeriu meu nome. Outro amigo, Ricardo Kertzman, que eu mal conhecia, topou. E eu, que sempre falei mais do que escrevi, que sempre fui de atropelar as palavras na pressa de dizê-las, vi-me diante de um espaço semanal para preencher. No começo deu medo. Escrever é diferente de falar. Falando, você se corrige no minuto seguinte, gesticula, repete, muda de assunto. Escrevendo, a palavra fica. Dorme no papel. Acorda com o leitor.

Foi difícil no início, não vou romantizar. Cada sexta-feira era um pequeno parto. E o pior é que eu não sabia exatamente sobre o que escrever. Ou melhor, sabia, mas não queria. Escrever crônica semanal é como sentar num divã onde o analista não diz nada e o silêncio vai te empurrando para verdades que você preferia evitar. Fui despejando ali coisas que estavam guardadas. Coisas que eu nem sabia que estavam guardadas, para ser honesto. A gente passa a vida acumulando assuntos não ditos. Eles vão criando poeira, mofo, às vezes ferrugem. A crônica foi arejando isso.

Não sei se me curou. Acho que “curar” é uma palavra grande demais. Prefiro dizer que organizou. Uma dor organizada em parágrafo dói menos — isso é verdade, experimentei. Uma saudade que você descreve, com suas vírgulas e seus pontos, fica mais manejável.
Nelson Rodrigues — que eu leio desde jovem e nunca me abandonou — dizia que a alma existe, embora não se veja, não se pegue, não se cheire. Concordo. E acrescento: a alma, quando escreve, dá as caras. Nem que seja por um instante. É como abrir uma janela num quarto que vive fechado. O sol entra e arde. Mas depois você se acostuma. E agradece.

Durante este ano, escrevi sobre muitas coisas. Umas bestas, outras nem tanto. O cachorro que morreu. A política — essa senhora cansativa que aniversaria no mesmo dia da minha filha e nunca me deixa esquecer que a democracia é um negócio frágil, que precisa ser vigiado como se vigia criança pequena. Escrevi sobre amigos que se foram. Sobre a infância, essa intrusa que volta sem pedir licença quando a gente sente cheiro de café ou escuta uma música antiga no rádio. Sobre a solidão, que não é necessariamente triste — às vezes é só uma maneira de estar no mundo. Sobre fé. Sobre dúvida — que, aliás, quanto mais envelheço, mais se parece com fé.

Cada crônica foi um grito. Mas não desses gritos de briga, de trânsito, de exasperação. Foi um grito baixo. Quase um sussurro. Um grito que saía pelos dedos, não pela boca. O coração — esse músculo que insiste em fazer metáfora em vez de só bombear sangue — falava. Toda sexta-feira. E eu anotava. Às vezes achando que era o autor. Outras vezes desconfiando que era só o escrivão ou o carteiro como dizia Chico.

Ainda não era hora de anunciar isso. Mas a data pede. Um ano é um marco, e marcos existem para que a gente não se perca no meio do caminho. Estou organizando essas crônicas para publicá-las em livro. Não será agora. Talvez no ano que vem. Talvez depois. Livro tem seu tempo — e o tempo do livro não obedece ao tempo do autor. O título já existe, mas me reservo o direito de guardá-lo por enquanto. Há coisas que precisam ficar em silêncio antes de serem ditas. Quando o livro sair, vocês saberão.

Hoje, 10 de julho, olho para o sábado que passou e celebro três nascimentos. O da democracia — esse ideal manco, mas ainda assim o melhor que conseguimos inventar. O da Ana Luísa — e o de todos os meus filhos, porque amor paterno é uma coisa que não se divide, só se multiplica, e alguém já devia ter me avisado disso antes. E o desta coluna, que me encontrou quando eu nem sabia que estava me procurando.

Aos que abriram a porta — Marcus Vinicius e Ricardo Kertzman —, minha gratidão. Aos leitores que me acompanham há um ano, minha dívida. Vocês transformaram o grito em conversa. E conversa, a gente sabe, é o que salva.

Que venham mais sextas-feiras. Mais crônicas. Mais corações gritando baixinho.

A vida é urgente, o poeta já disse. Mas escrever, no fim das contas, é só um jeito de fazer o café durar um pouco mais.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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