Governo Zema ainda não tratou da renovação de contrato entre CBMM e Codemig, tido como essencial ao Propag

Acordo por exploração conjunta das jazidas é visto como importante para viabilizar federalização; contrato vai até 2032
Contrato garante a extração conjunta do nióbio das jazidas em Araxá até setembro de 2032. Foto: CBMM

O governo de Minas ainda não iniciou as negociações com a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) para discutir o futuro do contrato firmado com a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig) para exploração do nióbio em Araxá, no Alto Paranaíba. A falta de tratativas, apurada por O Fator, ocorre em um momento em que o processo de federalização da Codemig é apontado como estratégico para o ajuste fiscal do estado e para as negociações junto ao governo federal no âmbito do Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag) – e a não renovação do contrato pode gerar riscos aos valores negociados com a União.

O contrato entre Codemig e CBMM, assinado em 1972, garante a extração conjunta do nióbio das jazidas em Araxá até setembro de 2032. Por meio de uma Sociedade Comum em Participação (SCP), a CBMM fica com 75% dos lucros líquidos e a estatal mineira, com 25%. A exploração é feita pela COMIPA, sociedade em que Codemig e CBMM têm participações de 51% e 49% das ações ordinárias, respectivamente.

Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que a não renovação deste contrato pode reduzir drasticamente o valor de mercado da Codemig. “Eles não têm know-how e nem sabem explorar”, relatou à reportagem um interlocutor com atuação no setor e conhecimento do contrato. Neste cenário, estimativas indicam que o valuation da Codemig pode cair para até um quinto do valor atual.

Na avaliação de especialistas e técnicos envolvidos no processo, o principal ativo da estatal está justamente na parceria com a CBMM, que detém experiência industrial e acesso à cadeia global de comercialização do nióbio. Sem a renovação contratual, a Codemig perderia sua principal fonte de receita, restando alternativas de difícil execução, como buscar um novo parceiro ou tentar estruturar uma operação própria.

A federalização da Codemig foi colocada na mesa por deputados estaduais críticos ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF). Sugerida pelo deputado Professor Cleiton (PV) e acolhida pelo então secretário da Fazenda, Gustavo Barbosa, a proposta oferece a transferência da estatal paulista à União em troca de abatimento da dívida do Estado.

O valor exato a ser deduzido depende de laudo a ser elaborado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O governo estadual chegou a contratar o Goldman Sachs para calcular o valor da empresa, mas o laudo definitivo depende agora do banco público federal. Esse cálculo considera, sobretudo, as perspectivas de continuidade da receita oriunda da exploração do nióbio.

Sem a renovação contratual com a CBMM para além de 2032, o laudo tende a apontar forte desvalorização da Codemig, o que pode comprometer o potencial de abatimento da dívida mineira e reduzir o interesse federal no ativo.

Um relatório jurídico elaborado para subsidiar decisões da Codemig, contratado pela estatal junto a um escritório de advocacia, analisou alternativas para o futuro da parceria com a CBMM. O parecer indica que a renovação do acordo atual, que mantém a SCP e a divisão de lucros, é solução de menor risco jurídico e de maior previsibilidade para o Estado.

O documento aponta que, caso a Codemig deseje buscar outro parceiro ou assumir sozinha a exploração, enfrentaria barreiras contratuais, regulatórias e operacionais. O contrato atual não permite a extinção antecipada da parceria de forma unilateral ou imotivada. Para alterar o arranjo, seria necessária anuência da CBMM, além do respeito a garantias já concedidas em contratos de parcerias público-privadas que têm recursos do nióbio como garantia bancária até 2032.

O parecer também descreve cenários alternativos, como a integralização do direito minerário no capital da CBMM em troca de participação acionária, abertura de nova sociedade (“NewCo”) ou cessão do direito de lavra a terceiros. Todas as alternativas implicam riscos tributários, regulatórios e possíveis questionamentos judiciais, além de exigirem autorizações legislativas e, em alguns casos, processos licitatórios.

Procurada pela reportagem, a CBMM afirmou, por meio de nota, que a parceria com a estatal mineira “permanece válida e vigente até 2032”. Sobre a possibilidade de federalização ou privatização da Codemig, a empresa afirmou entender que se trata de decisão do governo estadual. A companhia não comentou sobre ausência de tratativas para a renovação do acordo.

Federalização

O processo de federalização da Codemig é colocado como prioridade dentro das discussões do Propag principal agenda para reequilibrar as finanças estaduais. Entretanto, integrantes do Ministério da Fazenda e da Assembleia Legislativa apontam que a solução só será viável se houver garantia de sustentabilidade financeira da estatal mineira e previsibilidade de receitas futuras.

A ausência de negociação sobre renovação com a CBMM coloca em risco a operação, pois pode resultar em laudo de avaliação negativo e reduzir a atratividade da federalização tanto para a União quanto para eventuais investidores privados, caso haja privatização parcial ou futura.

Confira a nota da CBMM na íntegra:

“A CBMM tem uma parceria firmada com a CODEMIG, empresa do Estado de Minas Gerais desde 1972. Tanto a CBMM quanto a CODEMIG são detentoras de minas de pirocloro em Araxá e a parceria prevê a extração conjunta de minério de ambas as minas até 2032, para processamento no parque industrial da CBMM, localizado no mesmo município. A CBMM entende que federalizar ou privatizar a CODEMIG é uma decisão do Governo de Minas. Independentemente do que ocorrer, os contratos que formalizam a parceria permanecem válidos e vigentes até 2032.”

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

Leia também:

Carta de moradores e poucas autoridades: a audiência sobre a Mina de Jangada na ALMG

Ganem diz que denúncia sobre fraude ao domicílio eleitoral se baseou em ‘ilações de matérias jornalísticas’

Justiça prorroga afastamento de servidores investigados por fraudes em contratos da Sudecap

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse