Intercepções da Polícia Federal (PF) mostram que o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos) direcionava emendas parlamentares em Minas Gerais e disputava bases eleitorais com parlamentares em exercício, entre eles o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG).
A articulação é feita mesmo sem Cunha ocupar mandato desde a cassação, em 2016. Atualmente, ele se apresenta como pré-candidato a deputado federal por Minas nas eleições deste ano, de olho em retornar à Câmara pelos votos dos mineiros.
As conversas monitoradas pela PF embasaram a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, tornada pública no domingo (12), que determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens de Cunha e a suspensão do pagamento das emendas sob investigação.
O valor corresponde ao montante que o ex-deputado teria coordenado no desvio de pelo menos 29 emendas da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados. Segundo a apuração, as mensagens atribuídas a Cunha partiram de um número salvo nas conversas apenas como “EC”, registrado não em nome do ex-deputado, mas de sua mulher, Cláudia Cordeiro Cruz.
Para os investigadores, o conteúdo das trocas com a servidora da Câmara Mariângela Fialek, tratada nas mensagens como “Tuca”, não deixa dúvida de que era o ex-deputado quem escrevia, apesar do celular estar formalmente vinculado a outra pessoa.
Disputa com Cleitinho e Nikolas
Em uma dessas conversas, Cunha reclama de um impasse em Manhuaçu, na Zona da Mata, porque a emenda em questão teria sido atribuída a Nikolas, quando na verdade seria dele. “Tou com um problema lá em uma das emendas de Manhuaçu que o pessoal lá é inimigo e estão dizendo que é do Nikolas”, escreve.
Irritado com a situação, ele pede que a emenda passe a constar em nome do deputado Gilberto Abramo (Republicanos-MG), com um ofício atribuindo o pedido original ao deputado estadual João Magalhães (PSD). A PF ainda apura se os parlamentares apontados como titulares da emenda tinham conhecimento ou participação.
Ele insiste: “O Gilberto pode fazer um ofício?”, e reforça a urgência, “Se fizer já me resolve. Cidade pequena é uma guerra”. Tuca responde de pronto, “Falarei com ele”, e Cunha ainda pondera, “Se for dar trabalho e ele não for dar, melhor a gente trocar para não perder”.
A servidora confirma o cenário ao enviar a Cunha um relatório extraído dos sistemas internos da Câmara. “Baixei esse relatório de RP6 por beneficiado. Não consta RP6 Nikolas nem Gilberto”, escreve, em referência ao código orçamentário que identifica as emendas individuais, indicando que nenhum dos dois deputados tinha recursos registrados naquele lote.
Já a referência ao colega de partido, Cleitinho Azevedo, que chegou a ser processado por Cunha no STF, aparece em outro trecho. Nele, o ex-parlamentar comenta a distribuição de recursos por meio de emendas para Minas e faz referência a uma verba de R$ 200 mil vinculada ao nome do senador.
“Tem Cleitinho aí, que também se arvora lá. Ele pôs 200”, diz trecho de mensagem enviada para Tuca. A PF afirma que a fala permite inferir uma “aparente preocupação” do parlamentar com relação a autores de emendas para o estado.
‘Não aguento mais esses mineiros enrolados’
Os diálogos com Tuca também expõem o modo como o ex-presidente da Câmara tratava os municípios mineiros nas trocas de recursos. Ao esbarrar em resistência local para uma emenda em Manhuaçu, ele determina a substituição do destino com uma frase que resume o tom das conversas.
“Não aguento mais esses mineiros enrolados. Troca a de Governador Valadares por essa, pois lá também criaram caso pedindo ofício etc. É mais fácil trocar”, escreve.
Em 15 de setembro, logo depois de fechar a troca entre Manhuaçu e Governador Valadares, Cunha avisou Tuca sobre um novo problema, agora em Matias Barbosa. “Tem um segundo problema que Matias Barbosa que era 2, só teve limite de 1349, vou precisar substituir a diferença”, escreve. Tuca responde de pronto, “Ok. Manda”.
Ele detalha, na sequência, como a diferença deveria ser dividida entre os municípios de Pedrinópolis, no Triângulo Mineiro, e Varjão de Minas, no Noroeste do estado. Ao final da troca, ele se desculpa com a servidora pelo trabalho extra: “Desculpa o trabalho mas Minas é muito pulverizado”, ao que ela responde, “Tranquila. São muitos municípios mesmo”.
Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, também aparece nas mensagens como um destino de reserva. Quando surgia algum problema em outro município, Cunha redirecionava os recursos para a cidade. O padrão se repetiu em uma negociação envolvendo Lajinha, na Zona da Mata.
O ex-presidente informou que destinaria R$ 500 mil para o município, mas disse que só conseguiria enviar R$ 330,9 mil por limitações do sistema. Com isso, o restante foi direcionado novamente para Valadares.
Disputa por base eleitoral
A PF chama atenção para um padrão recorrente nas mensagens, em que Cunha se refere às emendas em primeira pessoa, como se fossem de sua própria titularidade. Segundo os investigadores, ele também disputava a base eleitoral com parlamentares no exercício do mandato.
Em 28 de novembro, por exemplo, ao tratar com Tuca de uma planilha enviada no dia anterior, ele reclama que o valor destinado ao município de Goianá, também na Zona da Mata, teve o saldo reduzido porque outra emenda, da “deputada Sheila”, já havia sido cadastrada para a mesma cidade.
A referência é provavelmente à deputada estadual Delegada Sheila (PL), já que o documento da PF não especifica o cargo da parlamentar. “Um município que mandei”, escreve, antes de detalhar o problema no repasse.
Para os investigadores, esse tipo de fala, somado às trocas sobre Manhuaçu, Governador Valadares e Matias Barbosa, evidencia que o ex-deputado não apenas sugeria destinos para os recursos, mas os tratava como uma cota pessoal, disputada inclusive com outros parlamentares em exercício.
“O fato de que um terceiro não atuante no parlamento brasileiro tinha o poder e a ingerência sobre o direcionamento do orçamento público é gravíssimo e materializa o que de mais nefasto há em termos de desvios envolvendo o tema do orçamento secreto”, diz a PF.
Como funcionava o esquema
Segundo a Operação Transparência, deflagrada em dezembro de 2025, a assessora atuava como intermediária entre Cunha e os sistemas internos da Câmara, ajustava cadastros e destinações conforme as instruções recebidas.
O cruzamento das planilhas encontradas no celular da servidora com o Portal da Transparência mostrou que ao menos 21 emendas, num total de R$ 6,15 milhões, foram de fato empenhadas e pagas, mas registradas em nome de outros parlamentares para encobrir a real origem da indicação.
As mensagens detalham a movimentação de valores entre municípios como Governador Valadares, Lajinha, Matias Barbosa, Pedrinópolis e Varjão de Minas, além de recursos para o Fundo Municipal de Saúde de Governador Valadares e para a Associação Hospital Belizário Miranda.
Em abril, O Fator mostrou que R$ 210 mil foram anunciados pelo vereador Léo Preto (PSB), de Teófilo Otoni, como fruto da articulação de Cunha para a saúde do município. Procurado, Cunha disse que o autor do recurso era Gilberto Abramo, que, à época, negou qualquer envolvimento.
Em janeiro, a Folha de S.Paulo havia mostrado outro episódio na mesma linha. O jornal revelou que Cunha articulou o envio de uma emenda de R$ 1 milhão para o município de João Pinheiro, no Noroeste do estado. Ele atribuiu o mérito à “gentileza” de Abramo.
Decisão de Dino
Além de determinar o bloqueio de bens de Cunha e suspender a execução das despesas ligadas às emendas citadas na investigação, Dino deu 10 dias corridos para que a Advocacia-Geral da União (AGU), a Controladoria-Geral da União (CGU) e a Câmara dos Deputados adotem as providências determinadas e informem ao STF as medidas tomadas.
O ministro contrariou a recomendação da Procuradoria-Geral da República (PGR), que se manifestou contra o bloqueio de bens e a adoção de medidas cautelares. O órgão defendeu apenas a continuidade das investigações e o rastreamento de valores.
Dino, contudo, ressaltou na decisão que o crime de peculato-desvio não exige que os recursos revertam em proveito pessoal direto de Cunha. O ministro argumenta que o uso de verba pública para atender interesses privados ou eleitorais, como a tentativa de construir uma base política em Minas, já configura o delito.
Ele também chama atenção para a afirmação de que “tudo indica que Tuca contava com pleno aval da presidência da Casa para promover os desvios” de emendas em favor de Cunha. A fala sugere que o esquema teria contado, no mínimo, com a omissão de níveis superiores da Câmara.
Em uma das primeiras trocas de mensagens com Cunha, ainda em setembro, a assessora e o ex-deputado mencionam “Arthur” e “Hugo” ao tratar de um assunto que ele lamenta não ter conseguido resolver. Essas referências seriam a Arthur Lira (PP-AL), então presidente da Câmara, e a Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Casa.
“Mais simbólico ainda no sentido do descontrole político e desvinculação ao interesse público dessas destinações é o fato de que o ex-deputado nunca manteve vinculação política com o Estado de Minas. Pelo contrário, em algumas passagens simboliza manter pouco apreço pelo Estado e pelos prefeitos com quem mantinha interlocução”, escreveu Dino.
Cunha quer voltar por Minas
Cassado da Câmara dos Deputados em 2016 por ter mentido ao Conselho de Ética sobre contas bancárias secretas na Suíça, Eduardo Cunha vai tentar, neste ano, voltar ao mandato por meio dos votos dos mineiros.
Não é a primeira vez que ele tenta o retorno à Câmara. Em 2022, pelo PTB em São Paulo, obteve apenas 5.044 votos e ficou na 383ª posição entre os candidatos do estado, longe das 70 vagas disponíveis. E desde o ano passado, quando transferiu o domicílio eleitoral para Belo Horizonte, ele busca construir uma base eleitoral.
A estratégia não se limita ao anúncio de emendas e repete uma prática adotada nos anos 1990, quando Cunha usava rádios no Rio de Janeiro para falar com o público evangélico. Agora, ele montou uma rede de emissoras gospel em cidades mineiras, tornou-se patrocinador do Uberaba Sport Club e passou a marcar presença em cultos e eventos religiosos pelo interior do estado.
O que dizem os investigados
A defesa de Eduardo Cunha afirma que ele soube da decisão do ministro Flávio Dino pela imprensa e que não foi intimado nem ouvido antes do bloqueio de bens. Sustenta que o ex-presidente da Câmara não exercia mandato e, por isso, não apresentou nem formalizou as emendas investigadas, atribuição que caberia exclusivamente aos parlamentares.
Os advogados também disseram que a interlocução política não pode ser confundida com o exercício clandestino de mandato, destacaram que os R$ 6,15 milhões correspondem ao valor global das emendas questionadas, destinadas a municípios ou outros beneficiários públicos, e a decisão não imputa recebimento de qualquer vantagem a Cunha.
“Eduardo Cunha desconhece qualquer irregularidade na tramitação das emendas. Cabe ressaltar que a própria PGR considerou prematuro o bloqueio das contas de Eduardo Cunha. A defesa buscará acesso integral à investigação a fim de conhecer o contexto completo dos fatos, exercer o contraditório e impugnar as medidas decretadas”, diz trecho da nota.
Já a defesa de Mariângela Fialek afirmou que ela exerceu funções estritamente técnicas relacionadas à organização das emendas parlamentares, sem atuação político-partidária. Também sustentou que a investigação não atribui à servidora a prática de qualquer irregularidade funcional ou criminal.
Segundo os advogados, todo o trabalho era realizado conforme as decisões da Presidência da Câmara e do Colégio de Líderes, com informações encaminhadas à Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República e publicadas no Portal da Transparência.
“O objetivo da Polícia Federal é acessar informações relacionadas à função que exerceu na Câmara dos Deputados, relativas às indicações, por Deputados, de verbas de emendas. Tais informações, registre-se, hoje já são públicas”.
No final de semana, o presidente da Câmara, Hugo Motta, classificou como indevida a “intervenção do Judiciário” em uma atividade típica do Parlamento. Segundo ele, a decisão não aponta desvio, abuso ou aplicação irregular de recursos públicos e tenta criminalizar a atividade política.
Motta também afirmou que a destinação das emendas segue a legislação vigente e os acordos firmados entre Executivo e Legislativo perante o STF, manifestou confiança no trabalho dos servidores da Casa e defendeu que a atuação das equipes técnicas na operacionalização das emendas faz parte do funcionamento regular da Câmara.
“A autorização conferida pelos parlamentares para que as equipes que os assessoram operacionalizem as indicações segundo orientação da direção partidária insere-se na normalidade do funcionamento administrativo do mandato e não traduz qualquer irregularidade”, diz trecho da nota.