Cliques de cianureto – A difamação na era digital

Cidadão utiliza smartphone
Que haja tempo para refletir antes do clique. Que se preserve a dignidade do outro como a própria. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

No século XIX, Jan Neruda escreveu um conto inquietante e visionário. Em “Como arruinar um mendigo”, narra a história de um homem simples, que sobrevive de esmolas, mas torna-se alvo de uma campanha de difamação. Tudo começa com uma frase solta, uma suspeita insinuada, que logo se espalha como verdade. Sem provas, sem consistência, o boato vai se multiplicando e, pouco a pouco, a figura pública daquele mendigo vai sendo corroída até não restar mais dignidade nem espaço para o sustento. A opinião coletiva, moldada por insinuações e falsas narrativas, o empurra à ruína. O conto é curto, mas devastador. Neruda, com fina ironia e aguda percepção social, expõe o poder destrutivo das palavras quando manejadas com desleixo ou malícia. 

Avançamos no tempo. Trocamos os becos de Praga pelas redes sociais. Os sussurros de esquina agora são posts virais. Não é mais necessário encontrar alguém no mercado para espalhar um boato. Basta um clique. Uma publicação enviesada, um vídeo editado, uma frase solta fora de contexto. O algoritmo faz o resto. A mentira corre mais rápido que a verdade e, enquanto a dúvida se instala, os danos já estão feitos. As consequências não são mais apenas morais. São jurídicas, econômicas, psicológicas. A difamação digital opera com uma frieza quase automatizada. Com o agravante de que raramente há responsabilização proporcional. Em tempos de curtidas e compartilhamentos impulsivos, a reputação de alguém pode ser esfarelada em poucas horas por um enxame anônimo e desatento. 

O mais perturbador é a impessoalidade crescente. As pessoas se informam por manchetes, não por conteúdos. Julgam por aparências, não por argumentos. Comentam sem ler, reagem sem pensar, replicam sem verificar. A comunicação humana se tornou um eco apressado de impressões. A empatia rareia. O benefício da dúvida foi arquivado. Tornou-se mais fácil acusar que entender, mais eficaz atacar que dialogar. E não há sistema de reversão automática para a honra destruída. 

A tecnologia deveria ampliar o pensamento. Em vez disso, muitas vezes estreita os filtros. Não há debate. Há torcida. Não há escuta. Há ruído. E nesse ruído, verdades são apagadas, biografias são distorcidas, histórias são encerradas antes de começarem. As consequências, como no conto de Neruda, são silenciosas, mas fatais. O corpo pode estar vivo, mas o nome está morto. 

Voltar a Jan Neruda é mais do que revisitar um autor. É resgatar o alerta ético de quem, ainda no século XIX, já intuía o poder destrutivo da linguagem quando usada sem consciência. Seu conto é, hoje, uma premonição. A diferença é que agora não precisamos sussurrar. Um celular, uma frase maliciosa e a multidão faz o resto. 

Que não nos tornemos cúmplices passivos dessa engrenagem. Que haja tempo para refletir antes do clique. Que se preserve a dignidade do outro como a própria. Porque há ruínas que começam por palavras. E há palavras que envenenam como cianureto.

Advogado. Parecerista. Conselheiro de Administração. Poeta. Pensante. Escritor de Textos.

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