Tostão e a metáfora da alegria possível

Sempre quis escrever sobre ele. Há craques que encantam apenas com os pés. Tostão conquista também com a cabeça e as palavras. Dentro do campo, foi um maestro silencioso, capaz de antecipar os grandes lances. Fora dele, transformou-se em cronista lúcido, revelando o futebol arte para além da euforia. Poucos percebem a essência de um jogo quanto ele.

Enquanto muitos exaltam os dribles e a improvisação como dons quase mágicos, Tostão lembra que o futebol é também raciocínio, coletividade e disciplina. Ele não nega a beleza das jogadas individuais, mas ressalta que a arte só floresce quando é marca da equipe. Essa sagacidade ajuda a compreender o Brasil campeão do mundo de 1970 e, depois, a ler as transformações que o esporte atravessou e ainda atravessa.

Em tempos em que o futebol brasileiro se equilibra entre a memória do futebol arte e a realidade das SAFs, Tostão continua sendo figura de referência. Ele sabe que a paixão não sobrevive sem organização, mas também adverte que o excesso de cálculo pode matar o encanto. Sua escrita reafirma que o futebol não é só espetáculo da mídia ou negócio milionário: é, sobretudo, a linguagem afetiva de um povo.

Cito Nelson Rodrigues para costurar esse fio: “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. E o futebol é a única coisa que o brasileiro leva a sério, mesmo quando brinca.” Tostão parece ecoar isso em cada crônica. Ele mostra que o brasileiro se reconhece no futebol, que encontra no seu time do coração tanto a redenção quanto o espelho de suas contradições.

Hoje, quando vemos arenas modernas, times milionários e projeções financeiras de bilhões, a presença de Tostão como cronista da bola segue atualíssima. Ele nos lembra que a paixão não se mede apenas pelos números frios. Que o futebol pode ser sociedade anônima, mas jamais deixará de ser quintal, várzea e beira de praia. Que é possível haver lucros e dividendos sem sufocar a poesia do passe. Porque, no fim, o futebol é isso: memória, sonho, criatividade e vida coletiva. No Brasil, é metáfora da alegria possível de um povo. E nenhum contrato ou SAF conseguirá se sobrepor a essa realidade.

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