Terminei recentemente a leitura de Da Macega à Makaia, de Pai Ricardo Moura, e saí dela com a sensação de que o livro oferece mais do que um registro de memória: oferece uma chave para compreender um Brasil profundo, muitas vezes invisibilizado, mas essencial para a nossa formação cultural, espiritual e comunitária.
Conheço Pai Ricardo há décadas. Talvez por isso a leitura tenha me tocado de maneira especial. O livro ilumina, pela palavra escrita, aquilo que sua presença, sua casa e sua comunidade revelam há muito tempo: uma tradição construída na oralidade, no cuidado, na natureza, na escuta e na transmissão de saberes entre gerações.
A partir daí, falar de Pai Ricardo é falar de muito mais do que uma biografia individual. É falar da Pedreira Prado Lopes, da Lagoinha, da Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente, das religiões de matriz africana, da Umbanda, dos terreiros como espaços de coesão social e da capacidade brasileira de produzir, a partir de encontros e dores históricas, formas singulares de espiritualidade, cultura e pertencimento.
Algumas pessoas dedicam a vida a preservar tradições. Outras conseguem fazer algo ainda mais difícil: demonstrar que uma tradição viva não pertence apenas ao passado. Ela organiza o presente, sustenta comunidades e aponta caminhos para o futuro. Pai Ricardo Moura pertence a essa linhagem rara de pessoas.
Sua trajetória está profundamente ligada à Pedreira Prado Lopes, à Lagoinha e à Casa de Caridade Pai Jacob do Oriente, fundada em 1966 por Joaquim Camilo e Maria das Dores de Moura. Ali, em um dos territórios mais simbólicos de Belo Horizonte, consolidou-se uma experiência religiosa, cultural, comunitária, educativa, ambiental e filosófica.
Pai Ricardo é pai de santo. Mas sua atuação ultrapassa qualquer definição estreita. Ao longo de décadas, tornou-se guardião de saberes afro-brasileiros, mestre de conhecimentos tradicionais, articulador cultural, liderança espiritual e comunitária, pesquisador da oralidade de terreiro e referência na preservação das tradições de matriz africana em Minas Gerais.
Sua biografia reúne dimensões diversas e complementares: a condução da Casa Pai Jacob do Oriente; o diálogo com a Universidade Federal de Minas Gerais no campo dos Saberes Tradicionais; a publicação de Da Macega à Makaia; a criação, ao lado de Gabriel Moura, do OriSamba; a valorização das festas, dos rituais, das ervas e da oralidade; e uma atuação comunitária que ganhou força simbólica durante a pandemia, quando cuidado, alimento, sabão, escuta e solidariedade tornaram-se formas concretas de proteção da vida.
Sua casa não é apenas um espaço de culto. É território de pertencimento. Um lugar onde se realizam rituais, festas, atendimentos, banhos, cultivo de ervas, ações de solidariedade, atividades culturais, capoeira, artesanato e transmissão de saberes. É uma dessas instituições brasileiras que não separam fé, cultura, cuidado, natureza e vida comunitária.
Essa talvez seja uma das grandes contribuições dos terreiros para as nossas cidades. Em um mundo cada vez mais fragmentado, eles permanecem como espaços de coesão social. Guardam memórias, acolhem dores, organizam vínculos, transmitem valores e preservam conhecimentos sobre plantas, cantos, ritmos, alimentos, corpos, afetos e formas de relação com o sagrado.
A Umbanda, tradição à qual Pai Ricardo está ligado, é uma das expressões mais originais da cultura brasileira. Nascida do encontro entre matrizes africanas, indígenas, católicas e kardecistas, ela revela uma cosmologia em que o visível e o invisível não estão separados. Nela, a natureza não é cenário: é presença. Folhas, águas, cantos, tambores, guias, orixás, ancestrais e comunidade fazem parte de uma mesma rede de sentido.
A presença africana no Brasil trouxe mais do que ritmos, festas e sabores. Trouxe filosofias de vida, tecnologias de cuidado, formas de organização comunitária e modos de compreender a existência. A África, berço ancestral da humanidade, continua trabalhando com a vida nos espaços sagrados espalhados pelo Brasil. Talvez isso ajude a explicar parte da singularidade brasileira: a capacidade de produzir encontros, cosmologias, formas de convivência e espiritualidades que nascem da dor histórica, mas também da resistência, da criação e da beleza.
Ao longo dos anos, acompanhei transformações profundas na Pedreira, na casa, nos espaços sagrados e nas formas pelas quais aquela comunidade afirma sua existência. O que impressiona não é apenas a preservação de uma herança, mas sua permanente capacidade de recriação.
Durante a pandemia, isso se tornou ainda mais evidente.
Enquanto o Brasil atravessava medo, luto, fome e isolamento, a Casa Pai Jacob do Oriente se manteve como espaço de cuidado. Pai Ricardo e sua comunidade mobilizaram redes de solidariedade, distribuíram alimentos, acolheram pessoas, ofereceram escuta e sustentaram vínculos em um momento de sofrimento coletivo. Também viveram perdas. Pessoas da própria casa partiram. Mas a dor não interrompeu o compromisso com a vida.
Uma imagem daquele período sintetiza tudo.
Ao visitar a comunidade, encontrei Pai Ricardo e sua equipe produzindo sabão para distribuir às pessoas. Em um momento em que lavar as mãos era uma das principais medidas de proteção contra a doença, fazer sabão era muito mais do que uma ação prática. Era uma síntese poderosa de espiritualidade, saúde pública, solidariedade e cuidado comunitário.
Fazer sabão para proteger vidas.
Poucas imagens explicam tão bem o papel social de um terreiro.
Ali, a tradição não estava distante do mundo. Estava transformada em gesto concreto: alimento, sabão, escuta, presença e comunidade organizada para proteger a própria comunidade.
Essa mesma filosofia se expressa na relação com a natureza. Geladeiras descartadas transformaram-se em canteiros. Portas usadas ganharam nova função. Espaços antes abandonados passaram a abrigar ervas medicinais, plantas aromáticas e espécies utilizadas nos rituais, nos banhos e nos cuidados cotidianos.
Não era apenas reaproveitamento de materiais. Era uma visão de mundo.
Aquilo que parece descartado pode voltar a florescer. Aquilo que parece fim pode tornar-se começo. Aquilo que foi abandonado pode virar jardim. A natureza, nesse gesto, não é ornamento. É cura, memória, alimento, perfume, proteção e caminho.
Ao lado de Gabriel Moura, seu filho, e de toda a comunidade da casa, Pai Ricardo consolidou uma experiência rara de integração entre espiritualidade, território, cultura e natureza. Essa integração também se manifesta no OriSamba, uma das vertentes mais expressivas nascidas desse espaço.
O OriSamba nasceu dentro da Casa Pai Jacob do Oriente, na Lagoinha, a partir do desejo de Pai Ricardo e Gabriel Moura. Como bloco, cortejo, experiência musical e ação cultural, preserva toques, ritmos, cantigas e composições ligados às tradições afro-brasileiras, levando para a cidade uma forma de viver, transmitir e celebrar saberes coletivos. No Carnaval de Belo Horizonte, mostra que a tradição não permanece fechada em si mesma. Ela se movimenta, canta, dança, atravessa gerações e dialoga com a vida urbana contemporânea.
Esse é um ponto essencial de sua trajetória: Pai Ricardo não apenas preserva uma tradição; permite que ela crie novas formas de presença no mundo.
A casa, o terreiro, o livro, as festas, os jardins, os rituais, o OriSamba e os projetos culturais compõem uma mesma obra. Uma obra coletiva, construída com muitas mãos, mas atravessada por uma compreensão profunda: os saberes herdados são força viva de organização da existência.
Da Macega à Makaia é parte fundamental dessa caminhada. A obra confirma que não se trata apenas de uma publicação, mas de um gesto histórico. Durante séculos, muitos saberes de terreiro foram transmitidos pela oralidade, pelo canto, pelo corpo, pela convivência, pelo segredo e pela experiência. Ao levar parte desses saberes para a escrita, Pai Ricardo não abandona a oralidade. Ele abre outro caminho para ela.
O próprio título revela uma travessia. A passagem da macega à makaia sugere sair do emaranhado, do terreno difícil, da mata cerrada, para alcançar um espaço de circulação, fertilidade e florescimento. É também a imagem dos saberes afro-brasileiros que, tantas vezes marginalizados, perseguidos ou incompreendidos, seguem abrindo caminhos para existir, dialogar e transformar.
A obra trata do falar negro de terreiro, da diáspora negra nas periferias, da relação entre saberes tradicionais e universidade, da escuta, da cura e da celebração dos saberes afro-diaspóricos. É um livro que nasce da casa, da comunidade, da mata simbólica e da palavra ancestral, mas se dirige ao Brasil contemporâneo. Não transforma o terreiro em objeto distante de estudo. Fala a partir dele. Fala com ele. Fala como quem sabe que a palavra também é fundamento, caminho e responsabilidade.
Nesse sentido, Da Macega à Makaia confirma Pai Ricardo como pensador. Um pensador que não separa espiritualidade de linguagem, território de conhecimento, memória de futuro. Seu livro afirma que os saberes de terreiro não pertencem apenas ao campo da fé. Pertencem também à filosofia, à educação, à cultura, à literatura, à saúde comunitária e à vida pública brasileira.
Não por acaso, Pai Ricardo também se tornou referência no diálogo com a Universidade Federal de Minas Gerais, especialmente no campo dos Saberes Tradicionais. Sua presença nesse ambiente ajuda a deslocar fronteiras antigas entre universidade e terreiro, escrita e oralidade, ciência e experiência, conhecimento formal e conhecimento vivido. Na disciplina “Catar folhas: saberes e fazeres do povo de axé”, ministrada no âmbito da Formação Transversal em Saberes Tradicionais da UFMG, esse encontro se torna prática educativa e política.
Essa ponte é uma das realizações mais relevantes de sua trajetória. Ao ocupar a universidade como mestre de saberes tradicionais, Pai Ricardo afirma que há conhecimento nas folhas, nos cantos, nas rezas, nos tambores, nas comidas, nas festas, nas águas, nas histórias e nas práticas transmitidas entre gerações. A universidade, quando se abre a esses saberes, amplia sua própria capacidade de compreender o Brasil.
As festas de sua casa também precisam ser compreendidas nessa chave. Elas não são apenas momentos de celebração religiosa. São atos de memória, pertencimento e continuidade. Reúnem canto, dança, comida, corpo, roupa, cor, hierarquia, devoção, alegria e comunidade. Dão calendário ao tempo. Dão forma pública ao sagrado. Reafirmam que existir também é celebrar.
Em um país marcado pelo racismo religioso, essa celebração tem dimensão política. A perseguição às religiões de matriz africana não é apenas intolerância individual. É uma tentativa histórica de silenciar uma das matrizes fundamentais da formação brasileira. Atacar um terreiro é atacar uma forma de existência. É atingir memórias, redes de cuidado, modos de conhecimento e comunidades inteiras.
Por isso, preservar esses espaços é preservar modos de vida que o Brasil precisa reconhecer, proteger e celebrar.
Como Secretário de Estado da Cultura e Turismo de Minas Gerais, vejo na trajetória de Pai Ricardo uma lição que ultrapassa qualquer fronteira religiosa. A cultura deve ser espaço de convivência, tolerância e reconhecimento. O respeito às religiões de matriz africana, aos povos de terreiro e às suas tradições não é concessão. É compromisso democrático. É defesa da liberdade religiosa. É proteção do patrimônio cultural brasileiro.
Pai Ricardo Moura nos lembra que os terreiros não são sobrevivências de um passado distante. São laboratórios de futuro. Em nossas cidades, eles oferecem respostas para questões urgentes: solidão, fome, crise ambiental, perda de vínculos, apagamento da memória, violência simbólica e enfraquecimento da vida comunitária.
Na Pedreira Prado Lopes, sua trajetória mostra que uma comunidade se sustenta por políticas públicas, mas também por laços, rituais, festas, jardins, memórias, alimentos, cantos, escutas e presenças. Mostra que o sagrado pode ser sabão, comida, folha, música, palavra, silêncio, festa e cuidado.
Mais do que uma liderança espiritual e comunitária, Pai Ricardo tornou-se intérprete de uma sabedoria antiga que permanece surpreendentemente atual. Uma sabedoria que ensina que ninguém existe sozinho. Que a natureza não está fora de nós. Que a memória não é peso. Que a tradição não é imobilidade. Que ancestralidade é continuidade criadora.
Sua vida é testemunho de que as práticas ancestrais presentes nas cidades brasileiras não pertencem ao passado. Elas continuam oferecendo caminhos para reconstruir comunidades, fortalecer identidades, enfrentar a solidão, proteger a natureza e lembrar que a existência humana só encontra sentido pleno quando reconhece sua ligação com os outros, com a memória, com a terra e com o sagrado.
Ao reunir casa, comunidade, livro, festa, erva, sabão, música e memória, Pai Ricardo Moura construiu uma obra rara: fez do terreiro uma prática cotidiana de cuidado e da Pedreira Prado Lopes um território onde a ancestralidade continua produzindo futuro.