“Quem melhor para conhecer o seu filho e educar o seu filho do que o pai e a mãe? Quem o conhece mais? Quem sabe dar realmente aquilo que ele precisa? É um outro desconhecido? Você pega seu filho e o coloca nas mãos de um desconhecido? Isso é a melhor forma?” — Deputado Federal Nikolas Ferreira
Era um jovem de 15 anos, recém-chegado à escola, e toda a sua fama veio junto: “Esse menino dá trabalho em todas as escolas que passa”. Com a sua chegada, pichações apareceram por todos os cantos. A sala de aula era o último local que o estudante frequentava.
Com apenas duas semanas de aulas, conheci sua mãe. O jovem não dialogava. Nunca o vi trocar um olhar com ela, tampouco comigo. Sempre presente, a mãe relatou que, desde os 7 anos de idade, o filho não conversava com ela. Sem estratégias convencionais para estabelecer o mínimo de diálogo, decidi que ele passaria a frequentar a escola dentro da minha sala.
Foram dias de companhia silenciosa. Nenhuma palavra, nenhuma troca de olhares. Após uma semana de silêncio, chamei a mãe novamente e, dessa vez, ela me revelou mais sobre a história deles. Naquele mesmo dia, após a mãe ir embora, encontrei o estudante pelos corredores e o chamei para conversar. A estratégia, no entanto, foi um monólogo meu, seguido pelo silêncio dele. Ao bater o sinal, por volta das 22h, eu lhe disse: “Se quiser conversar amanhã, estarei aqui. Você me procura”.
No dia seguinte, no início da aula, lá estava ele. Pela primeira vez, me deu boa-noite. Ufa! Já ciente do contexto e da gravidade da situação, decidi provocá-lo ao limite. Em dado momento, disparei: “Pena que você não ama a sua mãe!”. Imediatamente, ele cruzou o olhar comigo. Com os olhos marejados de ódio, me xingou muito e perguntou: “Você amaria uma mãe que tentou te matar enforcado?”.
A história é densa, pesada demais para ser detalhada aqui. Respondi apenas que sim, que eu a amaria, e que não deixaria para dizer isso apenas após a morte dela. Que a perdoaria em vida. Prometi que o ajudaria a dizer à mãe que a amava. E então, ele chorou comigo.
Combinamos que, no dia seguinte, ele declararia seu amor a ela. E assim foi. Ele chegou à minha sala, sentou-se, ainda distante da mãe, e permaneceu em silêncio. Depois de um longo tempo, o “eu te amo, mãe” finalmente ecoou, acompanhado do abraço mais lindo do mundo. A partir daquele dia, a sala de aula tornou-se o seu lugar mais frequentado. As notas decolaram e o comportamento transformou-se. Ele voou.
O papel do professor e a realidade legislativa
Neste relato, o professor foi a pessoa mais preparada para conhecer e acolher aquele jovem e a sua família. O professor não é um “desconhecido” na vida de um estudante; ele é uma referência profissional fundamental em sua formação. Por isso, quando escutamos de um representante eleito uma fala que demonstra total desconhecimento sobre a função docente, nos causa perplexidade. É assustador perceber o nível de representação que possuímos na Câmara Federal.
Nenhum pai coloca o filho nas mãos de um desconhecido. Ele o entrega aos cuidados de um profissional formado. O verdadeiro “desconhecido” perigoso, muitas vezes, habita a internet, escondido atrás de telas e discursos prontos para polarizar mentes e pregar o radicalismo infundado.
Como podemos pensar em ter uma educação de qualidade quando o nível do debate na Câmara Federal é este? O discurso é induzido ao ataque à figura do professor; para defender uma determinada modalidade de ensino, a estratégia adotada é desqualificar os profissionais que formam os cidadãos deste país, colocando a família, veladamente, contra o docente.
A tribuna, que deveria ser uma oportunidade de avanço, não é utilizada para esclarecimentos, discussões ou construções. De fato, não me causa tanta estranheza, pois temos apenas cerca de 11 deputados federais que são professores. Isso demonstra o tamanho do vácuo representativo da educação no Legislativo.
O impacto do debate superficial
O ponto central não é ser de direita ou de esquerda, mas sim: quem está lá realmente conhece sobre educação? Quem, minimamente, já pisou no chão de uma sala de aula? O caminho do afronte e do ataque não é política pública; é apenas a representação mais fiel do absoluto desconhecimento sobre o que significa educar.
A importante discussão democrática sobre a modalidade de ensino homeschooling fica em último plano. Consequentemente, a ausência de conhecimento tem como resultado ataques à educação: são pautas educacionais sendo transformadas em discursos políticos vazios e sem embasamento científico mínimo.
A escola e o professor se tornam vitrines para gerar conteúdos e likes na internet, desconsiderando todos os aspectos históricos e litúrgicos que envolvem o ensinar. Quem está dentro da escola sabe: Cada like demora segundos para ser dado, mas cada pedaço destruído demora anos para ser reconstruído.
Uma nação justa se constrói com representantes que valorizam a educação e que entendem o seu papel como instrumento de impulsão ao desenvolvimento de um país soberano. Se, em vez de gastarem tanto tempo com esses ataques, utilizassem esse tempo para discutir pautas educacionais e construir propostas, decolaríamos. Mas há um detalhe fundamental: para discutir, é preciso conhecer o assunto. Não se pode agir com desconhecimento!
ACORDA, BRASIL!
ACORDA, EDUCAÇÃO!
ACORDA, PROFESSOR!