É difícil encontrar um brasileiro que não aprecie a alface nas refeições. Quem gosta, contudo, precisa se preparar, pois a alface tende a se tornar uma hortaliça cada vez mais difícil de ser cultivada em campo aberto. A causa é o aumento das temperaturas gerado pelo avanço das mudanças climáticas.
Um estudo divulgado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) durante a COP 30, em Belém (PA), aponta que até o fim do século quase todo o território nacional apresentará risco alto ou muito alto para a produção de uma das hortaliças mais preferidas dos brasileiros.
O fantasma das mudanças climáticas ronda também os produtores de café do Sul de Minas Gerais. Diferentemente do grão do Cerrado mineiro, que necessita de irrigação, as lavouras do Sul, até muito recentemente, não precisavam ser irrigadas em nenhuma época do ano.
A escassez de chuvas, contudo, fez com que os cafezais do Sul passassem a depender da irrigação. A falta de água prejudica fases cruciais do desenvolvimento cafeeiro, como a floração e a frutificação, causando estresse hídrico, queda de folhas e botões, além de perda de produtividade. A irrigação é usada para mitigar esses efeitos, garantindo a produtividade e a qualidade das lavouras
O calor extremo altera o funcionamento do sistema de transpiração das plantas, que fecham seus estômatos para reduzir a perda de água em tempos de seca. Trata-se de uma reação em cadeia: o estômato é uma microscópica abertura localizada na superfície das folhas, por onde ocorre a troca de gases com a atmosfera, com a entrada de CO2 e a saída de oxigênio. Essa troca é essencial para a fotossíntese, sem a qual as plantas não cresceriam. Com os estômatos fechados, há redução da fotossíntese e, assim, a morte das plantas.
Uma das principais regiões produtoras de vinhos de alta qualidade no país, a Serra Gaúcha, também conhece os efeitos da crise climática. Depois das chuvas que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, parte das uvas produzidas na região perdeu suas características originais e hoje não serve para a produção de vinho, mas apenas de suco.
Aumento da incidência de pragas
Os efeitos da crise climática estão espalhados por todo o país. E não se resumem à redução da produtividade por causa de mais ou menos chuva; ou de mais ou menos calor. A lista de consequências conta, também, com o aumento da incidência de pragas.
Um estudo conduzido por pesquisadores da Embrapa aponta que 46% das doenças agrícolas que ocorrem no Brasil devem se tornar mais severas até o ano de 2100, com impacto direto sobre culturas estratégicas, como arroz, milho, soja, café, cana-de-açúcar, hortaliças e frutas.

Wagner Bettiol, engenheiro agrônomo e um dos pesquisadores da Embrapa que conduziram o estudo sobre o aumento da incidência de pragas, explica que a elevação da temperatura favorece a proliferação de fungos e também acelera o ciclo de vida dos vetores transmissores de doenças, como mosquitos, cigarrinhas e pulgões, resultando em mais ciclos e, com isso, em maior proliferação das doenças.
De acordo com Bettiol, em tese, o aumento da concentração de CO2 na atmosfera seria favorável à agricultura, pois sem o carbono não ocorre a fotossíntese e a planta não cresce. O problema, contudo, é que o aumento do CO2 resulta na redução de um nutriente essencial para os insetos: o nitrogênio.
Com isso, em prol de alimentação adequada, os insetos precisam comer mais, o que aumenta a destruição das lavouras. O círculo vicioso se completa porque o produtor é obrigado a investir na aplicação de doses cada vez maiores de defensivos agrícolas.
O calor também está, segundo Wagner Bettiol, fazendo com que doenças que antes eram localizadas migrem para outras regiões do país. Ele cita como exemplo uma enfermidade que atacava lavouras de feijão na Bahia e que, hoje, já está presente nos plantios de vários estados, e não só no feijão, mas também na soja.
Especificamente no caso de Minas Gerais, ele afirma que o estado já vive períodos de chuvas fortes e concentradas, que escorrem sem se infiltrar adequadamente no solo, seguidos de longos períodos de seca, popularmente conhecidos como veranicos.
Wagner Bettiol lamenta também o fim das chamadas “chuvas de invernada”, em que o temporal miúdo caía por vários dias, constituindo o melhor cenário para a produção agrícola, por se tratar da água que infiltra no solo.
MST afirma que cafeicultura já sente efeitos
Os danos à produção agrícola causados pela crise climática estão sendo percebidos pelas cerca de 500 famílias assentadas pelo Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Complexo Ariadnópolis, em Campo do Meio, no Sul de Minas, onde é produzido o café Guaí.
Lá, segundo Silvio Neto, membro da direção nacional do MST, já há pés de café começando a secar aos 10 anos. O normal é um cafeeiro durar cerca de 20 anos.
Para minimizar os efeitos da crise climática sobre a produção de alimentos, o MST optou por utilizar os sistemas agroflorestais, que combinam a lavoura com a restauração florestal. No caso do café, as arvores sombreiam os cafezais, reduzindo os efeitos do sol e da redução das chuvas na região.
Nessa mesma linha, porém na região Leste do estado, o MST está implantando o Programa Popular de Agroecologia da Bacia do Rio Doce em 2,7 mil hectares. O plano se baseia na combinação da restauração florestal com a produção de alimentos, especialmente frutas. Complementando os sistemas agroflorestais, entra a agroindústria.
“Isso é uma riqueza importante porque inclui o jovem, inclui a mulher e amplia a renda das famílias de forma cooperada”, ressalta Silvio Neto.
Expansão da fronteira agrícola
Historicamente, a produção de alimentos sempre esteve associada ao desmatamento para a expansão da fronteira agrícola. Foi assim com a cana de açúcar e o café, no Brasil colonial e, mais recentemente, com o cultivo de grãos no Cerrado mineiro e na Amazônia.
Mariana Ramos, gerente de Sustentabilidade de Federação da Agricultura no Estado de Minas Geris (Faemg), afirma que hoje a expansão da produção agrícola está sustentada não na incorporação de novas terras via desmatamento, mas no aumento da produtividade. Prova disso, segundo ela, é o fato de a produção de grãos ter crescido seis vezes nas últimas décadas sem que a área de plantio tenha aumentado na mesma proporção.
Para ela, na história da agricultura brasileira, há um divisor de águas: os anos de 1970, quando entraram em cena os modernos sistemas de cultivo baseados na mecanização e na aplicação de defensivos agrícolas em massa. Hoje, conforme Mariana, essa visão está sendo revista, com a inclusão de modelos de produção que respeitam a vocação de cada região e têm como foco a agricultura de baixo carbono.

Neste tipo de agricultura, o plantio é feito diretamente no solo, que não precisa ser revolvido com o arado. Trata-se do chamado plantio direto, em que palhada, nome dado aos resíduos do cultivo anterior, permanecem na superfície, sendo utilizados como cobertura. A agricultura de baixo carbono também faz a rotação de cultura e investe na integração lavoura-pecuária-floresta. Nesse modelo, uma área pode servir, ao mesmo tempo, para a produção de alimentos, para o cultivo de madeira e como pasto.
Estes conceitos estão sistematizados no Plano ABC (Alimento de Baixo Carbono) do Ministério da Agricultura e Pecuária. Alguns números dos resultados alcançados: recuperação de 26,8 milhões de hectares de pastagens degradadas, 11,8 milhões a mais do que a meta estipulada; implantação de sistemas lavoura-pecuária-floresta em 10,76 milhões de hectares, 6,76 milhões de hectares a mais; e adoção do sistema de plantio direto em 14,59 milhões de hectares, 6,59 milhões de hectares a mais do que a meta prevista.
Mariana Ramos considera que a sociedade tem uma visão errônea do significado da agricultura para redução das emissões de carbono. Ela entende que é preciso considerar que não somente as florestas, mas também as culturas em si contribuem para isso, na medida em que estas também sequestram carbono. “É preciso desmistificar a ideia de que apenas florestas incorporam carbono. A ciência precisa trazer transparência a esses processos, para que áreas produtivas também recebam créditos de carbono”, afirma a gerente de Sustentabilidade da Faemg.
Mariana Ramos considera importante também que os produtores sejam remunerados, via pagamento por serviços ambientais pelas áreas de preservação que mantêm em suas propriedades, e que o plantio de florestas homogêneas seja incentivado com uma fonte de renda para o produtor rural em vez de ser, como ela considera, “vilanizada” como algo que contribui para a destruição das áreas de mata nativa.
Para mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre a produção de alimentos, Mariana Ramos defende a concessão de incentivos para que o produtor possa investir em irrigação, por meio da construção de barramentos para a retenção de água no período da chuva, especialmente na fruticultura. Ela defende também o fortalecimento da assistência técnica com foco nas questões ambientais, de tal maneira que o produtor tenha a seu dispor um conjunto de informações que lhe permita tomar as decisões acertadas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas sobre suas lavouras.
Para diminuir o efeito da crise climática sobre a agricultura, o pesquisador Fábio DaMatta, do departamento de Biologia Vegetal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), recomenda três medidas: aumento da irrigação, mudança das técnicas de manejo e melhoramento genético das espécies, com identificação e desenvolvimento de plantas que sejam mais resistentes às mudanças climáticas.
Como exemplo, ele cita o café adaptado a altas temperaturas, de aproximadamente 26ºC, que está sendo cultivado em regiões de clima quente, como no estado de Rondônia. Em Minas, a temperatura de cultivo varia de 18º a 23ºC.
O aumento da irrigação permitirá, segundo Fábio DaMatta, que as plantas mantenham seus estômatos mais abertos. Com isso, irão transpirar mais e, ao mesmo tempo, absorver mais CO2. A mudança nas técnicas de manejo, com modificação das técnicas de adubação e controle de doenças irá fortalecê-las, tornando-as mais resistentes ao estresse climático.
O paradoxo do CO2
Para ele, não há uma receita única para compensar os efeitos da crise climática sobre a produção de alimentos. O próprio café é um exemplo disso. Pesquisas recentes indicam que, nos últimos anos, a produtividade do grão experimentou um aumento de 15%. As pesquisa atribuem esse crescimento ao aumento da presença na atmosfera do principal gás causador do efeito estufa, o dióxido de carbono, que é essencial à fotossíntese.
Visto isoladamente, trata-se de algo que, segundo Fábio DaMatta, seria benéfico para a cultura cafeeira — e para a agricultura como um todo. Porém, questionado se os resultados positivos para o crescimento as plantas compensariam os danos, ele afirma não ter dúvidas de que é preciso combater a emissão de CO2 e de todos os demais gases causadores do efeito estufa. Isso porque, entre estes gases, há alguns que não causam benefício algum para a agricultura, como o metano, que é produzido pelo rebanho bovino.
Fábio DaMatta afirma que sem o controle das emissões, o cenário, não só para a agricultura, mas para a sociedade como um todo, será muito mais grave.
“Não tenho dúvidas de que será pior. Muito pior”, sintetiza o pesquisador da UFV.
Para ele, quem mais irá sofre com as mudanças climáticas será o pequeno produtor rural, que normalmente não tem capital nem condições financeiras e técnicas para adotar as medidas mitigatórias necessárias para se adaptar à nova realidade do clima.