MPMG pede cassação de prefeito de Brumadinho por manter secretário considerado inelegível

Promotoria aciona Câmara e PGJ após descumprimento de recomendação formal sobre exoneração de aliado político
Gabriel Parreiras (esq.) e Guilherme Morais (dir.) foram vereadores juntos entre 2021 e 2024. Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) pediu a cassação do mandato do prefeito de Brumadinho, Gabriel Parreiras (PRD), e enviou representação para que a Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ) apure crime de responsabilidade após Parreiras não cumprir uma recomendação que pedia a exoneração do secretário de Governo, Guilherme Morais, considerado inelegível.

Na sexta-feira (29), o MPMG havia recomendado que a prefeitura removesse Morais do cargo de secretário por entender que a Lei Orgânica de Brumadinho proíbe a nomeação de pessoas inelegíveis para cargos de secretário municipal.

A prefeitura decidiu não acatar a recomendação e manteve Morais no cargo.

Nesta terça-feira (2), o MPMG enviou à Câmara Municipal de Brumadinho um ofício solicitando a abertura de processo de cassação do mandato de Gabriel Parreiras por conta do descumprimento da recomendação.

A peça é apresentada como denúncia escrita, com exposição dos fatos e das provas produzidas no inquérito civil, e requer que o presidente da Câmara coloque o texto em leitura na sessão seguinte e consulte o plenário sobre sua admissibilidade.

Para o MPMG, ao nomear e manter Morais no cargo mesmo com a vedação da Lei Orgânica e da recomendação formal para exoneração, o prefeito age com dolo — isto é, com consciência da ilegalidade apontada.

Na avaliação do MPMG, cabe ao Legislativo preservar a eficácia da Lei Orgânica, que impede que pessoas inelegíveis assumam cargos políticos estratégicos no município.

Em outro ofício, o Ministério Público encaminhou o caso à Procuradoria de Justiça Especializada em Ações de Competência Originária, ligada ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), para apuração de crime de responsabilidade.

A manifestação repete a linha do pedido à Câmara: a recomendação para exoneração, o pedido de reconsideração apresentado pelo município, o descumprimento do prazo e a decisão do prefeito de manter Morais no cargo mesmo após a advertência.

O MPMG sustenta que, em razão da prerrogativa de foro dos prefeitos, a investigação e eventual ação penal por crime competem ao Tribunal de Justiça.

Por isso, pede que a Procuradoria-Geral avalie a abertura de investigação criminal contra Gabriel Parreiras pelo crime de responsabilidade de nomear servidor contra expressa disposição de lei.

Por que o secretário é tratado como inelegível

Nos documentos, o MPMG afirma que Guilherme Morais se enquadra na inelegibilidade prevista na Lei da Ficha Limpa.

Na lei, o texto atinge vereadores que renunciam ao mandato depois da apresentação de representação capaz de autorizar processo por infração político-administrativa, gerando inelegibilidade até o fim da legislatura e por mais oito anos.

A promotoria cita documentos da Câmara de Brumadinho segundo os quais o secretário renunciou ao mandato parlamentar no momento em que duas denúncias por quebra de decoro seriam lidas em plenário, ambas aptas a iniciar processo de cassação.

O Ministério Público sustenta que a renúncia nessas condições é suficiente para gerar a inelegibilidade e que essa condição decorre diretamente da lei, não de uma decisão judicial.

Os textos também lembram que, nas eleições de 2024, Guilherme Morais chegou a registrar candidatura a prefeito, mas desistiu após impugnação do Ministério Público Eleitoral, o que é usado pela promotoria como indício de que ele tinha ciência da restrição.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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