Experiência portuguesa com o IVA pode ajudar na implantação da reforma tributária

Transição para modelo dual é um dos temas de congresso internacional que acontece nesta semana em Belo Horizonte
Calculadora e moedas
Reforma tributária começará a ganhar forma no ano que vem. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O know-how português com o Imposto Sobre Valor Agregado (IVA) — por lá chamado de Imposto Sobre Valor Acrescentado — pode ajudar a administração tributária brasileira a se adaptar às mudanças geradas pela reforma que começará a ser efetivamente implementada no ano que vem. A transição para o modelo baseado em um IVA dual é um dos temas do Congresso Luso-Brasileiro de Auditores Fiscais, que vai até esta quarta-feira (3) em Belo Horizonte.

De acordo com Nuno Barroso, presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Inspeção Tributária e Aduaneira de Portugal (Apit), o país lida há décadas com o IVA. 

“Nossos países têm muito a partilhar e aprender. São muitos os desafios comuns. Portugal tem 40 anos de aplicação de IVA e de integração na Europa; o Brasil é líder na inovação tecnológica em matéria fiscal”, diz.

A reforma brasileira é dual porque dará origem ao Imposto Sobre Bens e Serviços (IBS) e à Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). O IBS será fruto da fusão entre o Imposto Sobre Serviços (ISS), cobrado pelas prefeituras, e o Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), de natureza estadual. Já a CBS será formada pelo Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), pela Cofins e pelo PIS.

Para o economista Bernard Appy, que atuou no Ministério da Fazenda como secretário extraordinário da reforma tributária, a nova lógica de cobrança avança por explicitar ao consumidor os valores pagos a título de impostos.

“Por conta da não cumulatividade plena, o montante que aparece na nota fiscal na hora em que estivermos comprando um bem ou serviço corresponde exatamente à soma de tudo o que foi pago ao longo da cadeia de produção e comercialização”, pontua.

Segundo ele, um dos painelistas do Congresso Luso-Brasileiro, a medida amplia a chamada cidadania fiscal.

“As pessoas vão saber quanto estão pagando para financiar os governos federal, estadual e municipal e poderão cobrar retorno em termos de políticas públicas ou dizer que preferem tributar mais a renda e menos o consumo”, completa.

A reforma também versa sobre a criação de um Imposto Seletivo, que ganhou a alcunha de “imposto do pecado” por servir como plataforma de desestímulo ao consumo de produtos prejudiciais à saúde. O presidente do Sindicato dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de Minas Gerais (Sindifisco-MG), Marco Túlio da Silva, espera que a iniciativa dê impulso à chamada tributação verde, destinada ao incentivo a práticas sustentáveis.

“A tributação tem várias funções, inclusive a da extrafiscalidade, que vai além do aspecto arrecadador e mais específico. Nesse sentido, uma tributação que contribua com o desestímulo a operações e prestações com externalidades negativas ajuda na transição para uma economia mais sustentável e justa”, defende.

Entre dúvidas e certezas

A mudança no ICMS é, na visão de Maria Aparecida Meloni, presidente da Associação Nacional de Fiscais de Tributos Estaduais (Febrafite), o principal desafio dos estados no rastro da reforma tributária.

“A reforma impõe uma ampla e profunda mudança de paradigmas. Ela afeta a principal receita de estados e municípios (o ICMS), o que implica muitas incertezas, por exemplo, nas questões normativas, nos sistemas operacionais e nos procedimentos e controles da arrecadação, para que não haja solavancos na receita tributária”, analisa.

Para a dirigente, a reforma precisa ser analisada por múltiplos pontos de vista. Entre eles, o da justiça fiscal e o do futuro, a fim de antever se a nova engrenagem tributária será suficiente para dar sustentação às demandas sociais.

No governo de Minas, apesar das dúvidas, a aposta é na tecnologia. Segundo a secretária de Estado de Fazenda, a intenção é ampliar o espaço para o uso de inovações no sistema de arrecadação. 

“Estamos revisando processos de fiscalização, migrando de um modelo declaratório para outro, mais orientado por dados”, explica.

Uma das metas é ampliar o diálogo com outros entes tributários.

“Trabalhamos na evolução de nossos sistemas de arrecadação e fiscalização para integrar ambientes nacionais do IBS, incluindo o compartilhamento de informações em tempo real”, projeta.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

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