O fundo de investimentos Rio Bravo, dono do prédio que abrigava a sede do Banco Mercantil, no Centro de Belo Horizonte, estuda a possibilidade de promover o retrofit da edificação, localizado na confluência das ruas Rio de Janeiro e Tamoios, a um quarteirão da Praça Sete. A empresa já pediu, à prefeitura, a isenção do Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI), um dos procedimentos necessários para que o imóvel possa ter acesso aos benefícios da lei de incentivo à revitalização de edificações, que entrou em vigor em dezembro de 2024.
Em março deste ano, a Rio Bravo concluiu a revitalização do último andar do local, que foi batizado de Bravo BH, dotando-o de todas as funcionalidades e características estéticas de uma edificação nova.
Logo em seguida, colocou o imóvel em locação. Resultado: houve fila de empresas querendo alugar o andar revitalizado, em pleno Centro de Belo Horizonte. Lá, instalou-se uma empresa de educação à distância.
A Rio Bravo comprou o prédio em 2011. Até 2023, o Banco Mercantil continuou a funcionar no local. A instituição, no entanto, foi transferida para um moderno edifício na Savassi. Assim, de uma hora para outra, 15 dos 18 andares do empreendimento no Centro de BH ficaram vazios.

Hoje, dos 18 andares do prédio, além do que passou pela revitalização, três permanecem ocupados pelo Mercantil. Um quarto andar foi alugado por uma emissora de televisão de fora de Minas, que lá montou um estúdio de gravação. No andar térreo, continua funcionando a agência 001 do banco.
Estudos em andamento
Segundo a Rio Bravo, apesar dos estudos sobre a possibilidade de retrofit de todo o prédio, não há data para o início das eventuais obras. O que aconteceu até aqui, segundo Jaqueline Rodrigues, gestora de fundos imobiliários da empresa, foram ações localizadas, como a reforma do 18º andar e do saguão de entrada, no andar térreo, e a revitalização da fachada, toda em vidro verde afixado em esquadrias de alumínio.
No hall, foram instalados de equipamentos de reconhecimento facial para identificação dos cidadãos que pretendem ter acesso ao prédio, onde, segundo a gerente da edificação, Elaine Gurdiano, circulam cerca de 300 pessoas diariamente.
Otimista, Elaine afirma que o centro oferece muito mais vantagens como local de trabalho do que outras regiões da cidade, como a Savassi ou o entorno do Belvedere.
“Aqui tem muitas coisas boas que outras regiões não oferecem”, afirma, apontando entre as vantagens, a mobilidade por metrô e por centenas de linhas de ônibus.
Jaqueline Rodrigues considera o retrofit total do prédio uma oportunidade estratégica para elevar ainda mais a atratividade do imóvel em um segundo momento. No entanto, como o investimento é relevante e o fundo ainda não dispõe de todo o capital necessário, o aporte está, segundo ela, em fase de estruturação.

Ícone modernista
A edificação, projetada pelo arquiteto Raul de Lagos Cirne em estilo modernista, foi inaugurada no dia 11 de novembro de 1968. O Mercantil funcionou no local por 55 anos.
Em 2011, o banco, a exemplo do que outras instituições financeiras têm feito, se desfez de ativos imobiliários. Foi aí que a Rio Bravo efetivou a compra, mantendo o Mercantil como inquilino.
A mudança para a Savassi, em 2023, conicidiu com o projeto do banco de redefinir o perfil, agora focado no público com mais de 50 anos.
Da edificação original dos anos de 1960, faziam parte as escadas rolantes que ligavam o hall de entrada do prédio ao andar térreo, onde continua funcionando a agência 001. Em uma reforma feita anteriormente, as escada rolantes foram suprimidas, da mesma forma que o cofre forte da agência, que funcionava na área localizada embaixo das escadas rolantes, mas com acesso apenas pelo interior do prédio.

Quando da inauguração da sede do banco, as escadas rolantes, uma novidade na época em Belo Horizonte, eram uma atração à parte. Subir e descer por elas era um programa que por si só justificava a ida ao Centro da cidade.
Além do Banco Mercantil, apenas o edifício Maletta, na rua da Bahia esquina com avenida Augusto de Lima, possuía escadas rolantes.
Um pouco de história
A sede do Banco Mercantil foi inaugurada um mês e dois dias antes da edição do Ato Institucional 5, o AI-5, que pôs fim ao pouco de democracia que havia no regime militar que se instalou no país em 31 de março de 1964. O AI-5, impôs a censura à imprensa, a prisão dos adversários do regime e a tortura.
À inauguração do Banco Mercantil compareceu um convidado ilustre, o ex-presidente Juscelino Kubitscheck, que, em 1967, retornou de um exílio voluntário na Europa e passou a ser extremamente vigiado pelos militares, que o proibiram de participar de atividades políticas no território nacional.
Mesmo ciente destas restrições, ele esteve no evento do Mercantil. Um funcionário hoje aposentado, que entrou para o banco em 1961, contou que, apesar da presença, JK foi cauteloso, optando por permanecer com os diretores em uma sala à parte.
Esse mesmo funcionário conta que alguns dias depois o banco recebeu uma ordem dos militares para que destruísse qualquer registro fotográfico da presença de Juscelino na inauguração. A determinação, segundo ele, foi prontamente cumprida.