Ex-esposa de ex-presidente da Câmara de BH vai devolver lote em condomínio e carro após acordo com o MP

Acerto com investigadores e Justiça deixa ex-companheira de Wellington Magalhães de fora do rol de réus do processo
Wellington Magalhães presidiu a Câmara de BH entre 2015 e 2017. Foto: Divulgação/CMBH
Wellington Magalhães presidiu a Câmara de BH entre 2015 e 2017. Foto: Divulgação/CMBH

A ex-esposa do ex-presidente da Câmara de Belo Horizonte Wellington Magalhães, Kelly Jaqueline Maciel Pinto, firmou um acordo com o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) para deixar de ser ré em uma ação que tramita há sete anos contra o ex-vereador.

Como contrapartida, Kelly Jaqueline concordou em transferir ao Município de Belo Horizonte um lote no Condomínio Aldeias do Lago, em Esmeraldas, e um veículo Honda HRV, que será incorporado ao patrimônio da Polícia Civil de Minas Gerais. A ex-esposa de Magalhães também se comprometeu a colaborar com os demais processos judiciais de natureza cível e criminal correlatos, prestando depoimentos quando convocada.​

A ação de improbidade administrativa foi ajuizada pelo MPMG em 2018 contra Wellington Magalhães, Kelly Jaqueline, o empresário Daniel Figueiredo Borja e a empresa Pampulha Depilação a Laser.

O processo teve origem na Operação Santo de Casa, que investigou crimes de corrupção, peculato, organização criminosa e lavagem de dinheiro praticados durante o período em que Wellington Magalhães exerceu o mandato de vereador e a presidência da Câmara Municipal, entre 2015 e 2016.​

Segundo o MPMG, os crimes ocorreram entre abril de 2011 e dezembro de 2016 e envolveram direcionamento de licitações, recebimento de propinas e esquemas de lavagem de dinheiro.​

O Ministério Público acusava Kelly Jaqueline de coautoria em ato de improbidade por enriquecimento ilícito ao ocultar e dissimular patrimônio de Wellington Magalhães com valores desproporcionais à sua capacidade contributiva.​

No acordo, Kelly reconheceu que emprestou seu nome para figurar como laranja no lugar de Wellington Magalhães na aquisição do lote no Condomínio Aldeias do Lago. Segundo ela, a negociação do imóvel foi conduzida inteiramente pelo ex-marido, e o bem não foi declarado à Receita Federal nem ao Cartório de Registro de Imóveis.​

A ex-esposa havia declarado a compra do lote em 2014 por R$ 150 mil, com R$ 80 mil pagos naquele ano e R$ 40 mil em 2015. No entanto, a perícia da Polícia Civil não encontrou nenhuma transação bancária nas contas de Kelly Jaqueline ou Wellington Magalhães que indicasse o pagamento desses valores.​

Quanto ao veículo Honda HRV, o MPMG sustentou que, embora formalmente registrado em nome da empresa de Kelly Jaqueline, o domínio e uso sempre pertenceram a Wellington Magalhães. A perícia demonstrou que Kelly Jaqueline não possuía capacidade financeira compatível para arcar com a aquisição do bem.​

No acordo, Kelly Jaqueline declarou que nunca teve participação nas atividades econômicas e empresariais de Wellington Magalhães. Ela afirmou que atuava exclusivamente como responsável pelo lar e pelos cuidados dos filhos do casal.​

A ex-esposa relatou ter sido vítima de violência doméstica durante o relacionamento, incluindo agressões físicas e psicológicas, com histórico de medidas protetivas deferidas no âmbito da Lei Maria da Penha. Kelly Jaqueline declarou que assinou documentos por imposição e sob coação do ex-marido, mediante exigência de outorga uxória e intimidações constantes.​

Ela informou estar desempregada, sem auferir qualquer renda, vivendo exclusivamente do auxílio financeiro prestado pelos pais. Em razão da incapacidade financeira comprovada, as obrigações assumidas no acordo se limitaram à transferência dos bens, sem pagamento de valores em dinheiro.​

O esquema de ocultação patrimonial

As investigações revelaram um esquema de ocultação patrimonial que envolvia a aquisição de bens em nome de terceiros. Além de Kelly Jaqueline, o empresário Daniel Figueiredo Borja também foi acusado de atuar como “laranja” para Wellington Magalhães.​

No final de 2024, Daniel Borja celebrou um Acordo de Não Persecução Cível no qual admitiu que a casa de campo localizada no Condomínio Aldeias do Lago, registrada em seu nome, pertencia de fato a Wellington Magalhães. Ele havia afirmado que apenas emprestava o imóvel ao ex-vereador e que nunca o utilizou.​

O síndico do condomínio confirmou ao MPMG que o imóvel foi averbado nos registros administrativos do condomínio em nome de Wellington Magalhães desde abril de 2011, e que o ex-vereador pagava as taxas condominiais desde maio daquele ano. Todos os moradores do condomínio sabiam que a residência pertencia ao ex-presidente da Câmara.​

Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão na sede da Câmara Municipal, foram localizados diversos documentos e contas referentes à casa no Condomínio Aldeias do Lago em nome de Wellington Magalhães..​

O padrão de vida incompatível com a renda

As investigações demonstraram um padrão de vida incompatível com a renda declarada de Wellington Magalhães, cuja única fonte oficial de recursos era o subsídio de vereador de R$ 15.066,59 brutos, reduzido a R$ 8.491,39 líquidos após descontos de imposto de renda, INSS e pensão alimentícia devida às duas filhas de outro casamento.​

A perícia contábil apurou que as despesas de Wellington Magalhães no período de janeiro de 2010 a julho de 2016 totalizaram R$ 1.594.444,53, valor que superou em R$ 520.663,53 os rendimentos obtidos no período, de R$ 1.073.781,00.​

Além dos imóveis, o ex-vereador possuía veículos de luxo como Land Rover Evoque e Jeep Cherokee Limited. Em janeiro de 2016, realizou viagem internacional com a família para Orlando, nos Estados Unidos, onde foram carregados cartões de viagem pré-pagos com R$ 108.200, sendo R$ 88.200 em espécie.​

Wellington Magalhães permanece como réu no processo de improbidade administrativa, que caminha para a sentença final em primeira instância. O ex-vereador teve o mandato cassado pela Câmara Municipal em novembro de 2019.​

Na esfera criminal, Wellington Magalhães foi condenado a 31 anos e 6 meses de reclusão, além de 106 dias-multa, pela prática de lavagem de dinheiro em uma ação penal que tramitou na 4ª Vara Criminal de Belo Horizonte. A sentença reconheceu que o ex-vereador promoveu operações para ocultar e dissimular a origem ilícita de recursos por meio da aquisição de bens móveis e imóveis em nome de terceiros.​

À época do ajuizamento da ação, em 2018, o MPMG informou que tramitavam 38 procedimentos investigativos contra Wellington Magalhães, apurando irregularidades como fraudes em licitações, superfaturamento de contratos, corrupção e até suposto envolvimento com organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas.​

Entre os casos investigados estavam a contratação de empresa de publicidade com valor mensal inicial de R$ 219.360,04, posteriormente elevado para R$ 333.312,99; a contratação da empresa Projel Engenharia por R$ 7.262.214,60; e suspeitas de fraude em licitação na contratação da empresa Artebrilho Multiserviço por valores superiores a R$ 3,6 milhões.​

O Ministério Público também apurava supostas irregularidades na reforma do prédio da Câmara, com despesas de milhões de reais envolvendo empresas sediadas fora de Minas Gerais, e a contratação de empresas para realização de eventos particulares do vereador, como a comemoração de seu aniversário no bairro Taquaril.

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