Governo federal ainda não sabe os ativos que vai aceitar em troca da adesão de Minas ao Propag

Enquanto Fazenda está em ‘fase preparatória’ do processo, BNDES aguarda para fazer possível análise de participações societárias
A sede do Ministério da Fazenda
Tesouro Nacional avalia bens mineiros que poderão ser incorporados ao patrimônio da União. Foto: Washington Costa/MF

O governo federal ainda não bateu o martelo sobre quais ativos oferecidos por Minas Gerais no âmbito do Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag) serão aceitos para assegurar a redução do passivo bilionário do Palácio Tiradentes.

A O Fator, o Ministério da Fazenda informou que o Tesouro Nacional ainda avalia os documentos encaminhados pela equipe do governador Romeu Zema (Novo), no que classificou como “fase preparatória do processo”. A reportagem, então, questionou se há prazo estimado para a conclusão do trabalho de avaliação. Até esta quarta-feira (11), a pergunta não havia sido respondida. 

Enquanto isso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apontado no ano passado como ente responsável por parte do processo de análise das participações societárias ofertadas, segue em compasso de espera.

O calendário político também tende a influenciar o ritmo do processo. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), responsável pela condução da política econômica do governo e por boa parte das negociações federativas, deve deixar o cargo até o fim da próxima semana para, possivelmente, se dedicar à disputa pelo governo de São Paulo.

Em Minas Gerais também haverá mudanças. Zema deixará o cargo em 22 de março para iniciar a campanha pré-eleitoral à Presidência da República. 

Quando assinou a adesão ao Propag, em 31 de dezembro do ano passado, Minas encaminhou à União uma proposta que contemplava a federalização de um rol de ativos que somava R$ 35,8 bilhões. A ideia é abater 20% de um passivo de cerca de R$ 180 bilhões por meio da dação de ao menos uma parte desses bens.

Em outubro do ano passado, um novo decreto sobre o programa de refinanciamento flexibilizou prazos, estendendo, até o fim de 2026, a janela para a federalização de ativos. À época da assinatura do acordo, porém, O Fator mostrou que o governo mineiro esperava avanços no processo de análise federal dos bens oferecidos ao longo do primeiro semestre.

BNDES em stand-by

Apesar das brechas, o novo decreto segue apontando a necessidade de laudo prévio confeccionado ou coordenado pelo BNDES sobre participações societárias oferecidas pelos estados participantes do Propag. 

O documento é condição para o governo federal incorporar a seu patrimônio, por exemplo, a fatia de 5% da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemge), avaliada em R$ 4,9 bilhões e incluída na proposta encaminhada por Zema no último dia de 2025.

Procurado por O Fator, o BNDES disse que “não há novidades sobre o tema em relação a setembro do ano passado”. 

Naquele mês, o banco informou à reportagem ter concluído o processo de seleção de consultorias a avaliar o valor de mercado de estatais mineiras que poderiam compor a renegociação do saldo negativo. À ocasião, a entidade presidida por Aloizio Mercadante disse que as parcerias com essas empresas seriam formalizadas assim que o governo federal indicasse as companhias mineiras de seu interesse.

O governo mineiro só deseja incluir estatais como a Codemge nas negociações do Propag caso o Executivo federal não aceite parte considerável dos outros ativos ofertados, como imóveis, recebíveis do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), criado a reboque da reforma tributária e estimados em R$ 30,3 bilhões. Também são prioritários royalties incidentes sobre a exploração local de recursos hídricos para a geração de energia e sobre a exploração nacional de petróleo

A trava das estatais vale ainda para a participação societária do estado na Minas Gerais Participações (MGI), avaliada em R$ 1,2 bilhão, e para uma fatia da Companhia Energética (Cemig), estimada em R$ 13,5 bilhões e condicionada à transformação em corporação. A reorganização societária da estatal, contudo, depende de aval da Assembleia Legislativa e, como O Fator já mostrou, não deve avançar.

Redução do indexador

Mesmo sem saber o que terá de transferir ao governo federal para efetivar a renegociação, Minas Gerais usufrui, desde janeiro, das condições de indexação da dívida oferecidas pelo Propag. 

No modelo, o passivo é corrigido por uma equação que considera apenas o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), sem a incidência de juros reais, ao passo que no Regime de Recuperação Fiscal (RRF), sistema anteriormente seguido, o IPCA era acrescido por juros de 4% ao ano.

O estado comunicou recentemente ao Supremo Tribunal Federal (STF) que já pagou R$ 203,3 milhões sob os moldes do Propag.

O que diz o Tesouro Nacional?

O Estado de Minas Gerais assinou aditivo contratual em 31 de dezembro de 2025. É importante destacar que este primeiro aditivo não é o contrato definitivo para fins de amortização da dívida do Estado com a União.

Conforme Portaria MF 2.889/2025, após a assinatura do aditivo de enquadramento das taxas de juros, ainda devem ser resolvidas as questões relacionadas à negociação dos ativos para que haja de fato a amortização de dívidas.

Nesse sentido, o Tesouro Nacional está avaliando os documentos apresentados quanto aos ativos ofertados, em fase preparatória do processo. Por isso, ainda não é possível afirmar quais ativos serão de fato objeto de acordo entre as partes.

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