A glória costuma ter um peso frio, o peso do bronze das estátuas que vigiam as praças com olhares fixos e espadas em riste. Celebramos a coragem de Joana d’Arc ou a fúria de Nzinga diante dos tronos, mas raramente nos perguntamos sobre o que sustenta o mundo enquanto os monumentos são erguidos. Existe uma santidade anônima que não cabe em enciclopédias e que floresce justamente no avesso do que o mundo convencionou chamar de triunfo.
Penso em D. Mila, minha avó, e em suas mãos que pareciam ter esquecido como se conjuga o verbo descansar. Ela habitava um universo de tanques incomensuráveis onde a roupa parecia procriar durante a noite. Ali ela ficava, curvada, torcendo as horas e a própria vida. O que habita o silêncio de quem se repete mecanicamente para que outros possam caminhar limpos? Talvez pensasse em meu avô, João Klemens, levado por um infarto aos quarenta anos, deixando para trás apenas a casa e a urgência do sustento. O cansaço feminino tem esse hábito cruel de ser mudo, uma anestesia que transforma o corpo em ferramenta e o pensamento em um horizonte sem saída.
Minha mãe, Dolores, foi a tradutora de uma promessa de fé absoluta. Em um tempo de brumas e restrições, quando meu pai estava impedido de estar presente e buscava desesperadamente chegar a tempo, ela negociou com o absoluto. Barganhou com o invisível para que ele recebesse a permissão de ver este filho nascer e, em troca, ofereceu sua única vaidade: as unhas pintadas e o cabelo bem cuidado, aquela pequena flor que a distinguia no caos doméstico. Durante oitenta e nove anos, ela cumpriu o trato, sentindo o fio áspero do cabelo e olhando para as unhas nuas até a consumação de sua grande viagem. A vida nos ensina que o afeto mais profundo não admite fiado e ela pagou o preço à vista com a própria imagem. Quem se lembraria de batizar uma rua com o nome de quem trocou a estética pela presença?
Vivam as mulheres
Havia também o sangue de minha avó Adelaide, que trazia uma herança indígena onde respirar nunca foi um gesto passivo. Ela não ensinava através de cartilhas, mas através da urgência de quem sabe que a vida precisa ser agarrada pelo colarinho e com exemplos. Para ela, o mundo não era um espetáculo para ser assistido de camarote. Viver exige uma coragem bruta que não espera pelos aplausos, mas que se manifesta na teimosia de continuar de pé quando tudo ao redor sugere a queda.
Essa nossa miopia histórica nos faz acreditar que a trama é feita apenas de fios de ouro. Na verdade, a firmeza da tapeçaria depende dos fios invisíveis, esticados no escuro, suados e anônimos. Quando as grandes rainhas discursavam, mãos caladas plantavam o que lhes dava sustento. Quando os heróis marchavam, mãos anônimas lavavam o sangue e o barro de suas túnicas. O equilíbrio do mundo depende, em última análise, dos ombros de quem nunca saiu na fotografia.
Nesta sexta feira, 13 de março, estendendo os ecos da data que acabou de passar, DIA INTERNACIONAL DA MULHER, volto meu olhar para você. Você, a Mulher com M maiúsculo. A observadora comportamental do cotidiano, que possui a sabedoria silenciosa de decifrar as fraturas da alma alheia enquanto, com uma dignidade quase divina, engole as próprias. Você reúne em si todos os fios dessa teia: é um pouco guerreira na rua, a Joana D’arc de outrora, conquistando espaços, e um pouco das Milas, Adelaides e Dolores no recolhimento de casa.
Para sempre, nossas
Você veste o heroísmo que o mundo aplaude e aquele que o mundo finge não ver. A você, que equilibra com maestria a espada do trabalho moderno e a vassoura das urgências diárias, dedico meu espanto e minha reverência. Eu vejo você. O tanque de Mila secou e as unhas de Dolores agora repousam, mas a epopeia da resistência continua pulsando em sua respiração.
Eis a verdade nua: não há mundo sem vocês, pois enxergar o outro é a forma mais desesperada e bela de amar.
Que sejam vistas. Que sejam lembradas e que essa DATA tão significativa fique gravada como dístico para todos nós hoje e sempre.