A saída de Joe Kent, assessor para contraterrorismo do governo de Donald Trump, após afirmar que a guerra com o Irã serviria apenas aos interesses de Israel, põe fogo em um debate que vai muito além da política externa — e que toca em um terreno historicamente sensível.
A ideia de que crises estouram e seriam conduzidas, em última instância, por interesses israelenses — ou por uma influência mais ampla associada a judeus — não é nova.
Kent é ligado à ala isolacionista do movimento Make America Great Again (MAGA), onde além do forte ceticismo em relação a intervenções externas e alianças tradicionais dos EUA na política multilateral, há inúmeros teóricos que usam a conspiração como narrativa para convencer o público de ideias que não são tão simplistas como a decisão de se ir a uma guerra ou não.
Ao longo da história, esse tipo de narrativa apareceu em diferentes contextos. Dos Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação que alegava revelar um plano judaico de dominação mundial, até as teorias mais recentes – e delirantes – de que Israel estaria por trás dos ataques de 11 de setembro para levar os EUA a intervir no Oriente Médio, o padrão se repete: simplificação, personalização da culpa e distorção da realidade.
Aliança histórica
No conflito do momento no Oriente Médio, essas ideias ressurgem mantendo a mesma estrutura: a tentativa de explicar fenômenos complexos a partir de um único eixo de poder.
É legítimo discutir a relação entre Estados Unidos e Israel, o peso de alianças estratégicas e a influência de grupos organizados. O que não se sustenta é a ideia de que decisões de guerra seriam determinadas exclusivamente por esses fatores — como se houvesse uma coordenação centralizada ou um controle direto sobre a política externa americana.
Essa explicação pode parecer convincente, mas entra em colapso quando confrontada com a própria história, inclusive durante o governo Donald Trump. Se os Estados Unidos agissem apenas em função de Israel, seria difícil explicar por que, em momentos-chave, tomaram decisões que não seguiram automaticamente as preferências israelenses.
Política pendular
Durante essa administração, por exemplo, houve oscilações claras na estratégia em relação ao Irã, combinando pressão máxima com tentativas de negociação indireta — um sinal de cálculo próprio. Em várias ocasiões, Trump também demonstrou resistência a ampliar o envolvimento militar no Oriente Médio, chegando a defender a redução da presença americana na região, algo que nem sempre convergia com a visão de segurança de Israel.
Ao mesmo tempo, iniciativas como os Acordos de Abraão mostram que a política americana operava em uma lógica mais ampla, buscando reorganizar o equilíbrio regional e fortalecer sua própria posição estratégica. Não se tratava de “agir por Israel”, mas de redesenhar alianças no Oriente Médio de acordo com interesses próprios, na tentativa de reduzir a influência, por exemplo, de China e Rússia na região.
Esses exemplos deixam claro que há convergência de interesses americanos e israelenses — mas não submissão.
Análise 360°
Outro problema central dessas narrativas é o que elas deixam de fora. Ao focar quase exclusivamente nas lideranças dos governos de Washington e Jerusalém, elas frequentemente ignoram o papel do próprio Irã como protagonista na região.
O regime atua há décadas na expansão de sua influência, seja por meio de alianças indiretas, seja por estratégias assimétricas, seja pela pressão constante associada ao seu programa nuclear e as ameaças existenciais a Israel e seus aliados. Tratar o conflito como se fosse resultado apenas de decisões americanas ou israelenses é desconsiderar uma parte essencial da equação.
E há ainda o fator prático que alterou o cenário no Oriente Médio. Os efeitos posteriores ao 7 de outubro, quando a posição iraniana se enfraquece demais a partir do desmantelamento da capacidade militar do Hamas, em Gaza, do Hezbollah, no Líbano, e da saída de Bashar el Assad do governo da Síria. Isso abriu uma janela de oportunidades aos interesses não só de Israel, mas de todos os países da região que temiam a expansão da influência dos aiatolás, incluindo as monarquias do Golfo que enxergam no regime de Teerã uma ameaça de desestabilização.
Tudo como dantes
Em cenários complexos como o atual no Oriente Médio, é mais fácil apontar um responsável único do que lidar com múltiplos interesses, erros de cálculo e dinâmicas de poder sobrepostas. Essa busca por explicações simples cria narrativas mais fáceis de consumir — mas muito menos precisas.
A diferença entre influência e controle é o ponto central. Alianças importam, interesses convergem, pressões existem — mas isso está longe de significar que uma potência como os Estados Unidos abra mão de sua própria estratégia para seguir exclusivamente a agenda de outro país.
A tese de que “os EUA estão lutando a guerra de Israel” é sedutora porque parece organizar o caos em uma única explicação. Mas tanto a história quanto os fatos recentes mostram que a realidade é um tanto mais complexa do que parece — e que simplificá-la demais não esclarece o conflito, apenas o distorce.