Ação judicial e pressão pública: as estratégias do grupo que tenta resgatar a Associação Mineira de Imprensa

Entidade convive com dívidas e tem a sede, na Rua da Bahia, trancada por cadeados; diretoria não aceita novos associados
Sede da Associação Mineira de Imprensa, na rua da Bahia, no centro de BH, já foi ponto de encontro de profissionais da comunicação e espaço cultural importante na capital mineira

Quem passa em frente ao número 1.450 da Rua da Bahia, no Centro de Belo Horizonte, talvez não saiba que aquele endereço já foi referência para o jornalismo e para a cultura na capital mineira. A edificação, cujas portas de aço estão trancadas por dois cadeados, foi, desde 1949 e por muitas décadas, a sede da Associação Mineira de Imprensa (AMI).

Diante da situação, agravada por dívidas, profissionais de comunicação se organizam para retomar o controle da organização e fazê-la ganhar fôlego. A estratégia para tal envolve o acionamento da Justiça e um ato público, marcado para a segunda-feira (30).

A AMI é uma instituição privada que por anos exerceu papel importante na representação de profissionais e empresas do setor de comunicação. Além disso, tinha presença marcante cidade, pois era frequentada por intelectuais e artistas.

A história foi interrompida em meados da década passada, quando um grupo de pessoas estranhas ao jornalismo e à comunicação se apoderou da entidade, mudou os estatutos mediante assembleias convocadas sem ampla divulgação e passou a não aceitar novos associados.

Há um ano, um grupo de meia centena de jornalistas, publicitários, artistas e pessoas de outras áreas, com o apoio do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Minas Gerais (SJPMG) e da Casa de Jornalista, tenta resgatar a sede da instituição. Inicialmente, o coletivo tentou fazer com que integrantes do sindicato se filiassem à AMI, o que acabou negado pela entidade.

Diante do insucesso, o grupo lançou nesta semana o abaixo-assinado “Resgatar e redemocratizar a AMI”, que contava, na segunda-feira (23), com 1.128 subscrições. Também houve o peticionamento de ação judicial reivindicando o destrancamento da sede, a realização de um inventário da edificação e a nomeação de uma comissão encarregada de receber e processar os pedidos de pessoas que tenham interesse em se associar à entidade.

Na mesma ação, o grupo pede que o atual presidente, José Honorato de Oliveira Júnior, seja impedido de realizar reuniões em nome da AMI. A intenção é conseguir aval da Justiça para uma nova assembleia eleitoral e, consequentemente, a constituição de uma nova diretoria.

O ato público de segunda-feira, por sua vez, está marcado para a Academia Mineira de Letras (AML), também à Rua da Bahia, ao lado da AMI.

No escuro

José Honorato chegou à direção da instituição em 2017, como vice-presidente. Desde então, segundo consta na petição dos jornalistas, nunca mais houve reunião dos órgãos internos da AMI e tampouco a ampla divulgação de convocações de assembleia. Em 2021, foi eleito presidente, também em assembleia sem divulgação.

Na mesma linha, houve a extinção do órgão que fiscalizava o funcionamento da AMI. O resultado é que as contas anuais da associação referentes ao período 2017-2025 não foram aprovadas. Não há relatórios contábeis ou patrimoniais atualizados.

Outra mudança introduzida por José Honorato foi a alteração, em 2020, do estatuto da entidade. O novo regimento passou a prever, na lista de objetivos da AMI, a realização de cursos, estudos, pesquisas, palestras, debates, simpósios e eventos técnicos e científicos em nível técnico, de graduação e pós-graduação, presenciais ou virtuais.

O estatuto também atribuiu à AMI as tarefas de construir e administrar, como mantenedora, o Hospital Beneficente da Imprensa Mineira. Na mesma ata da reunião que alterou o estatuto, consta a aprovação de autorização para a venda da sede trancada por cadeados na Rua da Bahia.

Em 2024, Honorato antecipou a eleição da nova diretoria, originalmente marcada para 2025. Reeleito em assembleia cuja ata tem a assinatura de 17 pessoas, possui mandato até 2028.

Dívida

A AMI deve R$ 700 mil à Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) por causa do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). O passivo, alvo de execução judicial, pode fazer com que o município peça a penhora da sede. A instituição não tem advogado para atuar em sua defesa, segundo o grupo à frente do movimento para retomá-la.

“Hoje, a AMI está trancada a cadeado, abandonada, cheia de dívidas e nas mãos de pessoas que não representam os profissionais de comunicação de Minas, com diretores de endereços incertos e não sabidos, pelo menos para a Justiça”, diz nota à imprensa divulgada pelo movimento.

Teatro da AMI não é muito grande mas teve papel relevante na cena cultural da capital mineira, especialmente nos anos de 1970 e 1980 Foto: AMI/Reprodução

Herança centenária

A AMI é uma instituição centenária. Foi fundada em 18 de setembro de 1921, em Juiz de Fora, na Zona da Mata, com o nome Associação de Imprensa de Minas Gerais. Em 28 de abril de 1949, passou a adotar a atual denominação: Associação Mineira de Imprensa. Dois anos depois, em 1951, por iniciativa do então presidente do Sindicato dos Jornalistas, José Mendonça, teve a sede transferida para Belo Horizonte.

Além da representar os jornalistas a AMI passou a ser, com o correr dos anos, ponto de referência para publicitários, radialistas e produtores de cultura. O Teatro da AMI funcionou ininterruptamente desde a inauguração da sede, em 1962, até o começo da década de 2010.

A associação tinha um grupo cênico e um coral. A jornalista Hélia Ventura, componente do movimento que tenta resgatar a entidade, compôs o time de canto. Soprano, ela guarda boas lembranças do local.

O jornalista, chargista e autor teatral José Carlos Aragão está finalizando um livro sobre a história da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, que acontece no início de cada ano em praticamente todos os teatros de Belo Horizonte. De acordo com Aragão, vários dos depoimentos mencionados na obra apontam o Teatro da AMI como espaço importante para a cultura belo-horizontino.

Aragão se recorda de ter assistido, no Teatro da AMI, à montagem “O Inimigo do Povo”, encenada pelo grupo da entidade. “Foi muito impactante”, relembra ele, que diz ter perdido a conta do número de exposições de arte que testemunhou no local.

O atual presidente da AMI, José Honorato de Oliveira, foi procurado por O Fator por meio do número de WhatsApp que consta no site da entidade. Ele não deu retorno aos contatos.

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