O Brasil caminha a passos largos para o bipartidarismo. De um lado, o PT consolidando a hegemonia da esquerda; do outro, a direita capitaneada pelo bolsonarismo. A polarização espreme o centro de tal maneira que, a cada dia, uma alternativa independente desses dois polos se torna menos viável — tal qual ocorre na política americana, onde democratas e republicanos absorveram praticamente todo o espaço de disputa.
Os extremos ganharam protagonismo nas redes porque o povo gosta de treta e a audiência virou métrica de sucesso político. Quem grita mais, engaja mais. Quem engaja mais, aparece mais. E, quem aparece mais, ganha mais likes. O problema é que essa lógica prejudica profundamente o desenvolvimento de soluções e a construção de convergências. O político moderno quer like. Não quer, de fato, resolver.
Mas está surgindo, no meio do barulho, um jeito diferente de fazer política. Na verdade, não é tão novo assim. É o jeito mais tradicional, mais mineiro, de tocar as coisas, mas que parecia ter morrido. E veja essa releitura: a corrente vem forte de um grupo político do Sul de Minas que ontem teve uma vitória grande: o deputado federal Odair Cunha, do PT, foi eleito ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) com mais de 300 votos na Câmara. A maior votação da história para uma indicação ao TCU.
Vale fazer a conta. O bloco da esquerda na Câmara não chega a metade disso. Ou seja: Odair teve mais da metade dos seus votos vindos de deputados de centro e de direita. Maioria absoluta construída na conversa, no respeito, no trabalho silencioso de anos.
Aqui em Minas, esse grupo tem um representante legítimo: o deputado Ulysses Gomes, também petista, é uma das grandes lideranças da Assembleia. É reconhecido pelos pares de todos os campos ideológicos como alguém do diálogo. Assim, com a vitória de ontem está consolidado o que eu chamo de petismo de bom senso.
Pode soar estranho para quem é bolsonarista ou mesmo para alas mais radicais dentro do PT, mas basta dar uma volta pelos corredores da Assembleia ou da Câmara dos Deputados que não é difícil ouvir a frase: “Odair (ou Ulysses) nem parece do PT”. Isso porque, no mesmo sentido de Odair, Ulysses se afasta da polarização odienta para construir consensos e soluções. E acordo, aqui, não é negociata. É outra coisa. É estar disposto a ceder. Estar disposto a convencer e, principalmente, a ser convencido. É reconhecer que o adversário de hoje pode ser o aliado necessário amanhã. É entender que governar exige mais paciência do que like.
A corrente que chamo de bom senso petista é uma revolução no modo de fazer política e uma ponta de esperança de que fazer diferente também dá resultado. Inclusive em meio à polarização. A gente tem orgulho de ver esse jeito de fazer política começar a dar frutos maiores. Quem sabe mais gente se convence? Quem sabe, no meio da gritaria, sobra ouvido para quem fala baixo e faz muito? Talvez o bom senso, afinal, seja a ponte que faltava, a ponte para a reconstrução do respeito e da construção de um país e de um estado melhor.
