Há algo errado no mundo corporativo, tanto na iniciativa privada quanto no setor público, e os números já não permitem fingir que não vemos, inclusive no tocante aos resultados operacionais.
Não se trata mais de percepção subjetiva ou de “fragilidade” individual ou coletiva. Trata-se de uma crise mensurável, documentada e crescente, impactadas por ambientes tóxicos. Hoje, trabalhar em um ambiente tóxico não é apenas desagradável. É, literalmente, um fator de risco à saúde, do grupo das doenças crônicas não transmissíveis, que impacta negativamente os resultados.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), jornadas exaustivas, em horas de trabalho ou ambiente tóxico contribuíram para mais de 700 mil mortes por AVC e doenças cardíacas em um único ano. Não é metáfora, são dados estatísticos.
E o problema está entranhado na cultura organizacional.
O Relatório Global de Bem-Estar no Trabalho, da Indeed, aponta que 60% dos trabalhadores vivem constantemente estressados no trabalho, enquanto apenas 1 em cada 5 afirma sentir que está prosperando profissionalmente, e esse adoecimento ocorre também no serviço público, até em órgãos certificados como bom local para trabalhar. Talvez as métricas das certificações não estejam conseguindo perceber esta realidade.
Um estudo da International Stress Management Association (Isma) revela que o Brasil ocupa o segundo lugar em número de casos diagnosticados de burnout, superado apenas pelo Japão, onde 70% da população é afetada pelo problema. No Brasil cerca de 30% dos trabalhadores sofrem com a síndrome de burnout, colocando o país entre os líderes mundiais desse adoecimento, inclusive no serviço público.
E não estamos falando de casos isolados. Uma pesquisa recente (2024) da WTW, consultoria especializada em gestão de riscos, mostra que 23% dos profissionais já apresentam níveis elevados de esgotamento, com impactos diretos na saúde física e emocional, impactando produtividade.
O trabalho, para milhões de pessoas tornou-se fonte de sofrimento, inclusive em funções altamente especializadas e com profissionais qualificados, que passaram por rigorosos processos de recrutamento e seleção, como concursos públicos.
O adoecimento institucionalizado
Há uma tendência perigosa e conveniente de individualizar o problema. Fala-se em “resiliência”, “inteligência emocional”, “gestão do estresse”, e tais habilidades são mesmo fundamentais. Mas dar o enfoque como se o adoecimento fosse alheio ao trabalho é inadmissível. E os próprios dados desmontam essa narrativa.
A síndrome de burnout já é oficialmente reconhecida como um fenômeno ocupacional, diretamente ligado ao estresse crônico no ambiente de trabalho.
Ou seja: não é fraqueza. É contexto real.
E esse contexto se repete tanto no setor privado quanto no público, ainda que com roupagens diferentes.
Na iniciativa privada, o motor é a pressão por performance: metas agressivas, competitividade interna, resultados que devem crescer de forma exponencial, além do medo constante de substituição e da concorrência com a máquina.
No setor público, o adoecimento assume outra face: estruturas rígidas, incompatíveis com o mundo atual, falta de recursos, sobrecarga crônica, carreiras disfuncionais, com cargos e remuneração inadequados, e ausência de reconhecimento.
Recentemente algo neste sentido tem impactado a Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais (SEF/MG), em função da decisão do STF (Tema 1427) que requereu a edição de uma lei (PL 5.234/26), cuja aprovação ainda pendente está adoecendo os servidores e a própria Secretaria de Fazenda, e parece que o Estado ignora este custo invisível, que impacta os servidores, o Estado e a sociedade.
O resultado é a exaustão, e a conta vem, no micro e no macro.
O custo é gigantesco. A OMS estima que depressão e ansiedade causam a perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano no mundo, somado cada trabalhador. Não por acaso a receita corrente líquida de Minas Gerais está abaixo da previsão orçamentária. Relatório enviado por Minas ao Tesouro Nacional em 2026 e divulgado pela imprensa aponta que a situação fiscal do Estado é a pior do país. Caso o cenário da SEF/MG não mude rápido, perderá o trabalhador, perderá o Estado, perderá a sociedade.
Estamos falando de uma epidemia silenciosa que corrói produtividade, inovação, arrecadação e sobretudo vidas, com custo visível e invisível.
O fracasso da cultura do ‘aguentar‘
Durante décadas, consolidou-se a ideia de que ambientes de alta pressão produzem melhores resultados. A romantização do excesso virou paradigma. Trabalhar até a exaustão passou a ser sinal de comprometimento.
Mas a ciência e a realidade mostram o contrário, o que até deu origem à NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1), formalizada pela Portaria nº 1.419/2024. Pela primeira vez, o Brasil passa a exigir que empresas identifiquem, avaliem e controlem riscos psicossociais dentro do chamado Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).
Superar limites é fundamental para a evolução, mas sob estresse contínuo, o cérebro perde capacidade, criatividade e foco. A produtividade não aumenta. Ela colapsa. Isso é questão de saúde e de gestão de pessoas.
O que é chamado de “alta performance” muitas vezes, na prática, é um ciclo de desgaste paralisante. No setor público, o problema tem uma grande dimensão invisível, diluído na ideia de “estabilidade” que, na prática, mascara ambientes profundamente adoecedores para técnicos e gerentes.
Funcionários não se tornam mais eficientes sob pressão e stress ilimitados, no limite tornam-se mais ansiosos e adoecem, adoecendo as organizações.
O ócio criativo como antídoto
É aqui que a teoria do sociólogo Domenico De Masi deixa de ser um conceito elegante e passa a ser uma necessidade prática.
De Masi propõe algo que, para muitos gerentes, ainda soa quase herético: a integração entre trabalho, aprendizado e prazer.
O chamado “ócio criativo” não é ausência de trabalho, é a presença de sentido e propósito.
Em ambientes saudáveis, o profissional não é esmagado pela tarefa, estruturas ou subordinação anacrônica. Ele interage com mérito e flexibilidade, mas dependente de estruturas funcionais, com qualidade de trabalho e bem-estar. Tem espaço para pensar, criar, respirar, com efetivo reconhecimento. E é exatamente nesse espaço que surgem inovação, engajamento e qualidade.
Organizações que lidam com atividades naturalmente estressantes: emergências hospitalares, segurança pública, combate a fraudes e outras deveriam ser as primeiras a compreender isso e proporcionar estruturas físicas, tecnológicas e de pessoal, compatíveis com esta realidade, mas muitas vezes não é o que se verifica. Ironicamente, são muitas vezes as últimas organizações a compreender.
O que o futuro do trabalho requer
Os dados já estão na mesa. O diagnóstico é claro. O que falta é atitude e coragem para fazer acontecer.
Tratar interesse público de forma utilitarista, com o referencial de interesses pessoais do decisor, é completa deturpação da visão pública, mas vemos isso com relativa frequência. Colaborar para o adoecimento de trabalhadores e depois ignorar o impacto do clima organizacional na saúde destas pessoas e suas consequências institucionais, é negligência.
A nova economia e relações sociais não será definida apenas por inteligência artificial, automação ou trabalho remoto. Ela será definida pela capacidade (ou incapacidade) do propósito das organizações em preservar a saúde emocional de quem as sustenta.
Neste sentido Daron Acemoglu e James Robinson, ganhadores do Nobel de Economia de 2024, argumentam em seu Livro Por que as nações fracassam, que o desenvolvimento é determinado por instituições inclusivas, aquelas que tendem a se sustentar (virtuoso), enquanto instituições extrativistas tendem a se perpetuar (vicioso).
No fim, nenhuma estratégia se sustenta com estruturas disfuncionais e equipes esgotadas.
Ambientes tóxicos não geram alta performance.