O Yom HaShoá (dia de lembrança do holocausto) neste ano comemora-se em 13 e 14 de abril. Esse não é apenas um dia de memória. É um espelho.
Ao recordar os seis milhões de judeus assassinados durante o Holocausto, não estamos apenas olhando para trás — estamos sendo confrontados com uma pergunta essencial: como foi possível?
Essa pergunta atravessou o século XX e encontrou uma das respostas mais perturbadoras na obra de Hannah Arendt. Ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann, um dos principais organizadores logísticos da “solução final”, Arendt não encontrou um monstro no sentido clássico. Encontrou algo talvez mais inquietante: um homem comum.
Foi a partir dessa constatação que ela formulou o conceito de “banalização do mal”. O mal, ali, não se apresentava como fruto de uma perversidade extraordinária, mas como resultado de uma engrenagem burocrática, de uma adesão acrítica, de uma incapacidade — ou recusa — de pensar. Eichmann não se via como um assassino. Via-se como alguém que cumpria ordens, que executava tarefas, que participava de um sistema.
O horror, portanto, não residia apenas na magnitude dos crimes, mas na sua normalização.
É exatamente por isso que o Yom HaShoá não pode ser reduzido a um ritual de lembrança distante. Ele exige reflexão sobre os mecanismos que tornam o mal possível — e, mais ainda, sobre os sinais de que esses mecanismos continuam operando. Porque continuam.
Em 7 de outubro de 2023, o mundo assistiu à maior atrocidade contra judeus desde o Holocausto, perpetrada pelo grupo terrorista Hamas. Civis foram assassinados, famílias inteiras foram exterminadas, mulheres foram brutalmente violentadas, crianças foram sequestradas. A violência não foi apenas letal — foi deliberadamente cruel.
Mas, à luz da reflexão de Arendt, o que mais inquieta não é apenas o ato em si, mas o que o cerca. A celebração. A justificação. A relativização.
E aqui reside um dado crucial — frequentemente negligenciado: esse movimento de banalização do mal começou antes mesmo de qualquer reação militar de Israel.
Ainda sob o impacto imediato dos ataques — quando o mundo apenas começava a tomar conhecimento da dimensão das atrocidades — já se viam manifestações que buscavam explicar, minimizar ou até legitimar o ocorrido. A barbárie foi, desde o primeiro momento, diluída em discursos políticos, enquadrada como “resistência”, ou simplesmente ignorada.
Ou seja: não se tratava de uma reação a um contexto posterior. Tratava-se, desde a origem, de uma disposição de relativizar o assassinato deliberado de civis. É nesse ponto que a banalização do mal reaparece com força assustadora.
Ela não está apenas na execução dos atos, mas na sua absorção pelo discurso público. Quando assassinatos de civis são relativizados, quando vítimas são desumanizadas, quando a violência é reinterpretada como instrumento legítimo — o mal deixa de chocar. Ele passa a ser tolerado.
E, lembre-se: após a reação militar – contra o Hamas, e não contra o povo palestino – a constante e falsa comparação da guerra com o próprio holocausto desumaniza as vítimas da máquina de morte nazista novamente. Os judeus foram mortos aos milhões pelos nazistas apenas por serem judeus, não por terem sido usados como escudos humanos por um grupo terrorista. O Hamas instrumentaliza o sofrimento do seu próprio povo.
A lição de Hannah Arendt, portanto, não pertence apenas ao passado. Ela é uma chave de leitura do presente.
O Holocausto não começou com câmaras de gás. Começou com palavras, com ideias, com a construção gradual de uma narrativa em que determinados grupos deixavam de ser plenamente humanos. Começou com a aceitação social do inaceitável.
O que se viu após 7 de outubro revela que esse processo não está superado. O antissemitismo contemporâneo frequentemente se apresenta sob novas formas, mas conserva sua essência: a desumanização do judeu. Seja por meio da demonização coletiva, da negação do direito à existência ou da indiferença diante da violência, o padrão se repete — ainda que com novas linguagens ou novos rótulos.
E, como no passado, o perigo não está apenas nos que praticam diretamente o mal, mas nos que o justificam, nos que o silenciam e nos que se recusam a reconhecê-lo.
O Yom HaShoá, nesse contexto, assume uma dimensão ainda mais urgente.
Ele não é apenas um memorial das vítimas do passado, mas um instrumento de vigilância moral no presente. Ele nos lembra que o mal pode se instalar de forma gradual, que pode se disfarçar de discurso legítimo e que pode prosperar na ausência de pensamento crítico.
Lembrar, portanto, é uma ação concreta. É recusar a normalização. É rejeitar a indiferença. É identificar, nas manifestações contemporâneas de ódio e violência, os mesmos mecanismos que, em outro tempo, tornaram possível o Holocausto.
A banalização do mal não terminou em 1945. Ela continua sendo testada — e, em muitos casos, aceita. O Yom HaShoá existe para que não esqueçamos disso.
E, sobretudo, para que não permitamos que isso se repita.