A paz se aprende no hábito. Nescafé para palestinos e israelenses

E que um dia, nessa terra ferida, o primeiro gosto da manhã seja o do compartilhamento
café
Foto: Agência Brasil

Escrevi isto num dia da semana qualquer, já nos últimos meses do ano passado, depois de ler mais uma notícia sobre crianças mortas em Gaza. Minha xícara de café esfriou enquanto eu tentava ligar os pontos — o cheiro da manhã, uma história antiga da Nestlé no Japão, a teimosia dos conflitos que se repetem. Não sou especialista em Oriente Médio. Sou só alguém que desconfia que os hábitos, às vezes, conseguem ser mais persistentes do que as heranças de ódio. Se esta crônica parece idealista, paciência. O idealismo também se aprende — ou se insiste nele. E todo hábito começa num gesto pequeno, como ferver água.

A cozinha é o primeiro cômodo a despertar. Enquanto a casa ainda boceja, a chaleira entoa seu canto suave, o vapor sobe como prece silenciosa. Em Ramallah ou Haifa, Gaza ou Tel Aviv, alguém dissolve o pó escuro na água, aguardando o milagre simples do primeiro gole. O paladar constrói sua pátria na infância — quem narra as primeiras memórias governa afetos que, mais tarde, julgamos nossos. Há uma geografia íntima que nos habita, feita de sabores e sons que nos escolhem antes que tenhamos consciência de escolher.

Nos anos 70, no Japão do império do chá, a Nestlé percebeu esse mecanismo íntimo. Convocou psiquiatras e psicólogos não exatamente para vender, mas para semear. Impregnou doces e sorvetes com aroma de café, perfumou recreios e festas… e esperou. O tempo fez seu trabalho silencioso: primeiro a lembrança, depois o hábito, por fim algo que já parecia cultura. Uma década depois, a xícara já cheirava a infância. Não era magia — embora parecesse —, era método. A colher que, sem pressa, ressignifica o gosto. O mesmo paladar que rejeitaria o amargo ontem, hoje o reconhece como lar.

Se conseguimos ressignificar sabores — e conseguimos —, por que não arriscar ressignificar a convivência? Se uma marca consegue vincular aroma a afeto, por que não tentamos ligar “vizinho” a “cuidado”, “fronteira” a algo menos rígido que um muro? Talvez a resposta não seja confortável: porque não tentamos de verdade. Ou tentamos pouco. Ou desistimos cedo demais. Há uma estranha familiaridade no conflito que nos poupa da ousadia de imaginar o novo.

Há dois mil anos, na mesma terra onde hoje se repetem conflitos, um pregador foi condenado porque sua mensagem ameaçava estruturas de poder. Autoridades religiosas e políticas se alinharam; o império calculou; a multidão gritou. O que temem hoje os poderosos, a ponto de manterem suas crianças reféns do mesmo ciclo? Terá o poder um sabor mais doce que a vida? Não sei. E talvez ninguém saiba com segurança. Apenas percebo que a história não se repete — mas insiste em rimar com aquilo que nos recusamos a transformar.

A paz não se assina apenas em documentos; ela se ensaia no cotidiano. Precisa de orçamento — sim —, mas também de alguém que abra a escola cedo, que prepare a merenda, que mantenha o recreio seguro. Menos solenidade, mais convivência. Menos cláusulas perfeitas, mais cadernos com dois alfabetos, times mistos de futebol, escutas reais para dois lutos que raramente se encontram. Uma cultura de paz respira nos gestos miúdos: duas janelas acesas ao mesmo tempo, lembrando que ninguém acorda sozinho. Gesto vira hábito — ou tenta virar. E, quando insiste, às vezes consegue virar cultura.

Como lembrou o jornalista Guga Chacra ao analisar o cessar-fogo em Gaza, há sempre uma mistura de alívio pelo presente, tristeza pelo passado e um certo ceticismo sobre o que vem depois. Até os instantes de trégua exigem atenção: o que vira rotina acaba nos moldando mais do que qualquer discurso. Talvez por isso citar não seja repetir, mas ajustar o foco — para que a paz não seja episódica, e sim prática.

Isto não é negar a complexidade. Ao contrário, é reconhecer que toda transformação profunda começa no nível mais simples da experiência humana. Enquanto a paz for tratada apenas como conceito diplomático — e não como prática vivida —, continuaremos assinando tréguas frágeis em vez de construir convivências possíveis.

O café ensina. Ou, pelo menos, sugere. Os hábitos amadurecem em fogo brando. A xícara não tem pressa; a chaleira silva no seu tempo. Nem tudo cabe nessa metáfora — conflitos não se dissolvem como pó —, mas ainda assim algo nela insiste. Talvez porque, um dia, a geração que hoje soletra “sirene” ainda possa sentir falta de ter trocado figurinhas com quem vivia do outro lado. E, quase sem perceber, escolha um outro caminho: o de não ferir; o de estender a mão; o de reconhecer no outro não um inimigo herdado, mas alguém com quem se divide o mesmo tempo.

A chaleira canta novamente. Que sua canção, desta vez, atravesse o muro. Que seu vapor una o que a política ainda não conseguiu. E que um dia, nessa terra ferida, o primeiro gosto da manhã seja o do compartilhamento — amargo como a verdade, quente como o afeto, e, quem sabe, doce como a Justiça.

Antes de apagar o fogo: obrigado, NESCAFÉ, pela prova de conceito. Se um aroma, aliado a método e paciência, foi capaz de mudar o paladar de um país, talvez possamos — com mais dificuldade, é verdade — mudar hábitos de convivência. Chamo isso de campanha, se quiserem, mas sem a pressa dos slogans. Uma xícara por dia, uma conversa por dia, um gesto por dia. Sentar à mesa, escutar de verdade, tentar compreender o que aflige o outro. Governos, escolas, lares, mídia, lideranças — cada um com o que puder. Não será rápido. Nunca é. Mas o primeiro açúcar é nosso. O segundo também. O terceiro… a gente decide junto. 

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