O sentido da vida é uma daquelas respostas que a gente passa a existência inteira tentando encontrar, como se fosse um objeto perdido dentro de casa. Nós sabemos que está em algum lugar, mas quanto mais procuramos, mais ele parece escapar.
Geralmente, imaginamos que o sentido da vida se aproxima de algo grandioso, como uma missão ou um chamado. Muitas vezes também achamos que o sentido está nas conquistas, nos planos que dão certo, nos objetivos alcançados. Mas e depois? Depois do “consegui”, a vida pergunta: “e agora?”
Talvez o erro esteja na pergunta. Talvez “qual é o sentido da vida?” seja uma pergunta grande demais para uma resposta única. O sentido da vida não se resume a uma frase pronta, já que é um texto em construção, desses que a gente escreve, apaga, reescreve, rasga e, ainda assim, segue escrevendo.
Com o tempo, fui percebendo que, provavelmente, o sentido da vida não seja algo a ser encontrado, mas algo a ser vivido. Quando a gente para de procurar uma resposta final, começa a prestar atenção no caminho. E o caminho, esse sim, é cheio de sentido, mesmo quando parece bagunçado, mesmo quando dói, mesmo quando não sabemos exatamente aonde chegaremos.
Como dizia Raul Seixas, na música “No fundo do quintal da escola”, lançada em 1978, “não sei onde eu tô indo, mas sei que eu tô no meu caminho”. Isso significa confiar que há uma Força Maior nos guiando e que o sentido está muito além do entendimento, está na estrada.
Quando digo que o sentido é algo que se vive, estou, no fundo, abrindo mão de uma lógica antiga: a de que primeiro vem o entendimento, depois a paz. Não seria o contrário? Talvez a paz só comece a aparecer quando a gente aceita não entender tudo e passa a verdadeiramente viver.
E aí há um deslocamento sutil, mas profundo, pois eu deixo de procurar sentido na vida e começo a colocar sentido na forma como vivemos. No jeito que nos percebemos, no jeito que nos posicionamos, no jeito que escutamos, no jeito que olhamos, no jeito que conversamos, no jeito que nos manifestamos, ou seja, no modo como a nossa vida vivida também impacta na vida do outro.
É curioso como o que achávamos que era grande demais se revela no simples, nos detalhes muitas vezes despercebidos. Está no banho tomado sem pressa, no abraço que chegou na hora exata, na palavra que não resolveu o problema, mas acalmou o coração, no afeto que a gente oferece sem garantia de retorno. Está, principalmente, no que a gente sente, ou melhor, no que a gente se permite sentir e no que a gente gera de sensação em quem está conosco.
Nada do que vivemos tem sentido se não nos fizermos presentes também na vida das pessoas, já que fazemos parte do todo, do mesmo Universo. Podemos acumular fortunas e construir histórias grandiosas, mas, se apenas passarmos pelas pessoas, como transeuntes apressados, o que realmente teremos deixado?
Daí a importância de percorrer a estrada deixando marcas invisíveis, porém, profundas, aquelas que não aparecem nas fotos, mas que permanecem na memória de quem sentiu. Ninguém se lembrará exatamente do que você conquistou, mas se lembrará de como você a fez sentir.
Essa reflexão é sabiamente traduzida num dos grandes ensinamentos deixados por Madre Teresa de Calcutá, ao estimar “que ninguém jamais se aproxime de você sem sair melhor e mais feliz”.
E é nesse território de como vivemos que talvez a vida encontre seu verdadeiro significado: ser vivida com amor, sentida com felicidade e compartilhada com algum tipo de luz que continue existindo mesmo quando deixarmos de existir.