Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, ocupa um lugar singular no imaginário nacional. Alferes das tropas da Coroa Portuguesa, ele representava, ainda no período colonial, a presença do Estado na proteção e na organização do território brasileiro, função que hoje se desdobra tanto no Exército Brasileiro quanto nas polícias militares.
Sua atuação na Inconfidência Mineira ultrapassou o papel formal que ocupava. Tiradentes assumiu riscos, articulou ideias e levou às últimas consequências o compromisso com o que entendia como liberdade e justiça. Pagou com a própria vida, transformando-se em símbolo nacional de entrega absoluta a um ideal.
Não é por acaso, portanto, ser referência no Exército Brasileiro e patrono da Polícia Militar de Minas Gerais. Ambas as instituições se estruturam sobre valores como disciplina, coragem, lealdade e disposição ao sacrifício pelo coletivo, exatamente os atributos que Tiradentes passou a representar ao longo do tempo.
Mau anfitrião
Mais do que um personagem histórico, ele se tornou exemplo de ética. Um homem comum, sem poder ou prestígio, que escolheu enfrentar uma estrutura muito maior do que ele. É esse gesto que sustenta sua permanência como patrono e inspiração – a ideia de que servir à coletividade exige ir além do próprio interesse.
E foi justamente isso que faltou, infelizmente, ao prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, na cerimônia de entrega das medalhas da Inconfidência, neste 21 de abril, ato tradicional no calendário mineiro em que pessoas notórias, de todos os setores e regiões do país, são agraciadas por algum mérito.
Filiado ao Partido Verde (PV), o prefeito resolveu abandonar a liturgia da cerimônia e o papel de anfitrião de todos – e não apenas de seu grupo político – e destilou palavras nada cordiais aos militares. Tudo por conta do debate sobre escolas cívico-militares, uma bandeira do governador Mateus Simões.
Bateu, levou
O prefeito, como todo militante de esquerda – e não há mal algum nisso, desde que em momento e local oportunos -, atacou os colégios militares, que são centros de educação de excelência, apenas por questões ideológicas. Repito: não há mal algum nisso, desde que em momento e local oportunos.
Sabedor de que Simões é um defensor das instituições – inclusive em rota de colisão com o Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) por conta disso-, Oswaldo transformou uma solenidade de festa em bate-boca político, já que foi imediatamente confrontado pelo governador mineiro.
Quem conhece Mateus Simões – e muitos apontam isso como um defeito – sabe que ele “não leva desaforo para casa”. Sempre foi um contundente defensor das próprias ideias, em todos os ambientes, desde a faculdade de Direito, passando pela Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte (CMBH).
Joio e trigo
Sentindo-se ofendido, o governador disparou: “Eu lamento muito que em Minas Gerais a cortesia de quem recebe tenha sido perdida pela necessidade de se fazer política em um momento cívico. Cívico e militar, como o dia de Tiradentes sempre é e continuará sendo, independentemente de quem governa.”
Apoiado e aplaudido pela maioria dos presentes, Mateus continuou: “Se há quem tenha vergonha do militarismo, essa casa não o tem. Meu respeito aos militares, e que não caiam em palavras vazias daqueles que não têm esse respeito”. Obviamente, o clima deixou de ser festivo e se tornou constrangedor.
O ex-presidente Jair Bolsonaro e sua turba, sobretudo militares que o apoiaram na direção de uma tentativa de ruptura institucional, trouxeram à tona um preconceito que parecia superado. Por causa dos golpes ao longo da história, a instituição teve seu nome e sua honra manchados.
Angelo Oswaldo vocalizou essa distorção. Mas não se deve, em hipótese alguma, culpar toda uma categoria pelos desvios de poucos. Pois assim, ao contrário de razão, tem-se injustiça.