Sou um saudosista de uma era em que os políticos pareciam compreender melhor a grandeza das instituições. Um tempo em que a Presidência da República não era tratada como extensão de um projeto pessoal, de uma torcida ideológica ou de uma estratégia permanente de conflito. Havia disputas duras, divergências profundas, crises reais e erros, naturalmente. Mas havia também uma percepção mais nítida de que certos cargos exigem contenção, liturgia, responsabilidade e respeito. A cadeira presidencial era maior do que quem a ocupava. E talvez seja justamente por isso que, ao olhar para a trajetória de Fernando Henrique Cardoso, é impossível não sentir saudade de uma política que, mesmo imperfeita, ainda preservava alguma noção de grandeza pública.
FHC presidiu um Brasil que ainda buscava se afirmar no mundo com confiança, estabilidade e respeito institucional. Apesar dos muitos problemas do país, havia direção, responsabilidade fiscal, previsibilidade e preocupação com sua inserção internacional. Depois de sua saída, essa postura foi se perdendo, e o Brasil passou a consumir energia em crises, radicalismos e disputas que apequenaram o debate público. Nesse contraste, Fernando Henrique aparece como símbolo de uma era em que a política ainda guardava compromisso com a história, as instituições e o papel do Brasil no mundo.
Fernando Henrique Cardoso é desses personagens que a vida pública brasileira não pode tratar com pressa, ressentimento ou vulgaridade. Há homens que passam pelo poder. Há outros que, ao passarem por ele, ajudam a moldar uma época. FHC pertence a essa segunda categoria. Agora, diante das notícias sobre o agravamento de seu estado de saúde, com quadro avançado de Alzheimer e a curatela judicial requerida por seus filhos, o Brasil se vê diante de uma oportunidade rara, a de olhar para trás com serenidade, reconhecer grandeza sem apagar controvérsias, discordar sem desumanizar e prestar respeito a quem dedicou boa parte de sua existência à vida intelectual, à democracia e ao Estado brasileiro.
Fernando Henrique foi, acima de tudo, um estadista de verdade. Estadista é quem compreende que o poder é passageiro, mas as instituições ficam. É quem sabe que a Presidência da República não pertence ao presidente, mas ao país. FHC tinha essa noção. Na fala, nos gestos, na forma como se dirigia aos adversários e na maneira como tratava a liturgia do cargo, havia nele uma consciência institucional que hoje parece quase antiga, mas que deveria ser permanente. Mesmo quando enfrentou críticas duras, greves, crises econômicas, acusações políticas e oposição organizada, manteve uma postura de respeito à democracia, ao Congresso, ao Supremo, à imprensa, aos ritos republicanos e à alternância de poder.
Sua história não começou no Palácio do Planalto. Antes de ser presidente, FHC foi professor, sociólogo, pesquisador, senador, ministro das Relações Exteriores e ministro da Fazenda. Foi perseguido durante a ditadura militar, viveu o exílio, voltou ao Brasil e participou da reconstrução democrática do país. Sua presença na vida pública vinha acompanhada de algo raro: repertório. Fernando Henrique era um intelectual na política, mas não um intelectual distante do mundo real. Ele conhecia o Brasil das estruturas sociais, das desigualdades, das tensões regionais, das limitações do Estado e das urgências de uma sociedade marcada por profundas injustiças. Talvez por isso, mesmo quando tomou decisões difíceis e impopulares, procurou justificá-las dentro de uma visão de país, não de uma conveniência de ocasião.
O maior símbolo dessa visão foi o Plano Real. Como ministro da Fazenda de Itamar Franco, FHC assumiu uma das tarefas mais complexas da história econômica brasileira: ajudar a derrotar a hiperinflação. Para as novas gerações, pode parecer abstrato falar de inflação de três ou quatro dígitos ao ano. Mas quem viveu aquele período sabe o que significava receber um salário e correr ao supermercado antes que os preços mudassem. A inflação corroía a renda, destruía o planejamento familiar, punia os mais pobres e tornava o futuro uma espécie de improviso permanente. O Real devolveu ao brasileiro uma noção básica de normalidade. Deu previsibilidade ao salário, ao preço do alimento, ao orçamento doméstico, à pequena compra parcelada, à vida comum. Foi mais do que uma mudança de moeda. Foi uma reorganização da confiança nacional.
É evidente que o Plano Real não foi obra de um homem só. Ele resultou de uma equipe técnica qualificada, da decisão política do governo Itamar Franco e de um ambiente institucional que permitiu sua execução. Mas também é verdade que Fernando Henrique foi seu grande condutor político. Teve a habilidade de defender o plano, organizar apoios, dar credibilidade pública à estratégia e transformar uma solução econômica complexa em uma esperança compreensível para a população. Depois, já presidente, coube a ele sustentar a estabilidade conquistada. Governar o Brasil depois da hiperinflação não era apenas administrar indicadores. Era impedir que o país recaísse na desordem monetária que havia marcado décadas de frustração.
Seus dois mandatos foram atravessados por reformas, avanços e controvérsias. Houve privatizações, abertura econômica, mudanças no papel do Estado, criação de agências reguladoras, fortalecimento do setor de telecomunicações, reformas administrativas, debates sobre Previdência e medidas de responsabilidade fiscal. A Lei de Responsabilidade Fiscal, sancionada em seu governo, permanece como um marco da administração pública brasileira, ao afirmar que governar exige limite, planejamento e compromisso com as próximas gerações. Também vieram medidas sociais e institucionais relevantes, como o Fundef, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, os medicamentos genéricos, a consolidação de programas de transferência de renda que serviriam de base para políticas posteriores e a criação de instrumentos voltados à proteção social.
Mas o estadista se mede também na crise. FHC governou em meio a turbulências internacionais, como as crises do México, (1994/1995) da Ásia (1997) e da Rússia, (1998) que pressionaram fortemente economias emergentes. Enfrentou a desvalorização do real em 1999, acordos com o FMI, desgaste político, desemprego, críticas às privatizações, a crise energética do apagão e a polêmica emenda da reeleição. Nada disso deve ser escondido em um texto de homenagem, porque homenagem verdadeira não é propaganda. O próprio tamanho de FHC está em ter atravessado crises sem romper com a normalidade democrática, sem estimular aventuras institucionais e sem transformar adversários em inimigos da pátria. Ele podia ser contestado, e foi. Podia ser vaiado, criticado, combatido no Congresso, nas ruas e nas urnas. Mas havia um pacto mínimo de civilidade que hoje parece fazer falta ao Brasil.
Um dos episódios mais importantes de sua biografia política veio justamente depois de deixar o poder. Em 2002, ao fim de oito anos de governo, Fernando Henrique conduziu uma transição republicana para Luiz Inácio Lula da Silva, seu adversário político histórico. A passagem de governo foi institucional, organizada e respeitosa. Aquele gesto, que deveria ser normal em qualquer democracia madura, tornou-se com o tempo um exemplo cada vez mais necessário. A alternância de poder é uma das provas mais importantes de uma República. FHC compreendia isso. Para ele, perder espaço político não significava atacar o sistema. Discordar do sucessor não significava sabotar o país. Essa é uma das diferenças entre o político comum e o estadista.
Também é impossível falar de Fernando Henrique sem falar de Ruth Cardoso. Dona Ruth não foi apenas a esposa do presidente. Foi uma intelectual de primeira grandeza, antropóloga, professora, pesquisadora, mulher de pensamento próprio e atuação pública discreta, mas profunda. Sua importância na vida de FHC não cabe apenas no campo afetivo, embora ali tenha sido decisiva. Ruth foi companheira de trajetória, de formação, de exílio, de vida acadêmica e de compreensão do Brasil. Ao lado de Fernando Henrique, ajudou a construir uma visão de país menos simplista, mais atenta à sociedade civil, às comunidades, às mulheres, aos jovens, às periferias e à capacidade de organização das pessoas.
Como primeira-dama, Ruth Cardoso recusou o papel decorativo e transformou sua posição em uma ponte entre Estado e sociedade. À frente do Comunidade Solidária, articulou governo, empresas, universidades, organizações sociais e comunidades em iniciativas de combate à pobreza e fortalecimento da cidadania. Seu trabalho valorizava a autonomia das pessoas e tratava política social não como favor, mas como construção de oportunidades. Ao lado de FHC, Ruth representava uma presença intelectualmente independente, discreta e profundamente pública. Sua morte, em 2008, foi uma perda pessoal para Fernando Henrique e simbólica para o país, que perdia uma referência de inteligência, seriedade e serviço público sem espetáculo.
O Brasil parece ter desaprendido a discordar. Depois da saída de Fernando Henrique da Presidência, o país mergulhou, pouco a pouco, em uma crise ética, moral e institucional que não pertence a um único partido, a um único governo ou a uma única liderança. É uma crise mais ampla, alimentada pela corrupção, pelo ressentimento, pela polarização, pela intolerância e pela substituição do debate público por torcidas organizadas. Passamos a viver uma política de idolatria. Muitos deixaram de ter opinião para ter lado. Deixaram de avaliar fatos para proteger seus líderes de estimação. Deixaram de cobrar coerência para justificar qualquer coisa desde que venha do próprio campo político.
Houve um tempo, não perfeito, mas melhor em espírito público, em que a política brasileira era discutida com mais densidade. Os debates eram duros, mas havia mais respeito pela inteligência do outro. As divergências entre FHC, Lula, Mário Covas, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Itamar Franco, José Sarney, Marco Maciel, Pedro Simon, entre tantos outros, pertenciam a uma arena política em que ainda era possível reconhecer biografias. Hoje, com frequência, tenta-se destruir a pessoa para não enfrentar o argumento. Ataca-se a honra, a idade, a doença, a família, a memória. E isso empobrece o país.
Neste momento de fragilidade, o mínimo que se deve a Fernando Henrique é respeito. Respeito ao ex-presidente. Respeito ao professor. Respeito ao homem que enfrentou o autoritarismo, participou da redemocratização, governou o país por dois mandatos e entregou o poder dentro da normalidade republicana. Respeito também à sua família, que agora lida com a dimensão íntima e dolorosa de uma doença que retira, aos poucos, partes da memória, mas não retira a dignidade de uma vida.
Que o presidente Fernando Henrique Cardoso tenha o restante de sua caminhada cercado de cuidado, silêncio respeitoso, afeto e dignidade. Que o Brasil, mesmo dividido, saiba reconhecer nele um de seus grandes homens públicos. E que sua trajetória nos lembre de algo que anda esquecido, política não precisa ser idolatria, divergência não precisa ser ódio, poder não precisa ser arrogância, e a Presidência da República, quando ocupada por alguém com senso de história, pode ser mais do que um cargo. Pode ser serviço ao país.