Se um elefante incomoda muita gente, Nikolas incomoda muito mais 

Enquanto os herdeiros de Jair Bolsonaro vivem de sobrenome, o deputado constrói relevância e identidade própria em tempo real
Bolsonaro e Nikolas
O ex-presidente Jair Bolsonaro e Nikolas Ferreira durante protesto. Foto: X / @nikolas_dm / Reprodução

Sempre que coisas, fatos ou pessoas muito antigas – mas antigas mesmo! – me surgem à mente, me pego pensando na verdadeira imortalidade. Freddie Mercury morreu há 35 anos e continua vivo todos os dias nos corações, mentes e ouvidos de milhões de pessoas mundo afora. Albert Einstein, Sigmund Freud, Sócrates, Aristóteles, Margaret Thatcher, Winston Churchill, enfim, gente que se foi há séculos permanece presente em pleno século XXI.

Canções de ninar – termo antigo, né? – também são eternas. Lendo aqui sobre mais uma treta envolvendo o deputado federal Nikolas Ferreira, a quem chamo de o novo Bezerro de Ouro da política, por causa do messianismo e do fanatismo religioso que pairam em seu entorno, e os bolsonaristas mais radicais (porque radicais todos são), notadamente, agora, o bolsokid 04, Jair Renan Bolsonaro, que me lembra aqueles personagens canastrões de filmes B mexicanos, me lembrei de mais uma dessas canções.

Um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam, incomodam muito mais. Três elefantes incomodam muita gente, quatro elefantes incomodam, incomodam, incomodam, incomodam muito mais.” E assim sucessivamente. Acho que todos conhecem a brincadeira, afinal, certas coisas – ainda bem – nunca mudam.

A César o que é de César

Fico muito à vontade para, neste texto e neste contexto, enaltecer as virtudes de Nikolas porque, como todos que me conhecem e me acompanham sabem, não morro de amores pela personagem política que ele representa, muito menos por suas teses e modos. Porém – e o Google está aí para não me deixar mentir -, jamais deixei de reconhecer a habilidade de comunicação e a inconteste liderança do rapaz. Pena que as utiliza para um mau propósito.

O fato é que o clã Bolsonaro e seu entorno mais fiel jamais aturaram Nikolas. Seja porque reconhecem no jovem mineiro aquilo que não têm, ou seja, capacidade de liderança, inteligência política, ótima oratória e domínio pleno das redes sociais, seja ainda por ciúmes e receio. Ciúmes, por questões óbvias – e, já que falei em Freud acima, o pai da psicanálise explica isso muito bem -, e receio por, um dia, perderem o trono que ocupam junto à bolha bolsonarista.

Quanto mais Nikolas se destaca e assume protagonismo nacional, mais incômodo causa. Jair, o pai, tem os dias contados, pois ou a prisão ou a idade são espadas afiadas sobre sua existência – finita como a de todos nós, sobretudo idosos com problemas de saúde. A disputa por seu espólio político sempre foi feroz, inclusive no seio familiar, haja vista aquela sua troca de mensagens bárbaras com Eduardo, o Bananinha que se mandou para os EUA curtir a vida adoidado, que veio a público meses atrás.

Barulho ensurdecedor

Fora da família das rachadinhas e das mansões milionárias compradas em parte com dinheiro vivo, oriundo da venda de panetones de chocolate fora de época, são poucos os agentes políticos capazes de movimentar milhões de eleitores. Nikolas, também por isso, é o sucessor natural desse espectro político, e os pimpolhos Bolsonaros sabem muito bem. Quem são Flávio, Eduardo, Carlos e Jair Renan perto do videomaker e ator de TikTokporque parlamentar Nikolas não é – para disputar com ele o coração da patuleia?

No fim do dia, a disputa não é sobre ideias e projetos para o país. Nunca foi. É sobre quem consegue capturar a atenção de uma massa cansada, simplificar o mundo em vídeos de 30 segundos e transformar ressentimento em identidade. Nikolas entendeu isso antes dos herdeiros de Jair Bolsonaro. Enquanto eles vivem de sobrenome, o deputado constrói relevância e identidade própria em tempo real.

A cantiga dos elefantes segue, pois, só que agora em versão político-eleitoral, com algoritmo, cortes e assertividade. É Nikolas quem está aprendendo a comandar o rebanho. Quando a música parar – e ela sempre para um dia – não vai sobrar muito além de egos feridos, vaidades implodidas e um eleitorado que já terá escolhido seu próximo ídolo descartável. Mas, até lá, e, pelo andar da carruagem, não será em breve, não é o sobrenome, mas a criatividade, que comanda o espetáculo.

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