Estamos chegando a maio. E, em Minas Gerais, maio não é apenas um mês no calendário civil. É o tempo em que os tambores começam a chamar o povo para a rua. É quando reis, rainhas, capitães, guardas, mastros, bandeiras, promessas e coroas anunciam a abertura de uma estação sagrada: a estação das congadas, dos reinados, dos moçambiques, do Rosário, da memória negra e da fé que caminha.
De maio a outubro, Minas reencontra uma de suas pulsações mais profundas. As ruas deixam de ser apenas vias de passagem e se tornam território ritual. O corpo dança, o tambor fala, a bandeira protege, a coroa recorda. Nesse tempo, a cultura não é ornamento; é fundamento. Não é espetáculo; é permanência. Não é folclore; é filosofia encarnada.
É nesse horizonte que se deve compreender Dona Isabel Casimira das Dores Gasparino, Rainha Conga de Minas Gerais. Falar de sua vida não é falar apenas de uma biografia individual. É falar de linhagem, de ancestralidade, de herança. É reconhecer que certas existências não cabem inteiramente no nome próprio, porque carregam consigo uma comunidade, uma casa, uma fé, uma tradição e um povo.
Dona Isabel Casimira das Dores Gasparino nasceu em Belo Horizonte, em uma Minas profundamente marcada pela presença negra, pela devoção a Nossa Senhora do Rosário e pela força das guardas de congado. As fontes públicas registram sua morte em 2 de junho de 2015, em Belo Horizonte, aos 76 ou 77 anos. A data exata de nascimento ainda pede confirmação documental, mas sua origem belo-horizontina e sua inscrição profunda na tradição do bairro Concórdia são incontornáveis.
Dona Isabel era filha de Dona Maria Casimira das Dores, primeira Rainha do Congo de Minas Gerais e nome fundador da Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário, criada em 1944. Desde menina, Dona Isabel foi formada nesse universo de fé, tambor, coroa, canto, promessa e responsabilidade. Segundo registros de sua trajetória, foi princesa da Guarda desde os cinco anos de idade e, aos 45, tornou-se Rainha, cumprindo uma tradição matriarcal em que a coroa não é ornamento, mas missão.
Durante décadas, presidiu e orientou a Guarda de Moçambique e Congo Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário. Foi reconhecida como Rainha Conga de Minas Gerais, tornando-se uma das grandes referências do congado mineiro. Sua autoridade vinha menos do título que da presença: a presença de quem guarda saberes, acolhe a comunidade, transmite a tradição e compreende que cultura, fé, território e dignidade são dimensões inseparáveis da vida.
Em 2014, recebeu o prêmio Mestres da Cultura Popular de Belo Horizonte, reconhecimento concedido a detentores de saberes fundamentais para a preservação do patrimônio cultural imaterial da cidade. Era o reconhecimento público de algo que o povo das guardas já sabia havia muito tempo: Dona Isabel era patrimônio vivo. Era mestra. Era rainha. Era guardiã da memória negra de Minas.
Mas sua linhagem não começa em Minas Gerais. Ela atravessa Minas. Vem de uma ancestralidade africana que remonta aos antigos reinos do Congo, de Angola, às matrizes bantu, aos povos que, arrancados violentamente de seus territórios, trouxeram consigo não apenas a dor da travessia, mas também cosmologias, cantos, ritmos, formas de realeza, modos de culto, noções de comunidade e uma compreensão profunda da relação entre vivos, mortos e ancestrais.
Nas congadas, essa África não é lembrança distante. Ela é presença. Está na coroa, no tambor, na guarda, no cortejo, na devoção a Nossa Senhora do Rosário, na relação com os santos, os ancestrais e os mais velhos. Está também no modo como a realeza negra se recria em Minas: não como imitação de um poder europeu, mas como restituição simbólica de dignidade, memória e pertencimento.
Por isso, Dona Isabel não pode ser compreendida apenas como liderança mineira. Ela pertence a uma tradição afro-atlântica. Sua coroa carrega Minas, mas também carrega África. Carrega o bairro Concórdia, em Belo Horizonte, mas também os ecos do Congo, de Angola e da Rainha Nzinga, cuja memória atravessa a imaginação espiritual dessa linhagem.
Também é impossível falar de Dona Isabel, da Rainha Belinha e das congadas sem falar do sincretismo religioso que estrutura parte decisiva dessa tradição. Mas aqui o sincretismo não deve ser entendido como confusão nem como soma superficial de crenças. Ele é uma das formas mais sofisticadas pelas quais os povos negros preservaram sua espiritualidade diante da violência da escravidão, da imposição religiosa e do apagamento cultural.
Em Minas, a devoção a Nossa Senhora do Rosário, a presença dos santos católicos, os reinados, as guardas, as coroas, os mastros e os cortejos convivem com memórias africanas, fundamentos do axé, reverência aos ancestrais, culto aos mais velhos, força dos tambores e uma compreensão espiritual em que vivos e mortos permanecem em relação. Essa convivência não diminui nenhuma fé. Ao contrário: revela a capacidade de um povo de transformar dor em linguagem, imposição em criação, ferida em caminho.
O sincretismo, nas congadas, não é perda de pureza; é prova de permanência. É filosofia da travessia. Mostra que a espiritualidade negra não desapareceu quando foi obrigada a falar por outros nomes. Ela se traduziu, se protegeu, se reorganizou e continuou viva. Por trás das imagens, dos cantos e das festas, há uma gramática profunda de resistência: uma fé que aprendeu a sobreviver sem perder sua raiz.
Dona Isabel habitava esse mundo com naturalidade. Sua presença reunia a reza, a benzeção, o Rosário, o axé, a cozinha, a coroa, o tambor e a ancestralidade. Nela, essas dimensões não se contradiziam. Formavam um modo inteiro de cuidar da vida. Por isso, sua biografia é também a biografia de uma Minas sincrética, negra, católica popular, afro-brasileira, devocional e profundamente comunitária.
Dona Isabel pertenceu a essa ordem de grandeza. Foi rainha, mãe, guardiã, mulher de fé e liderança comunitária. Mas foi, sobretudo, uma dessas mulheres que transformam o cuidado em forma de mundo. Nela se reuniam algumas das tradições mais profundas de Minas e do Brasil: o afeto das mães negras, a partilha, a cozinha, a reza, a benzeção, a palavra firme e mansa, a autoridade que não precisa se impor porque nasce do reconhecimento.
Em Dona Isabel, o afeto não era fragilidade. Era potência civilizatória. O cuidado não era gesto doméstico menor. Era fundamento espiritual e político da vida. A comida, a escuta, a bênção, o conselho e a oração eram modos de sustentar uma comunidade inteira. Ela simbolizava essas mães negras que cozinham para muitos, rezam por muitos, choram por muitos, trabalham por muitos e, ainda assim, encontram força para abençoar.
Por isso, sua biografia não pode ser contada apenas como sucessão de fatos. Ela precisa ser compreendida como uma vida atravessada por ancestralidade. Num tempo em que tudo parece condenado à pressa, à novidade e ao esquecimento, Dona Isabel nos devolve uma palavra essencial: reverência. Reverência aos mais velhos. Reverência aos que abriram caminho. Reverência aos que se foram, mas continuam sustentando, de outro modo, os vivos.
A ancestralidade não é saudade abstrata nem culto imóvel ao passado. É ética. É reconhecimento de que ninguém começa em si mesmo. Somos feitos de presenças anteriores, de mãos que trabalharam antes de nós, de vozes que cantaram antes de nós, de rezas que nos protegeram antes mesmo que soubéssemos pedir proteção. Uma sociedade que perde o respeito pelos seus mortos perde também a profundidade diante dos vivos.
Nas congadas, nos reinados, nas guardas, nas casas de axé e nas tradições negras de Minas, essa verdade permanece viva. O passado não está encerrado. Ele caminha. Ele canta. Ele dança. Ele se manifesta no tambor, na coroa, na bandeira, na comida partilhada, na benzeção, na reza e no nome dos mais velhos pronunciado com respeito.
Dona Isabel foi uma dessas presenças. Uma mulher que não separava cultura, religião, território e dignidade. Sua coroa não era vaidade. Nas tradições do reinado, a coroa é responsabilidade. Ser rainha não é ocupar um lugar de privilégio; é guardar uma memória, proteger uma fé, conduzir uma comunidade e manter acesa uma chama que vem de muito longe.
Lembro, com discrição e reverência, de sua última reunião pública, em 2015, no IEPHA. Dona Isabel veio pedir auxílio em favor dos povos das congadas e do axé. Não pedia para si. Pedia por uma tradição, por uma comunidade, por uma memória coletiva. Falava em nome das guardas, das capelas, dos terreiros, das cozinhas, dos santos, dos ancestrais, das mães e dos filhos de fé.
Naquela noite, sonhei com ela a noite inteira. Pela madrugada, Dona Isabel faleceu. Guardo essa lembrança não como explicação, mas como reverência. Há encontros que só compreendemos depois. Há despedidas que acontecem antes de sabermos que são despedidas. E há pessoas cuja última palavra pública não é conclusão, mas convocação.
Talvez por isso essa memória tenha permanecido tão viva. Porque ali não estava apenas uma Rainha Conga pedindo auxílio. Estava uma mãe negra falando em nome de muitas mães. Estava uma mulher que carregava no corpo e na voz a tradição do cuidado. Estava uma presença que reunia fé, ancestralidade, comunidade e afeto.
Falar de Dona Isabel é, inevitavelmente, falar também da Rainha Belinha, Isabel Casimira Gasparino, sua filha. Não porque a filha substitua a mãe, nem porque uma vida se explique inteiramente pela outra, mas porque, nas congadas, nos reinados e nas casas de fé, ninguém caminha sozinho. Cada pessoa carrega uma linhagem. Cada coroa repousa sobre muitas mãos, muitas cabeças e muitas vozes que vieram antes.
Dona Isabel foi rainha. Belinha é rainha. Entre as duas, não há apenas sucessão familiar; há transmissão espiritual, histórica e comunitária. Dona Isabel se tornou ancestral. Rainha Belinha permanece no presente como continuidade viva dessa herança: na coroa, na casa, na guarda, no cortejo, no cuidado e na responsabilidade de manter acesa uma memória que vem de longe.
Uma já habita a outra. Dona Isabel vive em Belinha, e Belinha carrega Dona Isabel. Entre mãe e filha, entre a rainha que se foi e a rainha que permanece, Minas reconhece uma pedagogia da continuidade. A linhagem não é apenas sangue. É missão. É cuidado transmitido. É nome preservado. É memória que se recusa a desaparecer.
Às portas do 13 de maio, essa lembrança ganha ainda mais força. Para muitos, o 13 de maio é uma data ambígua da história oficial. Para os povos das congadas, dos reinados e do axé, ele é também chamado, presença e responsabilidade. Não celebração ingênua da abolição como fato consumado, mas lembrança de que a liberdade precisa continuar sendo feita, defendida e reconstruída todos os dias.
Quando as congadas tomam as ruas, Minas não assiste apenas a uma festa. Minas reencontra uma parte profunda de si mesma. Reencontra as Minas negras, femininas, espirituais e comunitárias. Reencontra as mães que sustentaram a vida quando tudo parecia faltar. Reencontra as rainhas que guardaram, nos tambores e nas coroas, aquilo que a história tentou apagar.
Dona Isabel Casimira das Dores permanece nesse reencontro. Permanece na filha, a Rainha Belinha. Permanece nas guardas. Permanece nos tambores. Permanece nas mães negras que ainda hoje sustentam comunidades inteiras com suas mãos, suas rezas, suas panelas, seus conselhos e sua força. Permanece como uma dessas presenças que não desaparecem, porque já se tornaram herança.
Sua biografia, portanto, é mais que a história de uma mulher. É a história de uma tradição de afeto e resistência. É a história de uma Minas que aprendeu a sobreviver pela fé, pela memória e pela partilha. É a história de uma rainha que compreendeu que reinar, entre os seus, é servir; que cuidar é governar; que lembrar é resistir; e que honrar os que se foram é proteger o futuro.
Dona Isabel foi mãe. Foi rainha. Foi guardiã. Foi presença.
E presença é talvez a palavra mais justa, porque há vidas que têm a eternidade como linha central. Vidas que não desaparecem: mudam de forma. Saem do corpo e entram na herança. Saem da voz e entram no canto. Saem da casa e entram no povo. Saem do tempo e entram na ancestralidade.
Dona Isabel se tornou essa presença. E, como toda grande ancestral, continua falando.