Sou emotivo por natureza. Daqueles que choram por tudo. E, a cada ano que passa, me torno ainda mais manteiga derretida. Assuntos que me tocam, então, me levam à beira da desidratação. Caixas e caixas de lencinho de papel.
Sempre gostei muito de esportes, um palco para emoções constantes. Nunca deixei de me emocionar com o hino nacional sendo tocado em pódio olímpico. Quem se lembra da primeira medalha de ouro do vôlei masculino em Barcelona, em 1992?
O futebol — meu esporte favorito — mexe sobremaneira com minhas emoções. O Galo, então, é uma ameaça constante de infarto com AVC a cada minuto final de jogo, mesmo que esteja ganhando por 3×0. Sossego, mesmo, só quando não tem jogo.
Se chorei ou se sorri
Até hoje não sei se chorei mais pela Libertadores de 2013 ou pelo Brasileiro de 2021, após décadas de martírio sem fim. Aliás, desde a defesa de São Victor, em 30 de maio de 2013, no “Caiu no Horto tá morto”, torcer pelo Galo é um rio de lágrimas.
Ainda assim, minha maior emoção, a maior dor que o esporte já me causou, a despeito de tantas e tamanhas com quase 50 anos de arquibancada atleticana — incluindo os Brasileiros de 1977 e 1980, o Mundial do Marrocos e a Libertadores de 2024 — correu há 32 anos.
No 1° de maio de 1994, quando Ayrton Senna da Silva bateu na Tamburello, em Ímola, eu estava no Guarujá, praia de São Paulo — aquela do triplex do Lula que não é do Lula — como milhões de brasileiros, assistindo ao GP da Itália.
Ayrton Senna, do Brasil
Minutos depois, coloquei meu short e fui para a praia. Mais alguns minutos e um zumbido estranho começou a tomar conta das areias. Era o som das pessoas, atordoadas, tentando contar umas para as outras que Senna havia morrido.
Em instantes, uma multidão cabisbaixa, silenciosa, chorando baixo, começava a recolher seus pertences e voltava para casa, em bando. Não me lembrava de uma dor tão intensa. Era como se tudo deixasse de fazer sentido e ter importância.
Lembro-me de uma faixa, estendida em um viaduto sobre a Avenida 23 de maio, em São Paulo, que dizia: “Senna, nem nós sabíamos que te amávamos tanto”. A morte de Ayrton Senna doía como se fosse a de um pai, de uma mãe, de um filho ou de uma filha.
Criançada órfã
Uma dor intensa, dilacerante, que sugava toda a energia da nação. Nunca mais me interessei por Fórmula 1 ou mesmo assisti a uma corrida outra vez. Fora do esporte, me lembro de ter chorado muito, também, na ocasião da morte dos rapazes do Mamonas Assassinas.
Para quem não sabe, era uma banda composta por garotos paulistanos que conquistou o Brasil, principalmente as crianças. Vítimas de um acidente de avião na Serra da Cantareira, em 1996, em Guarulhos, convulsionaram o país com a tragédia.
Cada vez que eu via uma criança chorando a perda de seus ídolos, eu chorava junto. E foi justamente o vídeo de um garotinho de mais ou menos 8 anos, entre lágrimas e soluços pela despedida de Hulk, que me reabriu a torneira de lágrimas.
Putz, como tá doendo
Eu até estava conseguindo me segurar. A garganta doía muito pelo esforço desde que assisti ao vídeo do nosso super herói se despedindo do Galo. Meu humor já havia ido para as brecas. E, a cada gol que relembro, litros escorrem dos meus olhos.
Porque Hulk não foi só o craque que nos deu o título brasileiro após 50 anos. Não foi só o autor de cento e tantos gols geniais. Não foi só o ídolo que encantava com sua humildade e amor ao próximo. Ele foi o maior símbolo de atleticanidade que já vi no Galo.
Nenhum jogador, treinador ou dirigente representou tanto e tão bem o que é ser e amar o Atlético, dentro e fora dos campos. Simplesmente porque Hulk o fez do dia que chegou até a hora da despedida. E, intuo, fará até o fim de seus próprios dias.
Vá ser feliz, meu ídolo
Sua saída deixa um buraco enorme nos corações de todos os atleticanos. Deixa um buraco enorme na Cidade do Galo, na Arena MRV e em cada lar alvinegro. Ainda vai doer muito até passar, assim como acontece com a perda de um ente muito querido.
Ciclos fazem parte da vida. Nascer, crescer, sair da casa dos pais, trabalhar, formar a própria família, envelhecer, se despedir, partir. Coldplay canta: “Nobody said it was easy”. Pois é. Ninguém disse que seria fácil. Só não precisava ser tão difícil.
Parafraseando a faixa em homenagem a Senna: nem nós sabíamos que te amávamos tanto, Hulk. Vá com Deus, ídolo, e seja feliz! Mas volte correndo, na velocidade da luz, sempre e quando quiser. Porque aqui é a sua casa. Aqui é o seu lugar. O seu lar.