Entre Babel e Jerusalém: a inteligência artificial e o humanismo

A verdadeira disputa do século XXI talvez não seja entre homem e máquina, mas entre visões da humanidade
Logos das mídias sociais da Meta
Foto: mundissima/Shutterstock

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma inovação tecnológica. Tornou-se uma disputa sobre o próprio significado da condição humana, sobre quem e como será exercido o poder e sobre qual modelo de sociedade pretendemos construir.

Este é precisamente o eixo central da recém-publicada encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, o mais relevante documento político, social e ético produzido pela Igreja Católica sobre a era digital. Longe de uma crítica simplista à tecnologia, o texto reconhece o potencial transformador da inteligência artificial, mas alerta para os riscos de uma sociedade organizada exclusivamente pela lógica da eficiência, do controle e da concentração de poder.

A encíclica utiliza duas imagens bíblicas como metáfora do nosso tempo: Babel e Jerusalém. Babel representa a pretensão humana de construir um mundo autossuficiente, homogêneo e orientado pelo poder. Jerusalém simboliza reconstrução, pluralidade, diálogo e centralidade da dignidade humana.

A metáfora é poderosa porque traduz, com precisão, um dos grandes dilemas contemporâneos. Hoje, poucas empresas privadas concentram volume inédito de dados, capacidade computacional, influência política e poder econômico. Nunca grupos tão reduzidos exerceram tamanho impacto sobre a circulação de informações, o mercado de trabalho, o comportamento social e até mesmo sobre a percepção da realidade.

A grande questão já não é apenas tecnológica. É política, econômica e civilizatória. Quem controlará os sistemas de inteligência artificial? Com quais objetivos? Sob quais limites? Em benefício de quem?

O debate sobre inteligência artificial costuma oscilar entre dois extremos igualmente pobres. De um lado, o tecnofetichismo ingênuo, que trata toda inovação como inevitavelmente positiva. De outro, um alarmismo superficial que demoniza a tecnologia como ameaça existencial inevitável.

Ambos erram.

A tecnologia nunca é neutra. Ela carrega interesses, valores e estruturas de poder daqueles que a financiam, desenvolvem e controlam.

A inteligência artificial poderá ampliar extraordinariamente a produtividade, democratizar o acesso ao conhecimento, revolucionar a medicina, otimizar políticas públicas e acelerar descobertas científicas. Mas poderá também aprofundar desigualdades, precarizar relações de trabalho, ampliar mecanismos de vigilância e consolidar formas inéditas de manipulação social.

O problema central não é a inteligência artificial em si. É a ausência de uma governança ética, política e institucional compatível com a magnitude da transformação em curso.

Talvez o aspecto mais sofisticado da encíclica esteja justamente na defesa de um “humanismo tecnológico”. O documento rejeita a ideia de que o ser humano deva adaptar-se integralmente às exigências da técnica. Ao contrário: a técnica deve permanecer subordinada ao desenvolvimento humano integral.

Essa talvez seja uma das grandes fronteiras intelectuais das próximas décadas.

Durante muito tempo, discutimos tecnologia sobretudo em termos de impacto econômico. Agora começamos a perceber que o verdadeiro debate é outro: como preservar liberdade, dignidade, democracia e coesão social em um ambiente radicalmente transformado pela inteligência artificial.

Isso exige mais do que regulação estatal.

Universidades, organizações da sociedade civil, centros de pesquisa, organismos multilaterais, meios de comunicação e lideranças públicas precisarão assumir papel ativo na construção de um novo pacto social para a era digital.

O Brasil, em especial, não pode assistir passivamente a essa transformação. O país corre o risco de tornar-se mero consumidor periférico de tecnologias desenvolvidas por outros centros de poder, reproduzindo dependências econômicas, tecnológicas e cognitivas ainda mais profundas.

Precisamos participar da formulação ética, política e institucional da inteligência artificial. Precisamos formar gestores públicos, pesquisadores e lideranças capazes de compreender que IA não é apenas um tema tecnológico, mas uma questão estratégica de desenvolvimento nacional.

A discussão sobre inteligência artificial, portanto, não pode ficar restrita às grandes empresas de tecnologia ou aos especialistas da área. Trata-se de uma discussão sobre desenvolvimento, soberania, democracia, mercado de trabalho, educação e futuro.

No fundo, a pergunta colocada pela encíclica é simples e perturbadora: a inteligência artificial será instrumento de emancipação humana ou de concentração radical de poder?

A resposta dependerá menos das máquinas e mais da qualidade moral, política e institucional das sociedades que as constroem. A verdadeira disputa do século XXI talvez não seja entre homem e máquina, mas entre visões da humanidade que queremos viver e compartilhar.

Advogado. Especialista em Políticas Públicas. Mestre em Ciência Política.

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