Há pessoas que suportam perder dinheiro com uma serenidade admirável, mas desmoronam quandosão ignoradas numa mesa de bar. Tem pessoas que enfrentam uma rotina exaustiva sem reclamar, mas se ofendem profundamente ao serem confrontadas. É curioso como a vida distribui dores em escalas tão pessoais.
Mas, raramente o tamanho do incômodo está no fato em si, pois como nos ensina uma das premissas mais sábias da vida: “o problema nunca é o problema”. É como se aquilo que contamos que nos incomoda fosse só a ponta do iceberg, mas o real motivo estivesse escondido nas profundezas do nosso oceano.
A gente acha que reage ao presente, mas normalmente reage ao acúmulo do passado, às feridas que não foram curadas e que estão apenas tampadas. E que apesar de a roupa esconder, basta encostar para ela voltar a doer.
Talvez seja por isso que certas pessoas se irritem tanto com faltas aparentemente leves. Não é sobre a xícara esquecida na pia, a resposta seca ou o convite que não veio. É sobre o sentimento silencioso de invisibilidade que aquilo desperta.
Por vezes,achamos que o que mais nos incomoda é o defeito que encontramos no outro, quando, na verdade, é o reflexo que ele provoca em nós. Porque,querendo ou não, o outro acaba funcionando como espelho. E espelhos raramente são confortáveis. Eles mostram não apenas o que somos, mas também o que negamos, o que escondemos ou o que não queremos enxergar.
O psiquiatra suíço Carl Jung dizia que aquilo que mais nos incomoda no comportamento dos outros é, muitas vezes, um reflexo de algo que não reconhecemos ou não queremos admitir em nossa própria personalidade.Como ele mesmo resumiu: “tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos.”
No fundo, nossos maiores incômodos funcionam como sensores emocionais. Eles revelam onde ainda estamos frágeis, carentes, feridos ou incompletos. E talvez amadurecer tenha menos relação com aprender a conviver com os outros e mais com aprender a se enxergar através deles. Porque cada grande incômodo carrega uma pergunta disfarçada: “o que isso revela sobre mim?”. É o famoso “se doeu, toma que é seu!”
Passamos tempo demais analisando o comportamento alheio e tempo de menos investigando a razão do nosso incômodo. Queremos corrigir o espelho, quando devêssemos olhar com mais honestidade para o reflexo.
Há também os incômodos que nascem do que há de positivo no outro.Às vezes, o que mais incomoda é justamente aquilo que ele tem coragem de ser e nós não. A liberdade do outro pode soar ofensiva para quem passou anos não se permitindo viver. Nem sempre o desconforto é sobre o comportamento do outro, mas sobre a nossa falta de atitude, sobre a parte da nossa vida que ficou sem vida.
Vale dizer que nem todo incômodo é injustificado. Existem, sim, pessoas invasivas, cruéis, egoístas e desrespeitosas. Porém, mesmo nesses casos, devemos observar por que determinadas atitudes nos atravessam mais do que outras. Por que algumas críticas nos desmontam enquanto outras passam quase ilesas?
O que nos desestabiliza geralmente denuncia o que ainda não cicatrizou, já que reações exageradas nascem de feridas que ainda não foram curadas.
É aí que o autoconhecimento surge como um processo de cura, pois no momento em que pararmos de investigar apenas o comportamento do mundo e começarmos a investigar a raiz das nossas reações, conheceremose acolheremos a nossa verdade, com mais honestidade e menos julgamento. Equanto mais curado estivermos, menos incômodos sentiremos.