A nova encrenca que opõe filiais brasileiras e o escritório britânico representante dos atingidos de Mariana

Braços do Pogust Goodhead no país entraram com pedido de liminar após bloqueio a documentos e interrupção de repasses financeiros.
Lama toma conta de Mariana, após rompimento de barragem
Continua correndo em Londres ação contra BHP pela Tragédia de Mariana. Foto: divulgação/Corpo de Bombeiros.

Duas filiais do escritório britânico Pogust Goodhead no Brasil entraram com pedido de liminar na Justiça, após o bloqueio feito pela sede londrina a documentos fundamentais para suas operações, no âmbito da Tragédia de Mariana. Os braços nacionais do escritório londrino também alegam interrupção dos repasses financeiros britânicos, o que coloca em risco o pagamento de salários e o cumprimento de outros compromissos firmados pelas empresas parceiras.

O processo, movido em 27 de maio deste ano, tem as assinaturas da GHL Brasil Gestão Sociedade Limitada, sediada no Rio de Janeiro, e da Pogo Gestões e Serviços Corporativos LTDA, com sede em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. As empresas pedem tutela de urgência, diante de “danos iminentes e sérios, na medida em que a manutenção da situação como se encontra permitirá grave endividamento às sociedades”.

Nos pedidos, as empresas solicitam à Vara Cível da Comarca de Governador Valadares o desbloqueio do acesso da GHL Brasil e da Pogo Gestões ao sistema SharePoint. Essa plataforma reúne documentos fundamentais para a gestão das filiais do Pogust Goodhead no âmbito da tragédia, como notas fiscais, documentos de gestão de RH, contratos de aluguel, minutas assinadas com fornecedores, etc. 

As filiais também querem a garantia dos repasses financeiros necessários para o cumprimento das obrigações da GHL e da Pogo Gestões, “inclusive no caso de encerramento da operação, para fazer face a todas as indenizações devidas, como forma de inibir a prática de ato ilícito”.

Em nota, o Pogust Goodhead informou que “não foi citado e tomou conhecimento de uma possível disputa contratual envolvendo terceiros apenas pela imprensa”. Por essa razão, o escritório não comentou o caso.

“Cabe esclarecer, no entanto, que qualquer assunto dessa natureza não impacta a ação em curso na Inglaterra sobre o rompimento da barragem de Fundão, nem o atendimento aos clientes do caso Mariana, que segue normalmente pelos canais oficiais. O escritório reafirma seu compromisso integral com a defesa dos interesses de seus clientes e com o andamento do processo inglês”.

Inicialmente, ao receber a tutela de urgência, a Vara Cível da Comarca de Governador Valadares deu um prazo de cinco dias úteis para que o Pogust Goodhead apresente sua defesa. A decisão motivou novo protocolo por parte da GHL e da Pogo Gestões, alegando que “os danos, caso não concedida a medida liminar, serão irreparáveis”, sobretudo diante do feriado prolongado de Corpus Christi.

O Pogust Goodhead move, desde novembro de 2018, uma ação contra a BHP Billiton na justiça britânica por conta do rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana. O processo envolve cerca de 200 mil atingidos.

Em novembro do ano passado, a Corte britância julgou procedente o pedido de indenização requerido pelo Pogust Goodhead. Em 6 de maio deste ano, a justiça inglesa recusou um recurso formulado pela BHP e manteve a sentença — uma indenização que pode chegar a R$ 230 bilhões para os atingidos de Mariana. Com isso, a ação avançou para a segunda etapa, de quantificação dos valores a serem pagos aos atingidos, a título de indenização.

Vídeo divulga fim do vínculo

Um vídeo divulgado pela Pogust Goodhead em suas mídias sociais informam os atingidos pela Tragédia de Mariana sobre “atualização dos canais de atendimento no Brasil”, o que configura a quebra da parceria com a GHL Brasil e com a Pogo Gestões. 

“Os centros de atendimento ao cliente, que anteriormente funcionavam a partir da nossa parceria local, não atuam mais como centros de atendimento do Pogust Goodhead. Mas, é importante deixar algo muito claro: a sua representação continua exatamente a mesma”, afirma Caio Blanco, diretor de marketing da Pogust Goodhead, na gravação.

Ainda no vídeo, Caio Blanco dá mais detalhes sobre como se dará o atendimento dos atingidos a partir de agora. “A nossa comunicação acontecerá principalmente por meio do portal do cliente e por e-mail. Além disso, nos próximos meses, implantaremos novos canais de atendimento e ampliaremos a nossa presença local”, diz. 

Diante da gravação do vídeo, a GHL Brasil e a Pogo Gestões entraram com nova petição na Justiça na última terça-feira (2), quando voltaram a pedir à Justiça a acatamento da liminar.

Saída de gestor

Como mostrou O Fator em setembro do ano passado, a saída de Tom Goodhead do escritório britânico Pogust Goodhead, naquele período, já era motivo de apreensão de prefeituras atingidas pelo mar de lama da Samarco.

O descontentamento se deu, principalmente, porque clientes do escritório tomaram conhecimento da mudança por meio da imprensa, sem qualquer comunicação prévia dos defensores ingleses.

O clima de tensão entre os municípios e o escritório britânico se dá especialmente considerando que algumas prefeituras optaram por permanecer na ação inglesa em vez de aderir ao acordo de repactuação feito no Brasil, negociando entre a União, Estados e as mineradoras Samarco, Vale e a BHP.

Tom Goodhead teve papel central nas negociações entre o escritório inglês e os municípios brasileiros ao longo dos anos do processo. O advogado fez diversas viagens ao Brasil para tratar da ação inglesa com as prefeituras e manteve comunicação constante por meio de reuniões virtuais com os representantes municipais.

Repórter de bastidores e orientado por dados de O Fator em Belo Horizonte, onde cobre política e mercado. Também é professor da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, onde leciona disciplina ligada ao jornalismo de dados. Trabalhou por sete anos no jornal Estado de Minas, onde foi repórter e coordenador de jornalismo de dados. Também trabalhou no caderno de política do jornal O TEMPO por dois anos. É master em Jornalismo de Dados, Automação e Data Storytelling pelo Insper.

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