Investigada pela PF por usar dados de indígenas em Minas em fraude do INSS relatou medo de linchamento: ‘povo ingrato’

Mãe de secretária da Conafer coletava dados de indígenas Maxakali usados em descontos fraudulentos do INSS
Agentes da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU).
Documentos e mensagens analisados pela PF e pela CGU apontam o uso de dados de indígenas Maxakali em esquema de descontos indevidos em benefícios do INSS. Foto: Divulgação/PF

Inquérito da Polícia Federal (PF) sobre a Operação Sem Desconto, obtido por O Fator, mostra que a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer) usava dados de indígenas da etnia Maxakali, no Vale do Mucuri, como uma das frentes para fraudar aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O relatório final da PF resultou no indiciamento de 48 pessoas, entre elas o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG), apontado como fiador político do esquema. Agora, cabe à Procuradoria-Geral da República (PGR) decidir se apresenta denúncia contra os indiciados. O caso corre no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça.

De acordo com os documentos, a ligação direta da organização criminosa com os Maxakali aparece na análise do celular de Iris Ferreira Rodrigues, então secretária de Políticas Econômicas e Crédito da Conafer, com contracheque líquido de R$ 15 mil por mês.

Os investigadores encontraram no aparelho dela diversas imagens de documentos de indígenas com sobrenome Maxakali. Parte desses documentos de identificação foi fotografada com a ficha de cadastro da entidade ao fundo, o que, para a PF, reforça a suspeita de uso dos documentos para filiação em massa e, assim, para inflar os descontos indevidos.

Mensagens entre Iris, a mãe dela e o vice-presidente da Conafer, Tiago Abraão Ferreira Lopes, também mostram, de acordo com apuração policial, que a mãe da então secretária era quem recolhia as fichas de filiação dos indígenas da etnia. A comunidade se divide entre os municípios de Bertópolis, Ladainha, Santa Helena de Minas e Teófilo Otoni.

Ameaça de linchamento

Os prints mostram ainda que, depois que a PF e a Controladoria-Geral da União (CGU) deflagraram a primeira fase da Operação Sem Desconto, a então secretária da confederação passou a relatar que a mãe virou alvo de ameaças de integrantes da comunidade indígena. Veja trechos das conversas no print abaixo.

Em conversa com Tiago, Iris contou que os indígenas chamaram a mãe dela de “ladrona (sic)”, acusando-a de ter ido “pro território roubar eles”. Segundo ela, os indígenas também cobravam a devolução de todos os cadastros que haviam sido recolhidos. Iris completou dizendo que “saiu a conversa de que, se ver ela na rua, pega ela pra linchar”.

Em seguida, ela reclamou que os indígenas “não lembravam de todas as vezes que levou cesta básica”, em referência a doações de alimentos que, segundo a mensagem, teriam sido usadas para viabilizar a coleta dos dados posteriormente utilizados nos descontos fraudulentos do INSS. “Povo ingrato”, escreveu.

Na conversa, Iris descreve a mãe como “abalada” e conta que ela estaria evitando sair de casa com medo de ser reconhecida. Ela chega a sugerir, em tom de brincadeira, que a mãe tingisse o cabelo de loiro como forma de disfarce: “Eu falei pra ela pintar o cabelo de loiro. Vai ficar bonita, viu. Nega do cabelo loiro é o trem que mais combina”, escreveu.

Já para Cícero Marcelino, operador financeiro da organização criminosa, a então secretária da Conafer relatou que, em razão do medo, a mãe estava procurando emprego como doméstica na região de Joinville, em Santa Catarina.

“Após a operação policial vir à tona, as lideranças indígenas da etnia Maxakali enviaram áudios chamando de ladra, exigindo a devolução dos cadastros e ameaçando linchá-la. Devido a isso, IRIS relatou a CÍCERO que sua mãe estava procurando emprego de doméstica na região de Joinville/SC apenas para fugir e se esconder com medo de que os indígenas fossem atrás dela”, diz trecho do inquérito.

Com base em entrevistas da CGU, a PF menciona o caso do indígena que reside em aldeia e não domina a leitura nem a escrita entre os que não poderiam ter assinado termos de filiação e de autorização. O levantamento também apontou alto índice de beneficiários que sequer sabiam da existência do desconto associativo em seu benefício.

Atuação no esquema

No relatório, a PF narra que a então secretária “foi uma das pessoas físicas de maior destaque no fluxo financeiro” da organização criminosa. Ela recebeu R$ 4,1 milhões das empresas de fachada dos operadores financeiros do esquema. O documento narra ainda uma ameaça que ela fez ao presidente da Conafer, Carlos Roberto Lopes Ferreira, antes da operação vir à tona.

“Ao que parece, IRIS teve um relacionamento amoroso com o CARLOS e, pouco antes da deflagração da primeira fase da Operação Sem Desconto (23/04/2025), chegou a fazer ameaças ao filho dele CARLOS (Lucas) de revelar de onde viria a ‘sua riqueza e vida boa’ e ‘com todo mundo passando na tv'”.

Os prints anexados ao documento mostram que a ameaça teve origem numa dívida deixada pelo líder do esquema. Em mensagens ao filho dele, Iris contou que estava sofrendo ameaças com arma de fogo por causa de um carro avaliado em R$ 300 mil que o presidente da Conafer lhe deu de presente e deixou de pagar, com duas parcelas em aberto.

Carlos determinou que Cícero fizesse os pagamentos, entre eles a quitação da dívida com o agiota e das parcelas do veículo. Além disso, os dois trocaram mensagens em que o presidente da entidade reclamava das atitudes tomadas pela mineira.

Em 7 de maio, Iris disse a Tiago ter sido avisada por Cícero de que era investigada pelas transferências que recebia do presidente da Conafer. Tiago respondeu que consultaria os advogados e, depois, informou que ela não estava entre as nove pessoas citadas até então.

A secretária da confederação era natural de Machacalis, município do Vale do Mucuri, e teve bens apreendidos em Águas Formosas, cidade vizinha às terras indígenas da etnia, durante a segunda fase da operação, em novembro do ano passado. Ela foi encontrada morta em casa dias depois da ação policial.

Codinome “Funai”

Um dos trechos do relatório da PF está na análise das conversas cifradas entre o advogado Gilmar Stelo e o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto. Para a PF, os dois usavam codinomes para tratar de pessoas ligadas à fraude e evitar a identificação dos reais interlocutores.

Em conversas cifradas, Carlos Roberto Ferreira Lopes era chamado de “Painho” e “Funai”. O inquérito sugere que as duas alcunhas fazem referência ao líder do esquema por causa das ligações dele com indígenas.

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Parte de um esquema maior

O caso dos Maxakali é uma entre as frentes de um esquema que, segundo a PF, atingiu mais de 650 mil beneficiários vulneráveis do INSS, entre eles idosos de baixa renda, populações rurais, indígenas e até pessoas já falecidas.

O mecanismo por trás da fraude é antigo. Desde 2017, a Conafer mantém um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) com o INSS que permitia à entidade enviar periodicamente, ao sistema Dataprev, listas com nomes de segurados para a cobrança de mensalidade associativa direto na folha de pagamento, como se fossem sindicalizados.

O INSS validava essas listas apenas pela autodeclaração da própria entidade, sem checagem própria, uma brecha que a organização criminosa explorou em escala. O dinheiro dessa mensalidade era enviado diretamente para os cofres da da Conafer, que lavava a quantia por meio de empresas de fachada.

Um estudo amplo da CGU, com 1.273 entrevistas feitas entre abril e julho de 2024 com beneficiários de diversas entidades em todo o país, não só a Conafer, mostrou que apenas 52 confirmaram alguma filiação, e só 31 disseram ter autorizado o desconto, um índice de até 98% de descontos indevidos.

Somente a Conafer recebeu R$ 708.036.673,68 do INSS entre 2019 e 2024 em descontos associativos, valor que a PF aponta como majoritariamente desviado da finalidade original. O modelo foi replicado na Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), também controlada por Carlos Roberto Lopes, e, segundo a PF, em outras instituições

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

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