À primeira vista, a pergunta pode parecer estranha. O campo está definido, inclusive com gramado impecável, estádios bilionários, transmissão com tecnologia avançada e um espetáculo acompanhado por bilhões de pessoas empolgadas. Mas a questão não é sobre futebol. É sobre o mundo real daqueles que não podem ir presenciar a Copa.
A abertura oficial da Copa do Mundo de 2026 ocorre hoje, 11 de junho, no Estádio Azteca, na Cidade do México. O pontapé inicial da competição será dado com o duelo entre México e África do Sul, às 16h (horário de Brasília). Os jogos vão acontecer em três países sede: Canadá, Estados Unidos e México.
Os holofotes se voltam para seleções, craques e favoritos ao título. No entanto, fora do futebol outra partida está sendo disputada, com especial simbologia nos Estados Unidos. Uma partida silenciosa, desigual e marcada por regras que beneficiam apenas alguns, e que poucos ajudaram a escrever.
Quem entra em campo carregando o peso de um passaporte africano ou de uma nação periférica joga sob as mesmas condições que representantes das potências econômicas? Quem questiona o poder recebe o mesmo tratamento dispensado àqueles que o celebram? E quem vive os efeitos da desigualdade global é ouvido ou apenas administrado, vigiado e mantido à margem?
Os episódios recentes nos Estados Unidos envolvendo o endurecimento de controles sobre representantes de países do Sul Global, somados à crescente intolerância de setores do poder político diante de questionamentos públicos, sugerem que o campo onde se joga a grande partida do Século XXI está longe de ser nivelado. Há times e jogadores que entram em vantagem. Há outros que precisam provar, a cada instante, que merecem estar ali.
A Copa do Mundo sempre foi apresentada como uma celebração universal, um raro momento em que fronteiras parecem desaparecer diante da força do esporte. Mas os acontecimentos recentes levantam uma dúvida incômoda: estamos nos preparando para um torneio global ou para um retrato ampliado das desigualdades que marcam o mundo?
Há momentos em que acontecimentos aparentemente desconexos revelam uma mesma lógica social. A interrupção abrupta de uma entrevista por parte do presidente Donald Trump diante de perguntas incômodas, a revista de integrantes das delegações de Senegal e Uzbequistão, bem como de um árbitro da Somália podem parecer episódios isolados. Observados em conjunto, contudo, eles expõem um fenômeno mais profundo: a dificuldade de elites políticas, econômicas e institucionais de conviver com aqueles que lembram, por sua simples presença, a persistência e a luta da desigualdade global.
No caso da entrevista, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, abandonou abruptamente entrevista com Kristen Welker, exibida no domingo (7) pela emissora NBC, no programa “Meet the Press”, irritado por ser confrontado por Welker diante de falas contraditórias.
O episódio envolvendo Trump pode ser lido como mais do que uma reação individual. Em democracias contemporâneas, a imprensa exerce a função de questionar e defender a coerência e verdade dos fatos e informação. Quando um líder se irrita diante de perguntas desconfortáveis, e mais, opta por encerrar o diálogo, manifesta-se uma tensão crescente entre autoridade e escrutínio público. A crítica não é apenas rejeitada, ela é percebida como uma afronta à própria posição de poder.
Essa dinâmica encontra paralelo em episódios de tratamento diferenciado dispensado a representantes de alguns países. Quando delegações oriundas de nações africanas, da Ásia Central e outras são submetidas a procedimentos de controle mais rigorosos do que aqueles aplicados a representantes de países ricos, o que está em jogo não é apenas segurança. Há também uma dimensão simbólica. Certos corpos, passaportes, sotaques e nacionalidades passam a ser associados a suspeita, risco, inadequação, segregação.
O economista Thomas Piketty argumenta que as sociedades contemporâneas atravessam um processo de concentração crescente de riqueza. Em sua análise, quando o rendimento do capital cresce mais rapidamente do que a economia e os salários, a riqueza tende a se acumular nas mãos de uma minoria. O resultado não é apenas uma distância maior entre ricos e pobres. É a formação de mundos paralelos, segregados, quase incomunicáveis.
De um lado, uma elite globalizada que circula por aeroportos, universidades caras, instituições financeiras e centros de decisão com acesso privilegiado a recursos, influência e proteção. De outro, populações inteiras carentes de recursos básicos, cuja mobilidade é constantemente questionada, cuja presença é submetida à suspeita e cuja voz raramente alcança os espaços de poder.
A desigualdade econômica produz inevitavelmente desigualdade política e social. Quanto maior a distância entre os grupos, menor a capacidade de reconhecimento mútuo. O privilégio cria bolhas. E dentro delas, a realidade dos demais passa a ser percebida não como uma condição humana compartilhada, mas como um problema externo a ser controlado.
É nesse ponto que a contribuição de Pierre Bourdieu se torna fundamental. Para o sociólogo francês, o poder não se sustenta apenas pela riqueza material. Ele se reproduz também por meio do capital cultural e do capital simbólico, os códigos, títulos, linguagens, comportamentos e credenciais que definem quem pertence aos espaços legítimos da sociedade.
As elites não dominam apenas a economia, elas influenciam os critérios pelos quais as pessoas são julgadas. Determinam quais passaportes inspiram confiança, quais sotaques são considerados respeitáveis, quais universidades conferem prestígio e quais narrativas são vistas como legítimas. Quem não compartilha desses códigos frequentemente é percebido como alguém fora do lugar, inconveniente.
Bourdieu chamou esse mecanismo de violência simbólica. Trata-se de uma forma de dominação tão eficaz porque raramente se apresenta como dominação. Ela se disfarça de protocolo, de mérito, de tradição ou de “bom senso”. A revista seletiva torna-se rotina administrativa. A exclusão transforma-se em procedimento, com demonstração de autoridade.
O problema é que tais práticas produzem um efeito cumulativo. Elas reforçam a mensagem de que algumas pessoas pertencem naturalmente aos espaços de prestígio, enquanto outras precisam justificar constantemente sua presença. O resultado é uma sociedade em que ainda no Século XXI a igualdade formal convive com uma profunda desigualdade real.
Talvez seja justamente isso que torne certos episódios tão reveladores. A presença de um jornalista insistente, de um árbitro africano ou de uma delegação oriunda de um país periférico funciona como um lembrete de que a narrativa da igualdade global permanece incompleta. Eles representam, cada um à sua maneira, vozes e experiências que desafiam a cômoda ilusão de que o campo está nivelado para todos.
A Copa de 2026 promete celebrar a diversidade do futebol mundial. Mas a verdadeira questão talvez esteja além dos gols, das arquibancadas, das medalhas e taça. O desafio não é apenas organizar um torneio capaz de reunir diferentes povos. É demonstrar que esses povos serão tratados com a mesma dignidade quando atravessarem fronteiras, ocuparem espaços de poder ou quando repórteres fizerem perguntas incômodas.
Porque, no fim das contas, a pergunta permanece.
A Copa vai começar. Mas em que campo vamos jogar?
Num campo onde todos entram sob as mesmas regras ou num terreno inclinado, em que alguns carregam privilégios invisíveis enquanto outros enfrentam barreiras igualmente invisíveis? A resposta a essa pergunta dirá muito menos sobre o futebol e muito mais sobre o mundo que estamos construindo.
Viva a Copa do Mundo, que o Brasil conquiste o HEXA, mas observemos com atenção algumas apresentações e seu simbolismo.