É fácil sorrir para quem nos acolhe, concordar com quem pensa como nós, admirar quem nos trata bem. O verdadeiro teste, porém, começa quando a vida coloca em nosso caminho aquelas pessoas que parecem desafiar nossa serenidade. São os impacientes, os pessimistas, os que reclamam de tudo, os que respondem com aspereza quando esperávamos gentileza.
Nesses momentos, a reação mais comum é procurar alguém para desabafar. E o desabafo acaba se transformando em um longo inventário dos defeitos alheios. Repetimos histórias, listamos exemplos, tudo no intuito de reforçarmos a imagem negativa que temos daquela pessoa e o quanto seu comportamento nos incomoda.
Mas quanto mais alimentamos esse retrato, mais difícil se torna enxergar qualquer outra possibilidade. Nossa disposição para o diálogo diminui, nossa paciência se encurta e cada novo encontro parece confirmar aquilo que já esperávamos encontrar.
Reclamar de quem sempre reclama só faz com que a reclamação se multiplique. Uma reclamação chama outra, que convida mais uma, até que, sem perceber, a conversa inteira gira em torno do que falta, do que falhou, do que nunca dá certo.
Isso não significa que devemos fingir que as dificuldades não existem ou aceitar atitudes desrespeitosas. Há limites que precisam ser estabelecidos e situações que exigem firmeza. Mas firmeza não precisa caminhar de mãos dadas com a maledicência.
Falar mal de alguém não transforma essa pessoa. Na maioria das vezes, transforma a nós mesmos. Aos poucos, treinamos o olhar para encontrar defeitos, fortalecemos o hábito da crítica e permitimos que o comportamento do outro ocupe um espaço muito maior do que merece. Sem perceber, tornamo-nos especialistas em identificar sombras, enquanto deixamos de cultivar a luz.
Também não devemos carregar a pretensão de mudar quem não deseja mudar. O outro é livre. Nossa responsabilidade se encerra quando termina a abertura do outro para a transformação. O que permanece sob nosso cuidado é apenas a forma como escolhemos responder.
Existe uma profunda sabedoria em preservar uma convivência respeitosa. Não porque o outro tenha mudado, mas porque decidimos que a atitude dele não determinará a qualidade da nossa. Quem preserva a serenidade protege, antes de tudo, o próprio coração. Quem evita espalhar críticas desnecessárias preserva a leveza por onde passa. E quem consegue enxergar as pessoas para além de seus piores momentos oferece aquilo de que todos nós, em algum instante da vida, também precisamos: a possibilidade de sermos vistos como seres em processo de evolução.
A vantagem das relações desafiadoras é que elas nos obrigam a responder uma pergunta silenciosa: “você reagirá ao que recebe ou oferecerá aquilo que deseja ver crescer?”.
Se escolhermos oferecer compreensão, equilíbrio e gentileza, deixaremos de ser mais um elo na corrente da crítica, do pessimismo e da reclamação. E provavelmente essa seja uma das formas mais discretas e poderosas de construção da paz nos ambientes em que vivemos.
Existe um conceito muito conhecido na administração das empresas chamado Princípio de Pareto, segundo o qual cerca de 80% dos resultados costumam surgir de apenas 20% das causas. Aplicando-o nos relacionamentos, é como se 80% da paz de uma relação viesse de apenas 20% das nossas atitudes.
É olhar nos olhos e não para a tela enquanto o outro fala. Perguntar como foi o dia e realmente esperar pela resposta. Elogiar uma qualidade que já passou despercebida de tanto conviver. Pedir desculpas antes que o orgulho transforme um desentendimento em distância. E também agradecer por aquilo que, de tão frequente, deixou de ser percebido.
Poderemos, assim, ao invés de simplesmente reagirmos, agirmos como verdadeiros interruptores da negatividade e propagadores da paz. Porque toda atitude negativa respondida na mesma medida apenas amplia a própria negatividade. Mas toda atitude negativa acolhida por uma presença serena encontra, pela primeira vez, a oportunidade de não se multiplicar.