Em Minas Gerais, o teatro nasceu muitas vezes antes do próprio teatro. Antes da sala escura, do palco italiano e do terceiro sinal, já havia o corpo que representava, a palavra dita diante dos outros, o canto, a procissão, o presépio, os passos da Paixão, os salões paroquiais, as escolas e os pequenos lugares onde uma comunidade se reunia para ouvir alguém contar uma história. A biografia de Carlos Nunes guarda alguma coisa dessa tradição antiga. Natural do Serro, cidade em que fé, memória e representação ainda ocupam as ruas, sua primeira aparição em cena aconteceu quando tinha apenas dois meses de idade: foi escolhido para ser o Menino Jesus de um presépio vivo. Chorou tanto que o padre pediu à sua mãe, dona Iolanda, que o retirasse. Carlos conta o episódio rindo. Antes de passar a vida provocando gargalhadas, estreou no teatro chorando.
O Serro não desapareceu quando a família se mudou para Belo Horizonte, ainda durante sua infância. Carlos veio de uma casa muito numerosa, filho de seu Zé de Levi e de dona Iolanda, e de uma vida em que a dificuldade econômica não era abstração. Houve um período em que os filhos precisaram ser acolhidos por parentes até que a mãe pudesse reuni-los novamente. Carlos atravessou parte desse tempo longe de casa e guardou lembranças nem sempre fáceis. Décadas depois, ao narrá-las, já revelava uma característica que atravessaria sua relação com o mundo: a dor não desaparece, mas a maneira de contá-la pode mudar sua temperatura.
Não seria correto dizer que o humor nasceu da adversidade. A vida humana resiste a explicações tão simples. O que se percebe é que Carlos aprendeu cedo a transformar experiência em narrativa. Ainda no Serro, recitava poesias na igreja. Em Belo Horizonte, participava de apresentações escolares antes mesmo de ter assistido profissionalmente a uma peça. Por volta dos doze anos, precisando de dinheiro para comprar tecido para uma roupa, organizou um espetáculo. Quando enfrentou dificuldades com a matemática, inventou uma pequena peça, “O casamento da Hipotenusa com o Cateto Oposto”. O teatro aparecia, desde muito cedo, não apenas como divertimento, mas como uma maneira de enfrentar a vida, reunir pessoas, organizar uma dificuldade e criar uma resposta diante dos outros.
Walter Benjamin escreveu que a experiência transmitida de pessoa a pessoa está na origem da narrativa. Há muito disso em Carlos. Histórias escutadas, parentes observados, frases repetidas em família, pequenos acontecimentos que sobrevivem porque alguém resolve contá-los outra vez. O menino que ouvia seria, mais tarde, o ator que devolveria aquelas vozes ao palco.
Dona Iolanda ocupa um lugar importante nesse princípio. Foi a mãe que precisou recompor a casa depois da dispersão imposta pelas dificuldades e foi também uma das presenças afetivas mais fortes na memória de Carlos. Quando menino, envolvido com igreja, poesia e celebrações, ela chegou a imaginar que ele pudesse querer ser padre. O destino escolheu outra forma de vocação, embora não inteiramente distante daquele universo da palavra, do rito e da presença. Anos mais tarde, ao falar sobre a doença do pai, Carlos resumiu numa frase uma diferença afetiva que carregava consigo: sabia ter sido o filho que sua mãe sempre quis, ainda que não se sentisse exatamente o filho sonhado pelo pai. A frase, dita por ele, revela sem necessidade de explicações excessivas a profundidade de um pertencimento materno. Há amores que não precisam ser descritos; aparecem na certeza de se saber reconhecido.
A formação profissional veio depois. Carlos serviu no Exército, trabalhou inclusive na cozinha do 12º Batalhão de Infantaria e, ainda jovem, procurou o curso de formação de atores do Palácio das Artes. Ali encontrou técnica e disciplina para algo que já experimentava intuitivamente. No início dos anos 1980, o teatro havia deixado de ser possibilidade e se tornado profissão. Escolher viver dele em Minas significava aceitar uma existência pouco protegida, feita de temporada, bilheteria, circulação, produção, ensaio, montagem e da necessidade permanente de inventar o próximo trabalho.
Foi nesse tempo que sua história encontrou a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Carlos não entrou na Campanha como estrela de cartaz. Começou vendendo ingressos numa kombi que circulava entre a Savassi e a Praça Sete. Poucas imagens explicam melhor sua trajetória. Antes de viver da existência de uma plateia, participou da construção dessa plateia.
A Campanha foi decisiva para o teatro mineiro porque nunca se resumiu ao ingresso mais barato. Ao longo das décadas, ajudou a criar hábito, vínculo e pertencimento entre a população e as artes cênicas. Carlos pertence à geração que viveu esse processo por dentro. Participou dele durante mais de quatro décadas e, nos anos de maior intensidade, chegou a fazer três espetáculos diferentes e dezenas de apresentações numa mesma edição. O público que depois lotaria suas peças era também um público que aquela geração ajudara a formar.
Essa vocação para o encontro não se limitou às salas tradicionais de Belo Horizonte. O programa Zás, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, teve importância particular em sua circulação. As apresentações transmitidas pela TV Assembleia chegavam ao interior e depois geravam convites para apresentações presenciais. A televisão, nesse caso, não produziu distância; abriu estrada. Carlos compreendeu cedo uma condição essencial para quem decide fazer teatro a partir de Minas: nem sempre basta esperar que o público chegue. Muitas vezes é preciso procurá-lo.
E ele procurou.
Foi a teatros municipais, universidades, escolas, encontros de professores, associações, auditórios, eventos beneficentes, empresas e fábricas. Criou trabalhos capazes de dialogar com segurança do trabalho, prevenção de acidentes e relações humanas, apresentando-se inclusive nas primeiras horas da manhã, em mudanças de turno. Trabalhadores que o conheciam nesses espaços apareciam depois no teatro. Essa circulação dá outra espessura à palavra popular. Em Carlos, ela não designa apenas um gênero estético ou uma estratégia de bilheteria, mas uma relação concreta com pessoas que muitas vezes vivem fora dos circuitos culturais habituais.
Minas do interior conhece Carlos Nunes porque Carlos percorreu Minas.
Sua comicidade pertence a uma tradição brasileira que ele nunca precisou negar para parecer mais sofisticado. Oscarito está entre suas referências declaradas. Carlos se reconhece na chanchada, na comédia física, no gesto, na voz, na careta, no exagero, na improvisação e no domínio preciso do tempo de reação da plateia. É uma linhagem em que o ator trabalha não apenas com o texto, mas com o corpo inteiro e com a resposta imediata do espectador.
Carlos é dessa família. Mais do que um humorista, é um ator cômico. Ele próprio conta que tentou fazer drama e o público ria. Em algum momento, resolveu escutar o que aquela resposta queria dizer. Há artistas que escolhem um gênero; em outros, o gênero parece chegar antes da escolha. Transformar essa inclinação em carreira, porém, exige muito mais do que espontaneidade. Fazer rir uma vez pode ser acaso. Fazer rir durante quatro décadas é trabalho.
Uma de suas frases mais reveladoras é também uma das mais simples: “É a plateia que me tem nas mãos.” Carlos inverte a ideia do ator que domina o público. A gargalhada chega ou não chega, dura mais ou menos, exige que a próxima frase espere ou permite que ela venha. O espectador modifica o ritmo da cena e, de algum modo, participa dela. Essa relação ajuda a compreender outra declaração sua: “Não sou artista, sou ator.” Há na frase uma resistência à construção permanente da celebridade. O ator existe no trabalho; depois há o homem que volta para casa, anda pela cidade, encontra pessoas e vive sem transformar o reconhecimento numa personagem social.
O Rio de Janeiro apareceu em sua juventude como possibilidade quase inevitável. Carlos viveu ali alguns anos, numa época em que parecia necessário deslocar-se para o eixo onde estavam televisão, produtores e maior visibilidade nacional. Voltou a Belo Horizonte. A projeção aconteceu mesmo assim. Participou de “Sai de Baixo”, “A Diarista”, “Zorra Total”, “Ô… Coitado!”, esteve no “Programa do Jô” e ganhou maior reconhecimento nacional a partir do Prêmio Multishow do Bom Humor Brasileiro, em 1996. A televisão ampliou sua imagem, mas nunca deslocou o centro de gravidade de sua carreira. Carlos escolheu Minas. E escolher permanecer é diferente de simplesmente não sair. Ele conheceu outras possibilidades e voltou.
“Pérolas do Tejo” talvez seja a obra em que origem, memória e teatro se encontram de modo mais evidente. Escrita com Jorge Fernando dos Santos, nasce das histórias da família do Serro, das tias, dos tios, dos primos, das manias e dos acontecimentos que sobreviveram porque foram contados muitas vezes. O título remete à avó portuguesa e a um colar de pérolas incorporado à memória familiar. O avô tocava sanfona; a avó contava suas histórias. Décadas depois, o neto transformaria aquela oralidade em dramaturgia.
Há nesse processo alguma coisa profundamente mineira. O fato acontece uma vez; o caso contado pode acontecer cem. A cada repetição ganha um detalhe, perde outro, recebe um gesto, encontra um ritmo e termina transformado numa espécie de patrimônio doméstico. Carlos não preserva a família congelando-a; preserva-a representando-a.
O público reconheceu essa verdade. Depois de períodos fora de cartaz, espectadores pediam o retorno de “Pérolas do Tejo”, queriam apresentá-la aos filhos e aos amigos. Uma geração levava outra. Quando isso acontece, a obra deixa de pertencer apenas à biografia do artista e passa a integrar também a memória de quem a viu.
Se “Pérolas do Tejo” guarda a origem, “Como sobreviver em festas e recepções com buffet escasso” representa a permanência. O texto de Ângelo Machado atravessou décadas, centenas de apresentações e sucessivas gerações de espectadores. Em 2016, a Assembleia Legislativa já registrava a marca de um milhão de espectadores. Em 2026, a montagem completou 26 anos de trajetória, com Carlos ligado à interpretação, à direção e à produção. Para um espetáculo criado e sustentado a partir de Minas Gerais, o número dispensa adjetivos.
A relação com Ângelo Machado tornou-se muito maior do que o sucesso de uma peça. Médico, professor, zoólogo, escritor, ambientalista e uma das figuras intelectuais mais originais de Minas, Ângelo tornou-se amigo de Carlos. Quando morreu, em 2020, Carlos falou dele não apenas como o autor do texto que modificara sua carreira, mas como alguém que se tornara pai, irmão e amigo. Em 2026, essa ligação encontrou nova forma em “Angelin, Professor de Humor”, escrito e dirigido por Jair Raso. Na maturidade, o ator passou a reconstruir em cena a memória do homem que participara da transformação de sua própria vida profissional. Há algo profundamente teatral nesse gesto: receber de alguém uma personagem e, décadas depois, fazer da memória desse alguém matéria de cena.
A carreira é muito maior do que esses trabalhos. Em “A Comédia dos Sexos”, Carlos dividiu o palco com Rogério Cardoso; em “Comi uma Galinha e Tô Pagando o Pato”, aproximou o riso das desigualdades e da impunidade; em “Francisco de Assis, do Rio ao Riso”, fez sua fé encontrar a comédia. Vieram muitos outros trabalhos, como intérprete, autor, diretor e produtor.
Essa última palavra é importante. Carlos não é o ator que chega ao teatro, representa e vai embora. Produz seus espetáculos, organiza temporadas, encontra salas, negocia, adapta, dirige, acompanha montagem, bilheteria e circulação. Sob sua direção, “O Rei Careca”, de Ângelo Machado, recebeu onze indicações ao Prêmio Usiminas/Sinparc em 2012. Ao longo do tempo também passou a dirigir outros artistas e a transmitir aquilo que quatro décadas de palco lhe ensinaram. A produção, em sua trajetória, não é uma atividade exterior à criação; determina como o espetáculo nasce, circula, encontra público e consegue sobreviver.
Permanecer quarenta anos no teatro brasileiro não significa apenas resistir às dificuldades da profissão. Significa, muitas vezes, construir pessoalmente as condições para continuar trabalhando.
Os reconhecimentos vieram. Em 2007, recebeu o Prêmio Sesc/Sated como comediante/humorista. Em 2010, foi agraciado pelo Governo de Minas com a Medalha da Inconfidência. O jovem que começara vendendo ingressos numa kombi da Campanha de Popularização chegava, três décadas depois, a uma das principais distinções concedidas pelo Estado. A homenagem não o transformou em monumento. Carlos continuou trabalhando.
Há uma parte de sua vida que me interessa especialmente porque o humor aí se encontra com a perda. Em 2019, com o pai muito doente, atravessava um período de tristeza. Kayete, amiga de décadas, foi encontrá-lo e propôs que fizessem uma comédia. Não é necessário transformar o episódio numa explicação psicológica de sua obra. O movimento por si só já diz muito: diante da dor, aparece uma amizade; do encontro, nasce novamente o trabalho; e o trabalho retorna ao teatro.
Pouco depois, a pandemia levaria essa experiência a uma escala muito maior. Quando assumi a Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais, em 2020, havia sido interrompido precisamente aquilo de que as artes presenciais são feitas: o encontro. Teatros fechados, palcos vazios, artistas separados de seus públicos. Lembro-me de acompanhar Carlos pelas redes sociais naquele período. Alguma coisa em sua presença me tocava. Mesmo recolhido, ele procurava o outro. Falava, contava histórias, inventava maneiras de permanecer em contato. Eu não via ali apenas o esforço de um artista para continuar visível; percebia uma necessidade mais profunda de relação.
Compreendo melhor aquela impressão hoje. O pensador argentino Jorge Dubatti emprega a ideia de convívio para definir uma condição essencial do teatro: a presença compartilhada de pessoas num mesmo acontecimento. Antes de ser texto ou edifício, o teatro é encontro. A pandemia retirou brutalmente essa condição dos artistas e, para Carlos, cuja vida profissional havia se organizado durante décadas em torno da resposta imediata do espectador, a privação ganhou uma dimensão ainda mais profunda.
Ele a admitiu com simplicidade. Em maio de 2020, depois de semanas de isolamento, disse que se sentia só e que vivia só. Receber um pequeno texto para interpretar pela internet lhe devolveu alegria porque permitia novamente decorar, ensaiar, imaginar uma personagem e preparar alguma coisa destinada a alguém.
Diante da solidão, procurou novamente o teatro.
Pouco antes, em abril de 2020, havia apresentado “Pérolas do Tejo” numa transmissão ao vivo diante de um teatro sem público presencial. As poltronas estavam vazias; do outro lado da câmera, milhares de pessoas acompanhavam. A peça feita das vozes de sua família, da memória do Serro e de histórias transmitidas de pessoa para pessoa era apresentada a espectadores que o ator não conseguia enxergar. Poucas imagens resumem tão bem aquele tempo: um homem num espaço construído para a presença, obrigado a imaginar o outro.
O isolamento lhe ensinou também outra espécie de escuta. Carlos escreveu que havia parado de brigar consigo próprio e começado a aceitar suas imperfeições. Para alguém cuja profissão oferece uma resposta externa quase imediata, o riso confirma, o silêncio corrige, o aplauso encerra a noite, aquela suspensão representava uma experiência radical. A plateia desaparecera e, durante algum tempo, restara o homem diante de si mesmo.
Quando os teatros reabriram, depois de dezoito meses, Carlos se definiu numa frase que contém muito de sua trajetória: ator “de vocação e de profissão”. Confessou o medo de já não conseguir fazer rir. Nas primeiras apresentações, ouvia as gargalhadas, mas os rostos permaneciam escondidos pelas máscaras. Isso o perturbava. Não bastava ouvir o riso; precisava ver de onde ele vinha.
Foi então que compreendi ainda melhor aquilo que me chamara a atenção ao observá-lo durante o isolamento. Carlos havia dito anos antes que não era ele quem tinha a plateia nas mãos; era a plateia que o tinha. Em 2020, aquela frase adquiriu uma dimensão imprevista. A solidão lhe ensinara a própria companhia, mas não substituíra o encontro.
Sua fé participa também dessa trajetória. Católico, Carlos encontrou em “Francisco de Assis, do Rio ao Riso” uma maneira de aproximar o sagrado da linguagem que melhor conhece. Não lhe interessava fazer do santo objeto de deboche, mas encontrar o homem Francisco, sua fraternidade, os animais, a natureza e uma vida fundada na simplicidade. Seu humor pode ser escrachado, mas conhece a medida. Essa capacidade de transitar entre excesso e delicadeza ajuda a explicar sua presença diante de públicos tão distintos.
Em 2023, depois de mais de quarenta anos de profissão, precisou mobilizar amigos e organizar uma arrecadação para levar esse espetáculo à Europa. A passagem revela uma verdade persistente do teatro brasileiro. Um ator pode acumular televisão, prêmios, Medalha da Inconfidência e um espetáculo assistido por cerca de um milhão de pessoas e, ainda assim, precisar construir coletivamente as condições para colocar uma montagem no avião. Carlos fez isso sem converter precariedade em ressentimento. O espetáculo viajou.
O Serro também permaneceu esperando por ele. Décadas depois de sair ainda menino, voltou como acadêmico da Academia Serrana de Letras e participou de encontros de poesia, música e palavra. Na saudação de sua posse reapareceram o artista reconhecido e o menino da casa de seu Zé de Levi e de dona Iolanda. Há uma circularidade que me parece especialmente bonita nesse retorno. O menino que recitava versos na igreja regressa à cidade reconhecido pelo caminho construído no teatro e continua fazendo, em outra escala, aquilo que fazia no princípio: reunindo pessoas em torno de uma palavra dita em voz alta.
Ao percorrer sua trajetória, o que mais me chama a atenção é essa procura continuada pelo outro. Carlos Nunes procura pessoas. Quando criança, organiza uma apresentação; quando jovem, vende ingressos numa kombi; quando ator, percorre municípios; quando produtor, encontra salas e cria temporadas; quando vai às empresas, encontra trabalhadores onde estão; quando perde um amigo, transforma a memória em espetáculo; quando atravessa a tristeza, uma amizade o leva novamente a ensaiar; quando a pandemia fecha os teatros, liga uma câmera e tenta reconstruir a relação interrompida.
Há nessa sucessão uma forma de estar no mundo. Uma mãe que, depois da dispersão provocada pela pobreza, reuniu novamente os filhos; um menino que sabia onde desejava voltar; uma família que preservou sua memória pelas histórias; um homem que, décadas mais tarde, faria do encontro com os outros a matéria principal de sua profissão. Não é necessário transformar biografia em destino para reconhecer essas correspondências. A vida de Carlos parece continuamente refazer vínculos.
A televisão lhe deu projeção, o Rio lhe ofereceu possibilidades, os prêmios lhe deram reconhecimento, mas Carlos escolheu fazer de Minas o centro de uma carreira que se tornou nacional. O Serro lhe deu as primeiras histórias; dona Iolanda, um sentido profundo de casa e pertencimento; Belo Horizonte, formação e morada; o Palácio das Artes, técnica; a Campanha de Popularização, público; o Zás, caminhos para o interior; as estradas mineiras, novas plateias; Ângelo Machado, amizade e dramaturgia; a fé, outra maneira de olhar o humano; a pandemia, a experiência extrema da ausência do outro.
Há mais de quatro décadas Carlos viaja, representa, produz, dirige, repete, improvisa e recomeça. Num ofício marcado pela instabilidade, a permanência talvez seja uma de suas maiores realizações. Permanecer significa não automatizar aquilo que se repete, respeitar o espectador que chega pela primeira vez, transmitir experiência sem deixar de aprender e receber reconhecimento sem transformar homenagem em repouso.
Sua primeira experiência em cena terminou porque chorava demais num presépio do Serro e dona Iolanda precisou buscá-lo. Desde então, a vida o levou a percorrer Minas e muitos outros palcos tentando provocar nos outros justamente o movimento contrário, embora algumas das melhores gargalhadas também terminem em lágrimas. Entre uma coisa e outra está uma vida inteira dedicada ao teatro.
E, olhando agora o conjunto dessa trajetória, compreendo que aquilo que me tocava ao vê-lo sozinho durante a pandemia, procurando alguém do outro lado de uma tela, já estava presente desde o princípio. Carlos Nunes fez da procura pelo outro não apenas o fundamento de sua profissão, mas uma maneira de existir. E fez de Minas não o limite dessa existência, mas o caminho por onde ela encontrou o mundo.
Colaborou Maurício Canguçu