Toda palavra guarda uma vida inteira. Saint-Exupéry continua de pé: o essencial é invisível aos olhos. Já ouvi essa frase tantas vezes que quase não presto mais atenção nela. Mas naquela tarde ela voltou com força. Lembrei-me dela quando Renault, amigo-irmão e colega de Tribunal, me comentou, numa prosa, sua predileção por buscar o sentido mais real e profundo das palavras e da vida.
Não me espantei. Quase vinte e dois anos de convívio no Tribunal me ensinaram. Por baixo da solenidade das togas, cenário onde Nelson Rodrigues certamente veria a crueza indisfarçável das paixões e das fraturas humanas, Renault sempre me pareceu um socrático. A luz que ele lançava em seus votos, estivéssemos ou não de acordo com o mérito, vinha de uma maiêutica silenciosa. Ele não impunha conclusões. Ele conduzia cada um a parir as suas próprias, ainda que dolorosas. É um método antigo, quase esquecido. Poucos têm paciência para ele.
Naquela conversa, ele falava de sua busca etimológica pela palavra “solidão”. Eu trazia à roda a etimologia de “entusiasmo”. A psicanálise nos ensina que a linguagem é uma das frestas por onde escapa o inconsciente. Investigar a raiz do que dizemos é, no fundo, deitar a própria alma no divã. Meu amigo buscava a solidão. Eu me agarrava ao entusiasmo, que em grego significa ser tomado por um sopro divino. Uso a palavra quase todos os dias, sem pensar nisso. Entusiasmo por um livro, por uma ideia, por uma pessoa. A palavra virou isso: uma maneira de dizer que alguma coisa nos puxa para fora.
Solidão remonta a solitudo, que nasce de solus: estar só. Entusiasmo é o que arranca o homem de si mesmo e o lança para fora. Vivo entre as duas coisas, sem saber direito qual me governa mais. Há dias em que a solidão pesa. Outros em que o entusiasmo me arrasta. Não escolhi nenhum dos dois.
Nisso concordávamos. O caminhar fica mais leve quando extraímos de cada palavra a sua verdade primeira. O termo grego étymon significa exatamente isso: o sentido verdadeiro, o real. Buscar a etimologia de um vocábulo é investigar a sua verdade original, antes que o tempo e o hábito a desgastem. O étymon não é curiosidade de erudito. É uma forma de lembrar que a língua tem história, e que a gente fala dentro dela como quem mora numa casa antiga sem saber quem a construiu. A palavra é uma coisa viva. Falamos por hábito, repetimos o que nos ensinaram, e de repente percebemos que a palavra saiu da boca sem passar pela cabeça. Não sei se é aprimoramento espiritual ou simples necessidade de sentido. Talvez sejam as duas coisas, ou nenhuma delas. Às vezes a gente só quer entender de onde veio.
Já me peguei parado diante de uma raiz antiga, sem saber o que dizer.
Zeca Pagodinho canta, quase como um louvor, pedindo para deixar a vida nos levar. Um sentimento que já ecoava no piano de Benito di Paula, quando nos ensinou a aceitar o compasso do acaso em “Do Jeito Que a Vida Quer“. A vida nos leva, embora a gente também reme. Nem sempre para onde imaginava. Às vezes para lugar nenhum. Mas a canção continua, e a gente canta junto.
Essa vertigem diante das promessas e incertezas do destino, o próprio Machado de Assis já dissecava em seus versos no poema “Os dois horizontes“, publicado em Crisálidas: “Que buscas, homem? Procuro, / Através da imensidade, / Ler a doce realidade / Das ilusões do futuro.” Machado sabia que o futuro é uma leitura feita no escuro. Procuramos sinais, tentamos decifrar o que ainda não aconteceu, e nesse esforço inventamos parte do que encontraremos. Não há como saber antes. Só depois.
Tudo isso me trouxe a recordação do saudoso e sempre amado Professor e advogado Doutor Agostinho Rodrigues de Abreu. Guaraniense da gema, ele se dedicou à cátedra da contabilidade na Fundação Machado Sobrinho, em Juiz de Fora, e ao exercício magnânimo da advocacia. Entre seus lemas, mantidos até o seu desencarne com mais de cem anos, estava a leitura diária de uma página do Dicionário. Ele sabia, talvez intuitivamente, que perder a etimologia das palavras era perder a bússola da própria história. Buscava na raiz dos vocábulos a força motriz para continuar existindo.
Imaginei muitas vezes a cena: o velho professor, já quase centenário, abrindo o dicionário não para consultar uma definição, mas para reencontrar um caminho. Ele lia em voz alta, às vezes, como dizia. Gostava do som das palavras antigas. Dizia que algumas palavras tinham gosto. Gosto de coisa antiga.
A palavra não apenas nomeia. Ela constrói a nossa realidade. O Evangelho de João, logo em sua abertura, já nos revelava a magnitude criadora do que sentimos e dizemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” Se o Verbo é princípio, então falar é participar da criação. Nomear é dar existência.
Talvez viver seja isso: buscar o sentido verdadeiro das coisas, das palavras e de nós mesmos. O essencial continua invisível aos olhos. Ele mora na raiz.
Foi isso que aprendi com Renault, com o Doutor Agostinho e com tantas vozes que a vida me trouxe. A etimologia do viver cabe inteira numa única pergunta: o que estamos dizendo quando dizemos o que somos? E a resposta, se vier, vem sempre do silêncio. Um silêncio que também tem sua etimologia. Mas foi o que me veio, e é o que tenho.