O aparelho de som era um Gradiente 3 em 1, desses que juntavam rádio, toca-discos e gravador em um único móvel. A tampa subia com um rangido seco, e o prato começava a girar devagar, como se todo o domingo coubesse naquele movimento. Meu pai me chamava para ajudar a ‘colocar’ o disco para tocar. Não havia pressa. Ele dizia algo como: “ajuda a colocar esse disco para rodar”, e eu ia. O vinil de “O Fino do Violão” tinha a capa amarelo-clara, com o título em marrom, e meu pai o segurava com cuidado. Sentava-se por perto, com o velho violão Giannini no colo, e, quando a agulha baixava, já estava pronto. Eram sete filhos, uma casa simples e uma semana inteira de trabalho. Mas, naquele breve intervalo de domingo, seus dedos grossos e calejados tentavam acompanhar Dilermando Reis. A música era “Se ela perguntar”. As notas saíam tortas; os dedos duros não alcançavam o tempo certo. Ele parecia não se importar. Ou talvez se importasse, mas seguia tocando. Acho que era isso.
Minha mãe ouvia Mario Lanza entre as panelas. Ela nem sabia mexer no Gradiente. Quando queria seu disco, pedia que a gente colocasse. Na cozinha relativamente espaçosa, o tenor entrava e se misturava ao cheiro do feijão. Ela não parava o que estava fazendo. A música chegava enquanto mexia o arroz, provava o sal, passava o pano na pia. Não cantarolava. Ouvia. Às vezes fechava os olhos por um instante, a colher de pau suspensa, e depois voltava ao serviço. O disco dela não era só Mario Lanza. Tinha também um vinil de polcas, ritmo e dança de origem boêmia, e outro de valsas eternas. Ela ouvia aquilo com uma atenção diferente, como se as melodias puxassem alguma coisa de muito fundo. Nossas origens austro-birmânicas e judias, talvez. Ela nunca explicava. Só pedia para “colocar” o disco.
Às vezes ela queimava o arroz de propósito. Quase todos nós gostávamos da rapa, aquela crosta dourada e crocante que grudava no fundo da panela. Ela sabia. Forçava um pouco mais o fogo para a rapa sair farta. Depois servia o arroz normal e deixava a rapa numa travessa à parte, que a gente disputava. Mario Lanza alheio a tudo, atacando um dó de peito, e a gente raspando a panela.
Eu era o mais novo entre os homens. Três homens, quatro mulheres. Todo mundo trabalhava. O lazer não estava na lista. Meu pai não relaxava ao ouvir o disco; ele se concentrava. A casa, com seus móveis gastos, se alargava um pouco. Um pouco só. O suficiente para a gente caber sem se esbarrar tanto.
Lembro de um domingo em que a corda solta do Giannini desafinou tudo. Meu pai tentou ajustar, girando a tarraxa com dificuldade, os dedos duros escorregando. Não resolveu. A nota continuou morta. Ele tocou assim mesmo, com a corda bamba vibrando errado. “Se ela perguntar” saiu esquisita, mas ele seguiu até o fim da faixa. Depois guardou o violão no canto e ficou só ouvindo. Acho que aquele dia entendi uma coisa, mas não saberia dizer qual.
Hoje, quando me lembro, não é a melodia que vem. Vem o pedido de ajuda para colocar o disco. Vem o barulho da tampa da panela. Vem o cheiro do feijão com rapa. Vem o silêncio dos meus irmãos. Cada um no seu canto, mas respirando na mesma sala. Numa casa de sete filhos, o silêncio era raro, e quando aparecia tinha densidade. Não era vazio. Era cheio de presenças contidas.
Essas coisas não são música, mas grudaram. E, com a ausência deles, aperta. Não é uma dor imensa. É um aperto que aparece quando um acorde antigo toca por acaso e eu me vejo de novo naquela sala, com o prato girando. Outro dia, num supermercado, tocou uma valsa qualquer no rádio interno. Parei no corredor dos enlatados. Fiquei uns segundos parado, com uma lata de milho na mão, e não soube explicar para a repositora que me olhou. Não era tristeza. Era outra coisa.
A lembrança nunca vem sozinha. Meu pai não pede mais ajuda para colocar o disco, mas o pedido ainda está aqui. Minha mãe não fecha mais os olhos junto ao fogão, mas o vapor do arroz ainda sobe em algum lugar. Os discos sumiram. O Gradiente emudeceu. Ficou um eco. Às vezes é bonito. Às vezes é só um chiado. Aprendi a não afastar o chiado. Meu pai errando o acorde não era defeito; era a música que ele podia fazer. Os discos envelheciam com a gente. Arranhavam. Pulavam faixas. Um deles travou no meio de uma valsa e ficou repetindo o mesmo trecho por quase um minuto antes que alguém levantasse para tirar a agulha. Minha avó sorriu. Vi D. Emília sorrir ouvindo música. Um riso curto, mas genuíno. Acho que ela achou graça da insistência do disco, daquele pedacinho de valsa condenado a se repetir. Como se a máquina também teimasse.
Hoje, com a mesa vazia, ainda ponho o disco imaginário. Não sei bem por quê. Talvez porque o passado não está morto, só mudou de formato. A saudade não devolve ninguém, mas também não deixa que desapareçam por completo. Meu pai não se senta mais ao lado do Gradiente 3 em 1, mas continua pedindo Dilermando Reis, Rosinha de Valença e Sebastião Tapajós em algum lugar. Minha mãe Dolores ainda ouve Mario Lanza, e a cozinha dela ainda tem cheiro de feijão e rapa. E eu, o mais novo, já não tão novo, sento-me na sala e ouço. Não a música. O que sobrou dela.
Às vezes eu mesmo coloco um vinil. Não “O Fino do Violão”, que esse se perdeu. Mas algum disco, qualquer um. Quando a agulha desce, eu não penso em nada. Só deixo tocar. Meu pai nunca aprendeu a tocar por completo “Se ela perguntar” como Dilermando Reis. Mas aprendeu a não largar o violão. E acho que foi isso que ele me deixou.
Recebi algum tempo atrás um velho vinil de presente. Capa gasta, sem nome. Coloquei no aparelho e a agulha deslizou. A música saiu meio embaçada, como se viesse de longe. Não era grande coisa. Mas servia. Fiquei ouvindo até o fim do lado A, sem pressa. A agulha chegou ao centro e ficou girando no sulco vazio, fazendo aquele chiado manso que os discos antigos fazem. Não me levantei para desligar. Deixei girar mais um pouco. O chiado também faz parte.