A análise feita pela Polícia Federal (PF) no celular do empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, identificou registros que apontam contatos indiretos entre ele e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Os registros aparecem em conversas de Vorcaro com o advogado Ciro Soares, que encaminhava ao empresário mensagens atribuídas ao procurador-geral e relatava encontros e tratativas com ele.
Em 14 de abril de 2024, o advogado enviou as mensagens “Gonet é firme” e “amizade é tudo” ao relatar que havia pedido ao procurador-geral que interferisse na disputa pela presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG). Na ocasião, Jarbas Soares Júnior, então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, foi eleito para o cargo.

Em seguida, Ciro encaminhou a Vorcaro uma mensagem de um interlocutor chamado “Jarbas”, na qual agradece a “Georges” por um “gesto grandioso”, cita a “presença mais próxima do PGR Dr. Gonet” e menciona a “sabedoria mineira” – veja abaixo.
Na sequência, o advogado enviou um áudio no qual relatou a suposta conversa que teve com Gonet sobre a disputa pelo comando do CNPG. Em seguida, o ex-dono do Master questionou: “O cara largou?”. Ciro respondeu que sim:
“Cara, eu pedi o Gonet ontem, ele me ligou falar [sic] um assunto, aí eu falei, Gonet, pede o cara para tirar a candidatura, pede o cara que o cara vai tomar uma porrada arretada. Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir.”
Três dias depois, Jarbas Soares Júnior foi eleito presidente do conselho por aclamação. A eleição ficou sem disputa após a desistência do procurador-geral de Justiça do Distrito Federal, Georges Seigneur. Segundo registro oficial do Ministério Público, Seigneur retirou a candidatura em nome da “unidade do colegiado”.
A articulação de Ciro foi considerada “top demais” por Daniel Vorcaro. Atualmente, Jarbas é filiado ao PSB e é candidato a vice na chapa encabeçada por Patrus Ananias (PT) ao governo de Minas nas eleições deste ano.

O sigilo dos autos foi retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (1º). O laudo que cita também o ministro Alexandre Moraes é fruto da Operação Compliance Zero, que apura fraudes do banco Master.
Veja a mensagem de Jarbas na íntegra:
“Querido amigo Georges, queridas Luciana e Elaine, estimado PGR Dr. Gonet, caros Colegas Procuradores Gerais, bom dia!
Recebo com enorme satisfação e alegria o gesto grandioso do colega e amigo Georges, que sempre esteve solícito a todos nós, nas horas mais difíceis e estratégicas. O MPDFT tem nos dado grandes nomes.
A ele a minha gratidão e reconhecimento. Deixarei as palavras mais devidas para quarta-feira.
Saiba que terão um presidente incansável nestes sete meses de presidência.
Recebo também todo apoio dos PGJs, que tive, como um ato de generosidade a um insistente candidato, mas também como um reconhecimento aos meus 35 anos de dedicação à nossa Instituição, à qual sempre fui um leal soldado.
Trabalharemos juntos no colegiado, agora prestigiadíssimo com a presença mais próxima do PGR Dr. Gonet. Ele trouxe luz e esperanças ao MP brasileiro.
Agradeço ao Presidente César e a cada PGJ, ao PGR e ao PGT.
A sabedoria mineira ensina que devemos sempre nos apegar ao que nos une, não ao que nos separa. E o que mais nos une é o presente e o futuro da Instituição. Ao MP todos as nossas forças.
Avante!”
Foto e chamadas
Quase um ano depois, em 15 de março de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma foto em que aparece ao lado de Paulo Gonet. Na sequência, escreveu “Liga aqui” e “Ele quer falar com vc”. A partir das 14h23, foram registradas quatro videochamadas.
Cerca de 15 dias depois, em 28 de março de 2025, o advogado encaminhou aos ex-banqueiro mensagens atribuídas a Gonet: “Que bom! Estou na torcida por vocês!” e “Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma”.
Ciro também afirmou que Gonet havia pedido o envio das mensagens. “Ele lhe adora”, disse o advogado, acrescentando que o PGR viajaria com eles para Londres. Em seguida, encaminhou uma mensagem atribuída a Gonet: “Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan!”.
No dia seguinte, Ciro enviou outro print com a frase “Você é uma máquina” e escreveu: “Gonet mandou”. Um dia após isso, o advogado de Vorcaro disse “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”. O empresário respondeu: “Obvio ne”.
Em 11 de abril, uma funcionária de Vorcaro perguntou quais convidados estavam autorizados a viajar a Londres com despesas pagas pelo grupo. Vorcaro descartou parte da lista e aprovou dois nomes, “Pedro e ciro ok”.
Segundo a PF, a referência era a Pedro Gonet, filho do procurador-geral. Em 19 de junho, Ciro voltou ao assunto. Escreveu que “PG confirmou a ida pra Londres” e perguntou: “Pedrinho filho do PG pode ir com a gente?”. Vorcaro confirmou novamente: “Obvio”.
“Estou indo no PG agora”
O laudo registra ainda episódios em que Ciro teria recorrido a Gonet em momentos de interesse de Vorcaro. Em 7 de abril de 2025, antes da viagem para Londres, durante uma conversa sobre uma reportagem relacionada à tentativa de operação do BRB com o Banco Master, Ciro pediu para falar com o banqueiro e escreveu “Estou indo no PG agora”.
Outra referência aparece em uma anotação feita por Vorcaro em 30 de outubro de 2025. O banqueiro registrou ter recebido, em caráter informal e confidencial, de integrantes do Banco Central (BC) a informação de que “G e os diretores” estariam sob pressão da PF e do MP para adotar uma medida contra ele.
Na mesma nota, Vorcaro escreveu que era “importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”. Em anotação seguinte, disse ter “pessoas de dentro do Bacen” que “participaram das reuniões” e afirmou não poder expor essas fontes.
A PF avaliou que “Andrei” poderia ser Andrei Passos, então diretor-geral da PF, e que “Paulo” poderia ser Paulo Gonet. A investigação registra que a análise não foi exaustiva e que os policiais se limitaram aos elementos já encontrados no material apreendido.
“Assim, não foram realizados quaisquer atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público, tampouco diligências tipicamente policiais destinadas à apuração de condutas que, em tese, possam configurar ilícitos penais, limitando-se o presente trabalho à identificação e exposição objetiva dos elementos já existentes no material regularmente arrecadado e submetido à supervisão judicial”.