Vorcaro pagou escritório de mulher de Moraes por meio de empresa sediada em Belo Horizonte

Contrato de R$ 50 milhões foi firmado pela Viking Participações, de Belo Horizonte, com escritório da esposa do ministro do STF
Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, é dona do escritório que firmou contrato de R$ 50 milhões com empresa ligada a Daniel Vorcaro.
Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, é dona do escritório que firmou contrato de R$ 50 milhões com empresa ligada a Daniel Vorcaro. Foto: Antonio Augusto/TSE

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro pagou o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, por meio de uma empresa sediada na região Oeste de Belo Horizonte.

A holding Viking Participações, com endereço na Avenida Raja Gabaglia, 2.000, no bairro Alpes, firmou com a Barci de Moraes Sociedade de Advogados um contrato de R$ 50 milhões. Desse total, R$ 40 milhões seriam quitados por meio da entrega de ações de duas empresas donas de um jato e de um helicóptero.

As ações eram das empresas Fraction 024 e Fraction 053, ambas com sede em Alphaville, em Barueri (SP), e de titularidade da Viking. A Fraction 024 é dona de um jato Legacy 650, de prefixo PP-NLR. A Fraction 053 estava em processo de aquisição de um helicóptero EC155 B1, da fabricante Airbus Helicopters.

De acordo com a brochura da Prime You enviada à advogada, as cotas das aeronaves estavam avaliadas em US$ 5,5 milhões e US$ 1,33 milhão, respectivamente. Pela cotação desta terça-feira (1º), os valores equivalem a cerca de R$ 29,6 milhões e R$ 7,2 milhões, respectivamente, totalizando aproximadamente R$ 36,8 milhões.

Segundo a análise da investigação ds Polícia Federal (PF), poucos dias antes do fechamento do acordo, em 9 de maio de 2025, Vorcaro conversou por telefone com um contato salvo como “Marcos Prime” e pediu que fosse enviada à advogada Viviane de Moraes uma brochura da Prime You com informações sobre as duas aeronaves.

O termo foi assinado em 19 de maio de 2025 e estabeleceu que a entrega das ações teria caráter irrevogável e irretratável. Os R$ 10 milhões restantes seriam quitados por meio do reembolso de despesas relacionadas ao uso das aeronaves e do saldo devido pela aquisição delas.

Além da dação, o contrato previa o pagamento de 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos ao escritório, ao longo de três anos. Com os tributos, o valor bruto de cada parcela chegava a R$ 3.646.529,77, com depósito previsto até o quinto dia útil de cada mês.

A investigação aponta ainda que a minuta do contrato de prestação de serviços enviada por Viviane de Moraes a Vorcaro, em janeiro de 2024, tem nos metadados o advogado Guilherme Benazzi como autor e um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última modificação.

A versão final do contrato, de R$ 3 milhões mensais, também teria sido alterada por último pelo mesmo perfil, em 15 de janeiro de 2024.

As negociações

A análise da investigação reproduz as conversas que antecederam o acordo. O advogado de Vorcaro, Leonardo Palhares, enviou duas minutas para o banqueiro escolher o formato da transação.

Em uma delas, Vorcaro poderia recomprar as ações por R$ 1 caso o contrato não fosse cumprido. Na outra, a transferência só ocorreria após a conclusão do contrato. Ele recusou a primeira opção e afirmou que os ativos já pertenciam ao escritório.

Em 19 de maio de 2025, Palhares, que consta como autor do documento, enviou o termo de dação em pagamento e explicou que a banca preferia ser dona direta das cotas, sem figurar como sócia das empresas. No dia seguinte, sugeriu uma alternativa para a compra dos ativos, também recusada.

Cerca de um mês depois, Vorcaro cobrou de Marcus Vinicius da Mata, coproprietário da Prime You, a solução de uma pendência nas cotas e questionou se o escritório não estava usando os bens.

Da Mata respondeu que os ativos estavam liberados, que o escritório já tinha usado aviões e helicópteros e que o contrato passaria da Barci de Moraes para outra empresa do grupo, a Lux. Em seguida, encaminhou uma conversa em que Viviane de Moraes dizia estar “gostando muito” do uso das cotas.

Quebra de sigilo

O sigilo dos autos da Operação Compliance Zero, liderada pela Polícia Federal (PF), foi retirado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta terça-feira (1º). O ministro determinou que as informações sejam levadas ao plenário da Corte, após manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

O laudo tem 218 páginas e foi produzido a partir da extração dos dados do aparelho apreendido com Vorcaro. Ele integra a investigação sobre fraudes no Banco Master, que levaram à liquidação da instituição em novembro de 2025 e a prejuízos ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e ao Banco Regional de Brasília (BRB).

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

Leia também:

Nikolas vai pedir afastamento cautelar e prisão de Moraes ao STF

Vorcaro pagou escritório de mulher de Moraes por meio de empresa sediada em Belo Horizonte

TRE mantém cassação de prefeito mineiro por uso da máquina pública para fins eleitorais

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse