Em declaração enviada à Justiça inglesa, a diretora de operações e jurídica do escritório britânico Pogust Goodhead, Lynn Wong, acusou o ex-sócio do escritório Tom Goodhead de desviar, para contas próprias, cerca de 6,9 milhões de libras esterlinas (R$ 47,1 milhões) que pertenceriam à firma.
A declaração, à qual O Fator teve acesso, foi elaborada em 1º de setembro deste ano e faz parte de uma disputa entre escritórios de advocacia sobre quem terá o direito de defender os atingidos da tragédia de Mariana no processo na Justiça inglesa contra a BHP – sócia da Vale na Samarco.
Em nota enviada à reportagem, Tom nega as acusações e afirma que o escritório tem adotado conduta sistemática de difamá-lo e persegui-lo. Segundo ele, é o Pogust Goodhead que o deve dinheiro. O advogado britânico ainda diz que foi perseguido por financiadores do Pogust Goodhead e que foi vítima de manobra para perder o controle do escritório (veja mais abaixo trechos da nota enviada pelo advogado).
Na declaração, Wong afirma que a acusação contra Tom surge a partir de uma auditoria feita pelo escritório de advocacia DLA Piper em conjunto com a consultoria Alvarez & Marsal a pedido do conselho de diretores do Pogust Goodhead. A investigação, segundo Wong, foi solicitada quando a relação entre o escritório e seu então sócio já estava desgastada e foi crucial para o fim da relação contratual entre eles.
De acordo com a diretora do Pogust Goodhead, a auditoria constatou que Tom teria se apropriado de recursos adiantados por financiadores do escritório que tinham como objetivo custear despesas relacionadas ao processo na Justiça inglesa
Após a investigação, conta Wong, o escritório Pogust Goodhead preparou uma carta de demissão para Tom, “por falta grave”. A ideia, de acordo com a diretora, era entregar o documento ao então sócio em 12 de setembro do ano passado, mas um dia antes Tom teria pedido demissão por conta própria.
“Em circunstâncias nas quais havia uma disputa quanto à validade da suposta renúncia do Sr. Goodhead ao cargo de empregado, a Firma, não obstante, enviou uma carta de rescisão em 12 de setembro de 2025, conforme planejado”, diz a diretora à Justiça inglesa.
Wong ainda disse que a carta de demissão entregue a Tom afirmava que ele utilizara, de forma irregular, uma conta criada para receber dinheiro do escritório que não estivesse relacionado a salários, dividendos ou reembolso de despesas. Além disso, a carta, segundo ela, pontuava que recursos levantados com financiadores teriam sido utilizados, enquanto ele era CEO do escritório, para bancar “despesas com viagens e entretenimento luxuosos, bem como gastos de natureza estritamente pessoal”.
Tom nega todas as acusações. Por meio de nota enviada a O Fator por meio de sua assessoria de imprensa, ele diz que a acusação “não passa de uma tentativa do Pogust Goodhead de apresentar indevidamente como irregular uma remuneração acordada por cinco anos de trabalho – apesar de ela ter sido integralmente aprovada pelos financiadores do escritório.”
Ainda segundo ele, é o escritório britânico que o deve 2,7 milhões de libras esterlinas. “Como é comum entre proprietários de empresas, Tom Goodhead realizou despesas por meio de seu próprio negócio, com pleno conhecimento dos financiadores do PG. Essas despesas foram registradas em sua conta de empréstimos de diretor (director’s loan account), cujos saldos foram devidamente conciliados em todos os momentos”, diz.
Dias antes antes da saída
No depoimento ao qual O Fator teve acesso, Wong conta a versão do Pogust Goodhead sobre como foram os últimos dias de Tom como sócio do Pogust Goodhead.
Nela, a diretora – que entrou no escritório em janeiro deste ano – afirma que até 4 de agosto de 2025, Tom era o único acionista e diretor da PGMBM Limited, empresa que controla o Pogust Goodhead.
Mas, segundo ela, a partir de preocupações em relação à forma como o escritório vinha gerenciando os recursos, o principal financiador do Pogust Goodhead – a gestora americana de investimentos Gramercy – teria exercido um direito contratual de nomear um administrador judicial para tomar posse das ações da PGMBM Limited, que pertenciam a Tom.
No mesmo dia, o administrador judicial teria nomeado três novos diretores para o escritório, diluindo a influência de Tom.
Won também acusa Tom de, ainda em 4 de agosto, ter tentado obter “acesso não autorizado ao escritório da Firma, utilizando cartões de acesso para visitantes, uma vez que seu próprio cartão de acesso havia sido bloqueado”. Segundo ela, na ocasião, Tom tentou excluir dados e assumir o controle do sistema de TI da Empresa – a declaração não deixa claro se ele, de fato, teria conseguido excluir tais dados.
Na nota enviada à reportagem, Tom diz ter renunciado ao seu cargo de funcionário e ao cargo de diretor após a atual administração do escritório britânico “ter se aliado aos financiadores, em uma manobra para tomar o controle do escritório e afastá-lo”.
“Isso ocorreu depois que Goodhead resistiu a tentativas antiéticas dos financiadores, facilitadas por alguns dos atuais dirigentes do PG, de interferir na relação entre advogados e clientes e na independência do escritório”, afirma.
Ele também diz que tinha pleno direito de entrar em seu próprio escritório. “A alegação de que ele teria apagado quaisquer dados da empresa é falsa e difamatória”, afirma. “Tom Goodhead se orgulha da cultura que ele e os então sócios do PG construíram, e que permitiu ao escritório conduzir com sucesso litígios contra a BHP e algumas das maiores empresas do mundo”, acrescenta.
Procurado, o Pogust Goodhead enviou, por meio de sua assessoria de imprensa, nota que ressalta pontos trazidos pela reportagem. Segundo o escritório, desde a saída de Tom, a nova administração tem trabalhado para reestruturar a governança e os controles financeiros do escritório.
“Se Tom, com sua cultura tóxica de trabalho e descontrole financeiro permanecesse no cargo, o escritório poderia chegar a uma situação financeira insustentável e que colocaria em risco a defesa dos atingidos do caso Mariana”, diz.
Leia, na íntegra, a nota enviada pela assessoria de imprensa de Tom Goodhead.