Velho demais para quê?

Médico segura estetoscópio
Às vezes alguém entrava, via o homem de óculos e perguntava ao farmacêutico se era ele mesmo. O farmacêutico confirmava com a cabeça. A pessoa se aproximava. O doutor levantava os olhos. Ouvia a queixa. Pegava a caneta. Escrevia a receita. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O telefone da recepção tocou quatro vezes antes de a secretária atender. Do outro lado, uma mulher perguntou se o doutor ainda atendia pelo plano. A secretária informou que não, que agora era só particular. A mulher disse que era paciente desde 1987. A secretária repetiu que não atendia mais. Houve um silêncio. A mulher agradeceu e desligou.

O doutor estava na sala do fundo, com a porta aberta. Ouviu a conversa inteira. Continuou lendo o jornal que ainda recebia impresso.

Ele tem setenta e nove anos. Formou-se em 1972. Abriu consultório no centro em 1978, numa sala alugada em cima de uma farmácia, na rua do Comércio. Depois comprou a casa da rua Santa Clara, transformou a sala da frente em consultório e a varanda em sala de espera. O filho nasceu no quarto do fundo, em 1981. A mulher morreu em 2018, no hospital, mas ele costuma dizer que ela morreu em casa, porque foi ali que ela passou os últimos meses.

Ele atendeu por plano desde 1985. Foi um dos primeiros a aceitar. Na época, os colegas diziam que aquilo não ia durar. Durou próximo de quarenta anos. Boa parte da clientela veio por indicação. Ele atendia de segunda a sexta, das oito ao meio-dia e das duas às dezoito. A mulher ficava na recepção e conhecia todo mundo pelo nome.

Nos primeiros meses, quase nada mudou. Depois o filho começou a mexer. Trocou a secretária. A antiga, que trabalhava desde 2005, foi embora sem dizer muita coisa. Contratou uma moça de vinte e seis anos. Instalou agendamento online. Mandou fazer um site. Colocou placa nova na fachada, com os dois nomes. O do filho embaixo, em letra menor.

Em janeiro, o filho avisou que ia descredenciar alguns planos. Argumentou que o repasse estava baixo, que o consultório trabalhava no vermelho. O pai disse que entendia. Não era mentira. Os números não fechavam. Mas não pensou no que vinha depois.

Em março, os planos acabaram. Os pacientes começaram a ligar. A secretária explicava sempre da mesma forma. Alguns xingavam. Outros pediam o telefone de outro médico. Outros perguntavam quanto ficava o particular e desligavam quando ouviam o valor. Um ou outro marcava, comparecia, pagava. Raramente retornava.

Ele lembrava de alguns. Seu Anísio, que vinha a cada três meses, sempre com a mulher, que ficava na sala lendo revista. Dona Célia, que trazia bolo de fubá no fim do ano. Seu Otávio, diabético, que esquecia a receita em casa quase toda vez. Nenhum deles apareceu depois de março. Alguns ele encontrou na rua. Cumprimentaram, disseram que iam marcar. Não marcaram.

A agenda foi esvaziando. Em abril, seis por dia. Em junho, três. Em agosto, um ou dois. Em outubro, teve uma semana em que não atendeu ninguém.

Uma vez, ele perguntou ao filho se não dava para voltar com um plano só, o mais antigo, aquele que pagava melhor. O filho respondeu que não dava. Alegou que a operadora tinha mudado as regras, que o contrato era antigo, que não valia a pena. Ele não insistiu.

Continua indo ao consultório todos os dias. Chega às sete e quarenta, faz café e se senta na cadeira da sala do fundo. Lê o jornal. Faz as palavras cruzadas. Às vezes aparece alguém para consulta particular e o filho o chama. Atende, escreve a receita, conversa um pouco. O paciente agradece e vai embora. Ele volta para a cadeira.

Em casa, janta. Assiste ao telejornal. Dorme às nove e meia. Acorda às cinco. Fica deitado até as seis, olhando o teto.

Numa segunda-feira de novembro, chegou ao consultório às sete e quarenta, como sempre. Não abriu a porta. Ficou parado na calçada, com a chave na mão, olhando a placa. Leu o próprio nome. Leu o nome do filho embaixo, em letra menor. Leu outra vez. Depois guardou a chave no bolso, virou as costas e foi embora.

A secretária ligou no fim do dia. O filho ligou. No dia seguinte, os dois ligaram de novo. Ele não atendeu. A casa ficou com as luzes apagadas e o portão fechado. O filho foi até lá no sábado. Bateu, chamou, esperou. Não tinha ninguém.

Na segunda seguinte, o filho mandou tirar o nome do pai da placa. Ficou só o dele. A secretária remarcou as consultas pendentes e passou a atender só pelo número novo. Em duas semanas, o consultório funcionava normalmente, com outro nome na fachada e outros pacientes na sala de espera. Ninguém perguntou pelo doutor. Alguns antigos ligaram, ouviram a resposta de sempre e desligaram.

O doutor não tinha ido embora. Caminhou até a rua do Comércio. A farmácia ainda estava lá, com o mesmo letreiro descascado. O farmacêutico, filho do antigo dono, reconheceu-o. Não disse nada. Puxou uma cadeira e colocou-a no fundo. No dia seguinte, o doutor voltou. Não pendurou placa. Não avisou ninguém. Sentava-se no fundo, lia o jornal, fazia as palavras cruzadas. Às vezes alguém entrava, via o homem de óculos e perguntava ao farmacêutico se era ele mesmo. O farmacêutico confirmava com a cabeça. A pessoa se aproximava. O doutor levantava os olhos. Ouvia a queixa. Pegava a caneta. Escrevia a receita.

Numa quinta-feira, uma mulher entrou com a filha de uns sete anos, febril. O doutor já tinha levantado a cabeça. Olhou a menina. Pediu que abrisse a boca. Auscultou com o estetoscópio que trazia no bolso do paletó. Escreveu a receita. A mulher perguntou quanto ficava. Ele disse que não era nada. Ela insistiu. Ele disse que depois ela via. A mulher saiu. Voltou ao jornal. A mão, a mesma. A caneta, a mesma. O resto, ninguém tirou.

Jorge Berg é desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região, Conselheiro Benemérito do Clube Atlético Mineiro e Adido Consular Cultural de Luxemburgo em Minas Gerais.

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