O que te ensinaram na escola sobre esquerda e direita?

O senador Cleitinho Azevedo
Raquel Lyra e Cleitinho (foto) podem ser mais do que lideranças estaduais: podem representar opções em disputas nacionais futuras. A questão, portanto, não é desistir do centro, mas compreender onde ele está se reconstruindo e quais lideranças serão capazes de transformá-lo em um projeto de país. Foto: Carlos Moura/Agência Senado

Na minha finada Mendes Mourão, escola pública que fechou as portas, não me recordo do que me ensinaram sobre esquerda e direita. O assunto veio na faculdade, em Ciências do Estado, um curso que poucos conhecem, com inúmeros textos. Não me convenci facilmente, mas tive que compreender e discutir muitos. Com o tempo, percebi que as classificações que usavam já não valem mais.

O Brasil mudou entre 2016 e 2026. O Congresso tomou para si muito poder, e as emendas se consolidaram como modo de operar. O Executivo se enfraqueceu. Aprendi que vivíamos um presidencialismo de cooptação. Hoje eu diria que vivemos um parlamentarismo branco, velado: o Legislativo manda como num parlamentarismo, falta oficializarmos o titulo de primeiro ministro, mas sem o ônus de sustentar um governo, enquanto o Executivo responde pelo que já não controla. Muito poder, pouca responsabilidade. O Judiciário, que sempre guardou para si a última palavra, atravessa, na minha leitura, a maior crise de sua história.

Agora estamos no segundo turno, e a discussão é eloquente. Lula e Flávio Bolsonaro disputam a Presidência com um valor simbólico enorme. Mas quem decide, no dia a dia, o que chega à ponta? Os deputados e senadores eleitos em 4 de outubro, que tomam posse em fevereiro, votarão orçamentos, executarão emendas e barrarão ou viabilizarão agendas do próximo presidente. No dia 25, escolheremos um símbolo. Na urna do primeiro turno, já escolhemos a engrenagem. E quase ninguém debate a engrenagem.

Há uma explicação para esse silêncio, e ela tem nome: economia da atenção. O filósofo Rodrigo Nunes, da PUC-Rio, observa em entrevista que os deputados mais votados desta eleição, “da esquerda, mas, sobretudo, da extrema direita”, são pessoas “cujas carreiras políticas já nascem no meio digital”, que transformam “capital atencional em capital político e econômico”. Para eles, a atuação dramática, de produzir cortes para as redes, “é muito mais importante do que sua atuação legislativa”. O feed premia personagens; regras de alocação de recursos rendem pouco engajamento.

Rótulo ou entrega?

O marqueteiro Igor Paulin, responsável pelas campanhas vitoriosas de Raquel Lyra, em Pernambuco, e JHC, em Alagoas, ambas contra candidatos apoiados por Lula, resume o desafio do governo: os bons indicadores econômicos não se traduzem em melhorias percebidas pela população, que segue endividada, insatisfeita com os serviços públicos e insegura. Nunes chega a diagnóstico semelhante, mas faz uma ressalva à oposição: explorar a insatisfação não basta. A promessa de “botar tudo abaixo” perde força quando não vem acompanhada de uma alternativa viável.

Paulin fala como parte interessada e vitoriosa, mas seu método me parece no mínimo informativo: campanhas que evitaram nacionalizar a disputa entre lulistas e bolsonaristas e se apoiaram em entrega local. Fica uma pergunta incômoda: se o eleitor cobra entrega, por que dois rótulos concentram mais de 92% dos votos válidos para presidente? Minha hipótese é que o rótulo decide no plano federal, onde a disputa é simbólica e a entrega parece distante, e a entrega decide no estadual, onde o resultado pode chegar à porta de casa.

A lição do sofá

Imagine o fim de um dia de trabalho. Você abre a Netflix, percorre dezenas de filmes e séries, mas não consegue escolher nenhum. Frustrado, pega o celular e abre o Instagram. Acontece, né? Um vídeo leva a outro, e quase uma hora passa sem que você perceba. Você consumiu muito conteúdo, mas não tomou uma decisão. Um programa de governo é como um filme: exige tempo, atenção e reflexão. Um vídeo de poucos segundos oferece uma reação imediata. O candidato precisa convencer o eleitor de que merece seu voto; nas redes, basta mantê-lo assistindo. Entre assistir ao próximo vídeo e decidir quem deve conduzir o país, a diferença é fundamental: um exige apenas atenção; o outro exige julgamento.

E há outra diferença. Para Nunes, “não existe mais a praça central da cidade”: o que parece uma grande praça pública pode ser um conjunto de conversas isoladas. Uma sociedade conectada não é necessariamente uma sociedade que dialoga.

O espaço entre os extremos

Por que a política foi para os extremos? Nunes responde que foi “porque esse centro liberal se desmanchou”: “a crise é uma crise de credibilidade do centro”. E o terreno digital, avisa, não é neutro: os modelos das plataformas, que maximizam o engajamento, favorecem o conteúdo polêmico, e isso vale para influenciadores “seja à direita, seja à esquerda”.

Voltemos à pergunta do título. A régua que circula no debate público mede uma coisa só, a posição diante da economia e da igualdade. Hoje pesa cada vez mais um eixo sociocultural. Nem sempre quem é de direita na economia é conservador nos costumes, e nem todo mundo na esquerda defende as mesmas pautas comportamentais. Há liberal que não é conservador, conservador que quer o Estado forte, progressista que desconfia do mercado e socialista que não é progressista nos costumes. Chamar tudo isso de “direita” e “esquerda” é explicar pouco e acusar muito.

Deveríamos, então, desistir do centro? O PSD apostou em Ronaldo Caiado, com Gilberto Kassab como vice, mas terminou em quinto lugar, com 2,18% dos votos. Em contrapartida, Raquel Lyra foi eleita governadora de Pernambuco no 1° turno, enquanto Cleitinho, do Republicanos, venceu em Minas Gerais com 55,4% dos votos válidos. O contraste sugere uma distinção importante: talvez o centro tenha perdido força como posição ideológica, situada entre dois polos, mas continue relevante como fonte de credibilidade, construída por quem fala a língua do eleitor e entrega resultados.

A hipótese ainda precisa ser testada, pois Cleitinho é difícil de classificar ideologicamente e dois casos não fazem uma regra. Mas a política não se resume ao presente nem às posições já consolidadas. É também a capacidade de imaginar futuros possíveis e construir novas alternativas. Raquel Lyra e Cleitinho podem ser mais do que lideranças estaduais: podem representar opções em disputas nacionais futuras. A questão, portanto, não é desistir do centro, mas compreender onde ele está se reconstruindo e quais lideranças serão capazes de transformá-lo em um projeto de país.

A música e a sala

Precisamos de novas lideranças, à esquerda e à direita, capazes de duas coisas: sustentar a obra longa de governar e conquistar a atenção de quem vive no ritmo do feed. Quem só faz a primeira fala só para poucos. Quem só faz a segunda pode ganhar a eleição e fracassar no governo. Raquel Lyra e Cleitinho, cada um à sua maneira, sabem tocar a música que os eleitores sabem ouvir. Mas governar exige mais do que acertar o tom.

Música, porém, também é de quem controla a sala, e há duas onde o poder se acumulou sem responsabilidade. Uma é a das plataformas: Nunes chama de absurdo que a informação do mundo esteja “nas mãos de poucas corporações e indivíduos”. A outra é a engrenagem do começo, o Congresso que escolhemos na urna do primeiro turno e que decide quanto poder cada um terá sem responder pelo que decide. Mesma assimetria: muito poder, pouca responsabilidade.

É aqui que volto à minha Mendes Mourão. A escola que fechou não me ensinou esquerda e direita, e também não me ensinou o que mais precisaríamos saber: ler um feed e descobrir quem responde pelo poder. Letramento digital e educação cívica fazem parte da reforma do Estado, não são enfeite dela. No dia 25, escolheremos quem ocupará o Palácio do Planalto. Que o debate sobre o Congresso que elegemos, e sobre quem manda na nossa atenção, não fique para depois. Trocar os músicos sem reformar a sala é continuar tocando na mesma acústica. A democracia precisa de novas lideranças, mas também de instituições capazes de fazê-las responder pelo que prometem, decidem e entregam.

João Paulo Barros é Mestre em Direito pela UFMG, graduado em Ciências do Estado pela UFMG e habilitado em Ciências Políticas pela Universidade de Lisboa. Tem trajetória na gestão pública, articulação institucional e planejamento, tendo ocupado cargos estratégicos na Prefeitura de Belo Horizonte e em instituições privadas.

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