Há um tipo de bom-dia que se dirige mais ao cargo do que à pessoa. Vi isso de longe, na Magistratura, e no modo como certos homens públicos eram tratados. Não sei o que aconteceu com eles quando deixaram suas funções; não os conhecia a ponto de saber. Mas a mudança de tratamento, quando acontece, deve causar estranheza. O cargo empresta um bom-dia. De quem era, afinal, a consideração que vinha junto?
Voltei a pensar nisso por causa de um texto. Dadá, meu familiar de sangue e irmão espiritual que a vida me deu, enviou uma matéria do Minha Vida sobre os estoicos. Ele vive me enviando leituras. Às vezes um artigo, às vezes uma frase que anotou, uma reportagem guardada por anos. Manda porque se lembrou de mim. É como deixar uma fruta na porta: não fica esperando que a gente coma na frente dele, nem pergunta se estava doce. Depois conversamos, sobre aquilo ou sobre qualquer outra coisa.
Li a matéria. Uma frase me prendeu: a fama não está nas nossas mãos. Concordei, e logo pensei que concordar é a parte fácil. A gente gosta de um elogio. Eu gosto. Quem trabalhou com empenho sabe o prazer de ouvir que fez bem alguma coisa. Ser reconhecido não é pecado; difícil é perceber a hora em que esse reconhecimento começa a nos fazer falta demais. Um cumprimento distraído, uma pessoa que não se lembra do nosso nome, e o dia já parece um pouco pior. Por quê?
Fiquei com uma pergunta incômoda: quem sou eu quando ninguém está aplaudindo? Não a faço só aos que ostentam títulos. Se fosse assim, ela não serviria para muita coisa. A graça amarga das perguntas que importam é que acabam chegando a quem as formulou. Há vaidades que reconhecemos prontamente no vizinho e desculpamos em nós mesmos com argumentos excelentes. Essas desculpas aparecem com uma rapidez espantosa, muito antes de termos coragem de examinar o que realmente nos incomodou.
O espelho ajuda nessa confusão. Aos poucos, passamos a ver nosso rosto pelo que os outros dizem dele. E há dias em que gostamos tanto do reflexo que nem percebemos o quanto mudamos para conservá-lo. E existe a máscara, que nem sempre é falsa. A profissão pode ser amada, o cargo pode ter sido exercido com dedicação, a autoridade pode ter servido a muita gente. Não gostaria de tratar tudo isso como teatro. O problema é chegar a casa, tirar o paletó, ou o jaleco, ou o que for, e sentir que tirou junto a própria pessoa.
Penso em Garrincha. Mané, a Alegria do Povo. Bicampeão do mundo em 1958 e 1962, fez tanta gente feliz com um futebol que parecia inventado na hora. O corpo sofreu, vieram as dores, o alcoolismo, as dificuldades financeiras. Morreu aos 49 anos, em 1983. Sei que uma vida assim não cabe numa lição sobre fama. Ainda assim, custa lembrar como acompanhávamos seus dribles e como era pouco, perto disso, o que conseguíamos fazer diante do sofrimento do homem. O aplauso não podia ajudá-lo em tudo. Nem sabemos quantas coisas ele precisava que não tinham nada a ver com futebol.
Fora dos estádios e dos palcos, há prestígios que não aparecem em jornal. O gerente que faz questão do tratamento de doutor. O político que continua falando como se seu mandato fosse uma parte do corpo. O médico que talvez precise aprender a estar numa conversa sem ser apresentado pela profissão. Não penso que sejam todos assim. Mas conheço a tentação: quando a sala muda, o telefone toca menos e as atenções diminuem, é fácil entender o desaparecimento da deferência como desaparecimento do próprio valor. Ninguém ensina a se cumprimentar sozinho.
Eu próprio hesito ao escrever sobre isso. Uma profissão exercida com dedicação merece respeito, e seria injusto tomar o orgulho pelo trabalho como sinal de vaidade. Mas há uma diferença entre gostar do que fazemos e exigir que o mundo continue nos tratando como se a função fosse inseparável da pessoa. Não consigo julgar ninguém de cima. Também não tenho certeza de estar livre dessa armadilha.
Também me lembro de Robin Williams. Fazia rir, e morreu em 2014; só depois de sua morte se identificou uma grave doença cerebral por corpos de Lewy. Amy Winehouse, com aquela voz difícil de esquecer, morreu aos 27 anos, em 2011, por intoxicação alcoólica, depois de viver sob uma exposição que acompanhava até seus tropeços. Não sei o que a fama representava intimamente para cada um. Sei que ela não lhes serviu de proteção. É um engano nosso imaginar que alguém admirado por milhões esteja, por isso, menos sujeito ao sofrimento.
Nem amigos, nem fé, nem tratamento oferecem garantia contra toda dor. Podem fazer diferença, e muita. Mas cada história guarda partes que quem está de fora não alcança. Quanto mais penso nisso, menos vontade tenho de dar conselho aos outros. Já basta o trabalho de não me confundir com o que dizem a meu respeito, seja elogio ou crítica.
Dadá talvez nem imagine tudo o que aquele link despertou. Não sei se conversaremos sobre a frase dos estoicos. Gosto de saber que podemos discordar ou não, mudar de assunto e continuar sendo irmãos de vida e de boas prosas. Não há cargo nessa troca, nem plateia, há cumplicidade amiga e de irmandade. Ele manda uma leitura; quando pode, a gente conversa e fala da vida. É pouco? Tenho certeza que não. E talvez eu devesse dizer isso a ele numa próxima conversa, em vez de deixar que descubra por acaso lendo estas linhas.