Reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manteve a tradição de que quem vence em Minas Gerais chega ao Palácio do Planalto. O petista reverteu no 2º turno a derrota que havia sofrido no estado na primeira rodada da disputa.
Com o resultado, o mote “quem ganha em Minas, ganha no Brasil” segue intacto desde a redemocratização. A única exceção nas eleições diretas continua a ser Getúlio Vargas, eleito em 1950 mesmo derrotado entre os mineiros.
No plano nacional, Lula somou 51,79% dos votos válidos, ante 48,21% de Flávio Bolsonaro. Em Minas, o petista venceu por 50,43% a 49,57% — foram 6.351.099 votos para o candidato reeleito, contra 6.241.786 do oponente.
Virada no estado
Lula chegou ao 2º turno atrás em Minas. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) terminou a primeira rodada no estado com 48,24% dos votos válidos, contra 43,32% do petista, uma diferença de quase 590 mil eleitores.
O cenário era adverso. O petista venceu em mais cidades no 1º turno, 452 contra 401, mas teve queda de desempenho em todas as 853 cidades mineiras em relação ao último pleito eleitoral, em 2022.
A virada ocorreu em um estado que avançou à direita no 1º turno. Em 4 de outubro, Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito governador eDomingos Sávio (PL) foi o senador mais votado do estado.
Aposta do PT
A direção nacional do PT tratava a vitória em Minas como obrigatória. Como mostrou O Fator na sexta-feira (23), a cúpula reagiu mal à avaliação, comum entre petistas mineiros, de que Lula poderia perder no estado e ainda assim se reeleger.
Para dirigentes nacionais, esse discurso soava como entrega de toalha antes da hora e reduzia o peso do PT mineiro. A cúpula sustentava que não havia plano alternativo. “Se for para quebrar uma tradição, que seja outra”, resumiu um interlocutor.
Na reta final, Lula escalou a senadora eleita Marília Campos (PT) para percorrer o interior e conversar com prefeitos. Do outro lado, Flávio fez atos ao lado do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e de Cleitinho.
O PL mineiro também mirou os idosos que faltaram ao 1º turno. Em Minas, a abstenção entre eleitores acima de 70 anos foi maior do que a média nacional, e o partido distribuiu a deputados e filiados um levantamento sobre esse público.
Histórico do PT em Minas
A virada ocorre apesar da dificuldade do PT no estado desde o governo de Fernando Pimentel. Eleito em 2014 ainda no 1º turno, com 52,98% dos votos válidos, o petista terminou a tentativa de reeleição em terceiro lugar, com 23,12%.
A gestão Pimentel, entre 2015 e 2018, foi marcada pela crise fiscal e pelo desgaste com a Assembleia Legislativa (ALMG). O governo decretou calamidade financeira em dezembro Desde então, o PT não voltou ao governo de Minas. Em 2022, o partido apoiou Alexandre Kalil, então no PSD, que foi derrotado por Romeu Zema (Novo) ainda no 1º turno. Neste ano. a montagem do palanque de Lula no estado se arrastou por meses.
Depois da desistência do então senador e hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Rodrigo Pacheco, o PT lançou o deputado federal Patrus Ananias, que terminou o 1º turno em segundo lugar, com 26,34% dos votos válidos.
Termômetro desde 1950
Vargas segue como o único presidente eleito pelo voto direto sem vencer em Minas. Em 1950, o gaúcho ficou em segundo lugar no estado, com 418 mil votos, atrás do brigadeiro Eduardo Gomes (UDN), que teve 441 mil, segundo levantamento do Poder360.
Nacionalmente, Vargas venceu com 48,7% dos votos. O mineiro Cristiano Machado, candidato do PSD, ficou em terceiro, abandonado pelo próprio partido em um episódio que deu origem ao termo “cristianização”.
Desde a redemocratização, todos os presidentes eleitos venceram em Minas, de Fernando Collor a Jair Bolsonaro. Com a vitória deste domingo, Lula soma quatro eleições presidenciais vencidas no estado, em 2002, 2006, 2022 e 2026.