A curva que Flávio errou

Foto: Charles Vieira

Na Fórmula 1, quem está na frente não precisa entrar em toda curva acelerando. É preciso conhecer o carro, administrar os riscos e saber a hora de tirar o pé. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno com 2,2 milhões de votos de vantagem sobre Lula. Três semanas depois, terminou 4,4 milhões atrás. O que aconteceu nesse intervalo diz muito sobre os erros de sua campanha.

O primeiro turno mostrou a força do antipetismo. Flávio conseguiu concentrar o voto de uma direita que queria derrotar Lula, inclusive atraindo eleitores que poderiam optar por outras candidaturas. Mas o segundo turno exigia algo diferente. Não bastava mobilizar quem já estava convencido. Era preciso conversar com um eleitor desconfiado dos dois lados, pouco interessado na guerra política e preocupado com as consequências da própria escolha.

A campanha parece não ter compreendido inteiramente essa mudança. O clima de já ganhou antecipou discussões sobre ministérios, distribuiu protagonismos e abriu espaço para vaidades. Enquanto ainda havia milhões de votos em disputa, parte do entorno de Flávio já se comportava como governo.

MOBILIZAÇÃO GANHA ELEIÇÃO. E talvez esteja aí uma das maiores diferenças entre as duas campanhas. Flávio apostou numa mobilização vaidosa, com protagonistas demais, egos em disputa e energia dispersa. Lula apostou numa mobilização popular, alimentada pela urgência, pelas teorias que circulavam nos grupos e por temas capazes de unir as pessoas em torno de uma causa. Enquanto um lado disputava os holofotes, o outro buscava movimentar as pessoas. E eleição não se ganha apenas fazendo barulho. É preciso transformar mobilização em voto.

A estratégia dos debates foi um exemplo. Flávio precisava reduzir resistências, transmitir confiança e demonstrar capacidade de governar. Preferiu, especialmente no debate da Band, uma postura de confronto, frases de efeito e provocações. Pablo Marçal ganhou espaço na preparação e levou para a campanha um estilo que funciona muito bem para viralizar, mas que também desperta rejeição. O que rende aplausos na própria torcida nem sempre ajuda a conquistar quem está fora dela. As reações negativas de indecisos chegaram a provocar uma revisão da estratégia.

Daniella Marques também acabou no centro de um desgaste evitável. Em meio às especulações sobre seu papel num eventual governo, suas declarações sobre uma transição de dois anos no Bolsa Família abriram espaço para interpretações sobre cortes. Ela afirmou que não pretendia acabar com os benefícios, mas a campanha passou a gastar energia explicando o que faria com um programa do qual milhões de famílias dependem. A discussão sobre nomes e cargos havia chegado antes da consolidação da vitória.

Enquanto Flávio administrava esses ruídos, Lula encontrou em André Janones um instrumento importante de mobilização. O Exército do Lula ganhou milhões de participantes no WhatsApp e colocou a militância em movimento. Não foi apenas uma disputa por engajamento. A comunicação passou a circular com intensidade pelos grupos, alimentando conversas sobre benefícios sociais, renda, trabalho e o risco de perder conquistas.

O medo de cortes ganhou força, ainda que nem todas as acusações correspondessem a propostas confirmadas de Flávio. Politicamente, porém, a dúvida já era relevante. Para quem depende de um benefício, a possibilidade de perdê-lo pode pesar mais do que uma promessa de melhora futura. Lula também buscou dar concretude à campanha com propostas ligadas ao cotidiano, como o fim da escala 6×1 e a ampliação de programas sociais.

Os números ajudam a compreender a virada. Do primeiro para o segundo turno, Lula acrescentou 10,4 milhões de votos. Flávio cresceu 3,7 milhões. A abstenção caiu, e o Nordeste deu ao petista uma vantagem de 13,6 milhões de votos. Não é possível atribuir esse movimento a uma única causa, nem afirmar exatamente de onde veio cada voto. Mas é evidente que a disputa foi decidida pela capacidade de ampliar o eleitorado, e não apenas de manter a militância mobilizada.

Há outro dado importante. Na pesquisa Quaest de 21 de outubro, a rejeição a Lula havia caído de 53% para 47% em uma semana, enquanto a de Flávio passou de 54% para 52%. Mais do que a pequena vantagem numérica nas intenções de voto, esse movimento deveria ter acendido o alerta. Numa eleição apertada, reduzir o medo que o eleitor sente de você pode ser tão importante quanto aumentar sua aprovação.

Foi, em boa medida, a eleição do menos pior. Uma disputa entre dois candidatos com rejeições elevadas, na qual muita gente não precisava encontrar alguém para admirar, mas alguém em quem aceitasse votar.

Isso ajuda a explicar por que a comunicação baseada apenas no ataque encontra limites. O eleitor já conhece boa parte das acusações contra Lula e contra a família Bolsonaro. Repeti-las pode reforçar convicções, mas não necessariamente muda votos. Quem ainda está em dúvida procura alguma segurança sobre o que acontecerá com sua vida depois da eleição.

A vitória de Lula não apaga os erros de sua própria campanha, assim como a derrota não diminui os quase 60 milhões de votos de Flávio. Mas a diferença entre o primeiro e o segundo turno deixa uma questão para quem trabalha com política: de que adianta dominar a conversa entre os seus se você não consegue diminuir a resistência dos outros?

Flávio entrou na reta final tentando acelerar, quando a eleição exigia mais controle. A vaidade, os holofotes antecipados e o excesso de confronto acabaram ocupando um espaço que deveria estar reservado ao eleitor.

Na última curva, não era preciso fazer a volta mais bonita. Era preciso entender que a corrida ainda não tinha acabado.

Vitor Komura é jornalista e especialista em marketing. Proprietário de uma agência de marketing político, fez campanhas políticas nacionais e internacionais.

A curva que Flávio errou

Leia também:

A curva que Flávio errou

O partido que ganhou força na corrida pela vice-presidência da Assembleia de Minas

Bastidores: o papel de Nikolas na campanha de Flávio Bolsonaro no 2º turno, de Minas ao Nordeste

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse