Há uma pergunta que deveria acompanhar todo brasileiro antes de cometer uma pequena infração, daquelas que julgamos inofensivas: qual o custo social deste meu ato?
Imagine o trânsito de uma cidade em que todos avançassem o sinal porque estavam com pressa. Ou uma fila em que cada pessoa se considerasse importante o suficiente para passar à frente. Ou, ainda, uma sociedade em que todos sonegassem impostos, supondo que ninguém perceberia. Seria o paraíso dos espertos ou o inferno de todos?
Em tese, a resposta de ser um cenário ruim parece óbvia. Na prática, porém, temos flertado cada vez mais com esse cenário. O recente processo eleitoral brasileiro de 2026 também nos convida a refletir sobre como boa parte da sociedade relativiza regras, justifica comportamentos e trata os limites institucionais conforme a conveniência e preferências políticas.
“É rapidinho.” “Todo mundo faz.” “Não vai prejudicar ninguém.” “Conheço uma pessoa que resolve.” “O povo nem vai entender.” O repertório é vasto, e a criatividade nacional, nesse campo, parece não conhecer limites. Chamamos isso de *jeitinho brasileiro*, expressão que pode designar criatividade e capacidade de improvisação, mas que também serve de embalagem simpática para privilégios e transgressões de elevado custo social.
O problema não é ter criatividade para encontrar soluções. Isso é excelente. A questão é acreditar que, para resolver nossos problemas, temos o direito de criar problemas para os outros.
Uma frase tradicionalmente atribuída a Sócrates afirma que os homens bons deveriam respeitar até as leis más, para que os homens maus respeitassem as leis boas. Embora sua formulação exata não seja seguramente identificada como citação literal do filósofo, a questão está presente no diálogo Críton, de Platão.
Condenado injustamente à morte, Sócrates recusa a possibilidade de fugir da prisão, mesmo tendo oportunidade para isso. Seu dilema continua atual. É uma reflexão oportuna em tempos nos quais figuras políticas desafiam decisões judiciais ou procuram escapar de suas consequências.
Não se trata de defender obediência cega. Leis injustas podem e devem ser contestadas pelos meios democráticos. A democracia depende, inclusive, da capacidade de questionar o poder e preservar os mecanismos de freios e contrapesos. Mas há uma diferença entre lutar para mudar uma regra e convenientemente ignorá-la porque ela atrapalha nossos planos.
Aristóteles, ao refletir sobre política, justiça e formação das virtudes, ajuda a compreender outra dimensão do problema: uma sociedade não se constrói apenas com boas leis, mas também com hábitos que favoreçam o bem comum. É justamente nos hábitos cotidianos que a democracia pode ganhar ou perder terreno. E isso depende de cada um de nós.
A vaga destinada à pessoa com deficiência ocupada “só por cinco minutos”, o acostamento utilizado para escapar do congestionamento, a tentativa de furar a fila porque alguém conhece o atendente e a pequena fraude justificada pelo argumento de que “o governo usa mal o dinheiro” parecem episódios isolados. Mas todos transmitem a mesma mensagem: as regras valem para os outros.
Quando essa lógica se generaliza, a igualdade perante as normas vira ficção. A vantagem passa a depender menos do direito e mais da capacidade de contornar o sistema. Pior: a esperteza deixa de ser apenas tolerada e passa a ser celebrada como sinal de competência.
Pierre Bourdieu oferece uma chave interessante para compreender como esses comportamentos se reproduzem. Seu conceito de capital cultural abrange conhecimentos, competências e disposições adquiridos socialmente, transmitidos, entre outros espaços, pela família, pela escola e pelas experiências cotidianas.
Não significa que o sociólogo francês tenha elaborado uma teoria específica sobre o jeitinho brasileiro, tema explorado por diversos autores nacionais. Sua contribuição permite, entretanto, compreender como uma sociedade ensina, valoriza e reproduz determinadas maneiras de agir.
Uma criança que vê os adultos respeitarem as regras mesmo quando ninguém está olhando aprende que a honestidade não é apenas uma estratégia para evitar multas. Mas, se presencia repetidamente a celebração de quem consegue levar vantagem, a mensagem pode ser outra: cumprir a regra é coisa de ingênuo, inteligente é saber escapar dela.
Eis uma inversão preocupante. A esperteza vira mérito, o privilégio vira competência e o cidadão correto corre o risco de ser tratado como alguém que não sabe jogar o jogo.
As análises do antropólogo Michel Alcoforado, especialmente em Coisa de Rico, ajudam a aprofundar essa reflexão ao examinar códigos de comportamento, distinção social e reprodução de privilégios. No Brasil, a desigualdade também se manifesta nas facilidades que algumas pessoas conseguem mobilizar: um contato influente, uma porta reservada, um procedimento acelerado ou uma obrigação da qual conseguem se esquivar.
O jeitinho, portanto, nem sempre é expressão de criatividade popular. Pode ser também um mecanismo de distinção: para uns, a regra é obrigatória; para outros, negociável.
O resultado é uma sociedade que não apenas tolera pequenos desvios, mas ensina informalmente que vale a pena praticá-los. Com isso, enfraquece disposições fundamentais à solidariedade e à democracia, como a confiança, a cooperação, a impessoalidade e o reconhecimento de direitos iguais.
Há ainda um agravante: quando todos desconfiam de todos, a solidariedade diminui e precisamos gastar mais com fiscalização, controle e punição. O tempo e os recursos consumidos para impedir que alguém leve vantagem deixam de ser empregados em atividades que poderiam beneficiar a coletividade. A esperteza individual pode até render dividendos. A conta social, porém, costuma ser alta.
A objeção é legítima: nem toda lei é justa, nem toda regra merece ser preservada. A história das democracias também foi construída por pessoas que desafiaram normas discriminatórias, resistiram a abusos de poder e se mobilizaram em movimentos revolucionários.
Mas a desobediência civil, quando moralmente justificável, não se confunde com o oportunismo cotidiano. Uma coisa é contestar publicamente uma norma por razões de justiça e lutar por sua mudança; outra é desrespeitá-la para obter uma vantagem particular, deixando que os demais arquem com as consequências.
A diferença está no fundamento da conduta: estou defendendo um princípio que considero válido para todos ou apenas me aproveitando de uma transgressão que me favorece?
Immanuel Kant oferece um teste desconfortável, mas necessário. Seu imperativo categórico nos convida a agir segundo princípios que possamos querer transformar em regras universais. Quem gostaria de viver em uma sociedade na qual todos furassem filas, sonegassem quando julgassem conveniente ou utilizassem contatos para escapar de obrigações comuns?
Se a universalização da nossa conduta destrói a própria regra da qual todos dependem, talvez o problema não esteja na regra, mas na pretensão individual de ser uma exceção. A ética começa quando deixamos de perguntar se seremos descobertos e passamos a perguntar se nossa atitude é justificável socialmente.
Respeitar as normas é reconhecer que não vivemos sozinhos, nem somos protagonistas exclusivos de uma sociedade que exista para atender às nossas conveniências. Existem outras pessoas, outros direitos e interesses coletivos que merecem consideração e respeito.
Uma democracia não se sustenta apenas com eleições, Constituição e instituições. Ela se sustenta também em cidadãos que compreendam que a liberdade individual não inclui o direito de transferir aos demais o custo da própria esperteza.
Talvez seja hora de trocar uma velha pergunta brasileira: “Por que eu deveria cumprir a regra se ninguém cumpre?” por outra, muito mais democrática: “Que sociedade construiremos se ninguém respeitar sequer as regras mais básicas?”
A resposta passa por Sócrates, Aristóteles, Bourdieu e Kant, mas também por uma vaga de estacionamento, uma fila e um sinal vermelho. O respeito à coletividade não é favor, gentileza ou ingenuidade. É uma exigência ética que se traduz em duas responsabilidades inseparáveis: cumprir as regras legítimas e contribuir para que sejam cumpridas por todos.
Se quisermos uma sociedade em que as normas protejam nossos direitos, teremos de compreender que elas também limitam nossos privilégios. Caso contrário, continuaremos celebrando a esperteza de alguns, esperando a nossa vez e reclamando da desordem que todos ajudamos a produzir.